Olivier Rolin – Entrevista a propósito de “Tigre de Papel”

rolinoO escritor e pensador francês Olivier Rolin em conversa sobre “Tigre de Papel” (Edições ASA), romance que funciona como testemunho de uma época que marcou França e o próprio autor: o Maio de 68. Visto por dentro, o Maio de 68 é contado pelo narrador à jovem filha de um amigo já morto. Uma lição de história em forma de romance.É por isso que não utilizou o seu próprio nome?
Sim, de qualquer forma é um romance, não havia nenhuma razão para não ser um romance. E na época eu tinha um nome falso, que era “Antoine”. Mas eu fiz como em geral se faz com um romance. O autor fala da sua vida, das pessoas que nela entraram, dos eventos por que passou e depois modifica-os.
Por vezes a personalidade do narrador parece dividir-se.
É sempre ele. Às vezes fala dele mesmo dizendo “tu”, outras dizendo “eu”. Às vezes é observador dele mesmo.
O livro é dedicado especialmente aos franceses? Para quem não viveu o Maio de 68 pode ser difícil de entender.
Não. Cada romance aborda um determinado período da História. Este fala do ano de 68 em França, mas espero que diga algo aos alemães, aos portugueses…
É uma espécie de lição de história?
Não é uma lição porque um romance nunca pode ser uma lição, mas é uma tentativa de fazer entender quais eram os ideais e os sonhos dos jovens da época.
Actualmente, em França, este período já aparece nos programas escolares?
Não. E este livro tem a pretensão de mostrar aos jovens o que aconteceu na altura. Mas objectivamente é muito difícil compreender o que aconteceu na época. Não foi uma revolução, mas as pessoas acreditavam que a faziam. É algo difícil de situar no tempo. A base é bastante difusa.
Nota-se nas personagens uma certa desilusão.
Há desilusão, mas eu prefiro a palavra ironia. Mas há também um sentimento de simpatia pelo passado.
No entanto, parece sentir-se que eles perderam algo da juventude?
Não acho. Não é um livro de arrependimento. Eles não pensam que perderam o seu tempo, foi um período de formação. Não sinto que tenha perdido a juventude.
Um momento marcante de “Tigre e Papel” é quando Treize vê o mar, onde parece perceber que há outras coisas na vida?
É verdade. Todo o que fosse relativo a divertimentos pessoais, ao amor, à poesia, à beleza, passava-nos ao lado.
O vosso tipo de luta era algo pacífico. Preferia que tivesse sido mais violento?
Eu pessoalmente teria gostado disso. Mas o que eu apreciava, mais do que a violência, era a ilegalidade. Em comparação com movimentos de outros países não éramos tão violentos, porque não matámos ninguém. Era muito importante o elemento Robin dos Bosques, os documentos falsos. Não era só a política, apreciávamos muito o elemento aventura.
Esta obra convida os leitores a discutir o assunto. Esse era o objectivo?
É um convite à discussão, à aprendizagem. No entanto, não quero ser tomado por alguém que tem lições políticas a dar. Escrevi um livro que aborda um período histórico, porque eu próprio tomei parte de forma intensa dessa época. Eu sou um escritor, um novelista, não um porta-voz de um antigo movimento político, de um antigo esquerdismo. Não quero ser o autor de um livro que faz um julgamento político. Cabe a cada um julgar por si. A minha intenção foi apenas mostrar o que aconteceu. A literatura permite-nos conhecer coisas que não fazem parte de nós.
Às vezes um romance ensina mais do que os próprios livros de História. Concorda?
Mais do que a História, um romance permite dar conhecer a verdade de uma época.
Acha que a juventude da actualidade não tem causas pelas quais lutar?
Cheguei a pensar assim. Mas, actualmente, com a globalização, há cada vez mais o renascimento de movimentos que se assemelham aos dos anos 60. Começa de novo a haver causas. Há dez anos a juventude estava muito despolitizada, mas agora nem tanto.
Este livro representa o fim de um ciclo na sua carreira?
Não penso regressar a este tema. Posso fazer alusões à época, mas sem ser o tema principal.

Esta obra é autobiográfica?
Bastante, mas de qualquer forma as histórias são inventadas. Nenhuma ocorreu exactamente como está descrita. Quase nenhuma personagem corresponde a uma personagem real. Parti de coisas que vivi e, como num romance, transformei, deformei.

 

(Entrevista realizada em 2003)

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