Jesús del Campo – Entrevista a propósito de “As Últimas Vontades do Cavaleiro Hawkins”

jesus-campoJesús del Campo, escritor espanhol, viajante e filólogo, pegou na personagem Jim Hawkins, de “A Ilha do Tesouro”, e deu-lhe um futuro, imaginou-lhe uma vida em “As Últimas Vontades do Cavaleiro Hawkins”, lançado em Portugal Ambar. Del Campo revelou ser um escritor que quer devolver a felicidade ao enredo das obras literárias e fá-lo de um modo sublime neste romance que respeita a tradição das histórias de aventuras, mesmo sendo uma obra inovadora.

 

Como surgiu a ideia de pegar numa personagem já existente em outros livros e dar-lhes continuidade?

Todas as personagens são novas, excepto Jim Hawkins, que é o único sobrevivente de “A Ilha do Tesouro”. O livro é uma metáfora da vida. A pousada do Almirante Benbow é uma metáfora da vida, um local de passagem. Há sempre gente a chegar e a partir. As pessoas chegam à nossa vida, ficam algum tempo e logo vão embora. Isso é uma metáfora do conhecimento humano porque é assim que aprendemos a conhecer a vida.

Porque escolheu o Jim Hawkins para personagem?

Por muitas razões. Em primeiro lugar, acho incrível que na literatura contemporânea se tenha renunciado à felicidade. Não há finais felizes, nem situações felizes. O leitor contemporâneo está totalmente familiarizado com o desastre, com a tragédia com a perda: assassinatos, psicopatas, crimes. Pior, isso parece-nos credível. Jim Hawkins é o contrário, representa a possibilidade de que algo na vida termine bem, com algum dinheiro, a possibilidade de iniciar uma nova vida com independência, com novos amigos, num local seguro, numa nação poderosa. Desse ponto de vista, Jim Hawkins é um desses símbolos literários que te deixam a tentação de pensar: esse tipo terá sido capaz de manter a felicidade? O final feliz de “A Ilha do Tesouro” aguenta-se quanto tempo? Jim Hawkins é um desafio para se questionar se na literatura há lugar para a alegria e a felicidade.

Acredita que sim?

Penso que era Paracélsio que dizia: não há venenos, há doses. Não acredito numa felicidade intensa, mas podemos lutar por uma dose de felicidade. Temos o direito e o dever de lutar por ela. Muitas vezes esquecemo-nos disso, aceitamos que a vida é dura e nem se dá por isso.

Porque é que os espanhóis não tiveram uma presença mais importante na obra?

JC: Quis simbolizar que naquela altura a única forma espanhola de estar no mundo era abandonar o país. Na segunda metade do século XVIII nota-se de uma forma muito dramática que Espanha não se pode incorporar nas grandes correntes do Iluminismo e do Racionalismo europeu. Há um grupo de gente que tenta, mas são minoritários. Por isso a sua presença no livro é fugaz, é como uma sombra, são exilados.

Não tinham nada para contar?

Têm, mas estão numa atitude taciturna pela condição de exilados e de observadores e não quis que contassem mais estórias para sublinhar o carácter enigmático.

Acha que Robert L. Stevenson iria gostar de ler este livro?

JC: (Risos)… Em primeiro lugar Stevenson não partiu do zero, vivia num país com uma forte tradição de narração oral. De certeza que desde criança ouviu muitas estórias de marinheiros, piratas, naufrágios, e “A Ilha do Tesouro” é uma herança de algo anterior. Suponho que de certo modo o que tentei aqui foi alargar o clube de pessoas que gostam da aventura. Continuar essa tradição.

E se um escritor fizesse uma obra a partir de uma personagem sua, ia ter curiosidade de a ler?

Ah, claro. Porque não? Na realidade a vida também é isso, fazêmo-lo constantemente. Alguém me conta uma estória, lembro-me dela e volto a contá-la e aprendemos com essa estória. Seria divertido.

Este é um livro de contos embrulhado num romance?

Está correcto. Quis manter dois planos: que as histórias fossem autónomas e ao mesmo tempo que as pessoas que contam essas estórias tivessem as sua próprias peripécias, a sua experiência pessoal.

Todas vão de um local ao outro. Entretanto, quero que se passem coisas e que o narrador tenha uma experiência pessoal.

Onde foi buscar inspiração para cada uma dessas histórias?

Basta um qualquer detalhe, uma canção, uma imagem de um filme, um passeio junto ao mar, para se pensar: o que se passou aqui há muitos anos? Basta um flash de imaginação para partir do zero e começar a tirar, a tirar, a tirar…

Há poucas mulheres no romance, apesar de preponderantes no desenrolar da acção, e quase nunca contam estórias.

Acho que as mulheres no mundo das aventuras são tão poderosas que há que dosear a sua presença com cuidado, senão o amor transforma-se numa força demasiado poderosa. Neste mundo do risco tenho a preocupação que a mulher tenha uma presença latente e significativa, mas que não invada demasiado os afectos. Em toda a aventura há que combinar a acção e a reflexão. Se Hawkins reflecte demasiado pela sua amada, a acção pode ficar esquecida demasiado tempo.

Hawkins parece viver um pouco das aventuras e dos riscos dos outros?

Depois de uma aventura na infância em que conhece Long John Silver e passa por tantos perigos e acaba bem, pensei que numa época tão curiosa para a cultura, com tantos clubes e tertúlias (toda a gente estava orgulhosa do seu conhecimento) era possível um Hawkins contemplativo e desconfiado em relação a um segundo risco.

Este livro também serve para contar um pouco da História da Europa?

É como um retrato de época. Tem o terramoto de Lisboa, as guerras da Prússia e entre ingleses e escoceses e um monte de referências, mas não quero que seja só isso. Quero que através da evocação, o passado seja uma lição para a nossa vida, não apenas um simples exercício de contemplação.

O que o levou a optar pelo século XVIII?

No século XVIII surgiu uma coisa importantíssima: chegaram as máquinas. E, desde logo, as pessoas se questionam, com medo, se a imaginação vai acabar, se o mundo vai mudar drasticamente. Percebe-se que vai haver uma revolução em França, que os Direitos do Homem vão mudar o mundo, vai haver uma revolução na América. Então começa o homem moderno e quis investigar e demonstrar que as máquinas não acabaram com a imaginação, que basicamente continuamos a fazer o que faziam os nossos pais e os nossos avós: dançamos, sonhamos, amamos, desejamos, e sempre com êxito parcial, como Hawkins.

Há neste livro há um apelo claro à leitura.

Claro. Hawkins é membro de um clube, tenta recolher a mensagem de alguém e entregá-la a outras pessoas, porque percebeu que os livros ajudam a compreender o mundo.

Nunca colocou a hipótese de escrever um romance com a acção no presente ou no futuro?

O futuro é menos interessante. A ficção científica é menos interessante, engana-se sempre. Por exemplo, quando éramos crianças e líamos livros sobre o ano 2000 apareciam pessoas com antenas na cabeça, umas peças incríveis. Mas, afinal, vestimo-nos basicamente como então. Esses livros são mais especulativos e mais virados para a fantasia, mas acho que há uma diferença entre fantasia e imaginação. Eu trabalho com a imaginação.

O livro tem sido bem aceite?

Sim, até porque a “A Ilha do Tesouro “ é um clássico. Mas as pessoas pensam de uma forma errada que “A Ilha do Tesouro” é literatura juvenil. O mundo está tão louco que pensa que se algo acaba bem é juvenil. Está errado.

Há mais alguma personagem que gostasse de recuperar?

Agora quero deixá-los dormir em paz para que não me odeiem. Mas, acho que a função da literatura é essa, recordar às pessoas que os livros nunca terminam, são uma cadeia e há sempre algo que une um livro ao outro.

 

A obra

Luís Sepúlveda não poupa elogios a “As Últimas Vontades do Cavaleiro

Hawkins”, de Jesús del Campo, editado pela Ambar. É compreensível.

Esta obra, onde voltamos a encontrar Jim Hawkins, sobrevivente

de “A Ilha do Tesouro”, trata-se de um romance delicioso, contado de uma forma muito original. É um livro de avultimas-vontadesenturas, mas de um estilo diferente, porque é através dos sentidos do autor que as vivemos de uma forma essencialmente contemplativa. Hawkins, com a fortuna conquistada na Ilha do Tesouro, reabre a estalagem do almirante Benbow e dedica-se a receber hóspedes que tenham uma estória para contar. Assim, trata-se quase de um livro de contos, preenchido pelas estórias dos hóspedes, havendo ainda lugar para um amor doentio de Hawkins, que agora vive das aventuras dos outros e do prazer da leitura. Se na biblioteca dele pudesse constar Jesús del Campo, de certeza que seria um dos seus autores favoritos.

 

(Entrevista realizada em 2004)

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