Francisco José Viegas – Entrevista a propósito de “Longe de Manaus”

fjv12Francisco José Viegas, após o enorme sucesso do romance “Lourenço Marques”, apresentou “Longe de Manaus” (Edições ASA), um policial que não respeita as regras do género e que leva o leitor por uma grande aventura com arranque na “horrível” Rotunda de Santo Ovídio, em Gaia, e passa pela Guiné, Angola, Brasil, em constantes idas e voltas ao passado.
Nitidamente contente com o seu livro policial de aventuras, onde mais uma vez dá o protagonismo ao detective portuense Jaime Ramos, Francisco José Viegas conversou e contou histórias sobre literatura, o Porto, futebol. Sobre os pequenos prazeres que tanto aprecia.
Os “pequenos prazeres” do dia-a-dia são uma constante no seu livro. Coincidência ou acto deliberado?
É um certo hábito eu estar ligado a isso. Mas não se fala propriamente dos pequenos prazeres, acho que se fala das coisas normais da vida de uma pessoa. As minhas personagens fazem essas coisas: bebem vinho, cozinham, comem, escolhem um charuto. Isso são coisas normais, mas nós não estamos habituados na literatura portuguesa a falar dessas coisas. A literatura portuguesa é muito anti-prazenteira, é muito reservada, é uma literatura demasiado literária. É cheia de clichés literários e de personagens demasiado literárias. A generalidade das personagens da literatura portuguesa conhecem muita literatura, são muito bem comportadas, não fazem asneiras. Estes não…
Mas isso não tem que ver com o facto das pessoas normais, no dia-a-dia, não repararem nesses pequenos prazeres?
Claro que não reparam. A nossa vida é cada vez mais rápida, não temos tempo para detalhes. Aliás, há um capítulo já no final onde o detective Jaime Ramos diz: “Provavelmente sempre fui feliz mas não me tinha dado conta. Provavelmente, sempre tive prazeres e coisas boas na vida e nunca tinha dado conta”. Se calhar a plenitude é isto, é não ter dado conta destas coisas. Durante algum tempo as pessoas foram perdendo a noção do prazer, embora ache que hoje em dia haja uma procura desenfreada do prazer, que é confundido com aquilo que é imediato. Isso manifesta-se a níveis muito claros. Por exemplo, o Papa. As pessoas pediam quase que ele abdicasse por ter aquela figura porque não estão dispostas a encarar a figura de um homem velho e doente. É desagradável. Eu fiquei com uma admiração profunda por ele e ainda mais agora que sabemos que ele admitiu renunciar. Eu que não sou católico e que não tenho nada que ver com o assunto fiquei com uma admiração profunda por ele ter assumido aquele lado de dor do mundo, que é cada vez mais um mundo de jovens, de idiotas. Parece que o que é bom é ser jovem, quando o que é bom é crescer, é saber envelhecer. Eu acho que jovem é um defeito, é falta de idade, ainda não está maduro. Tem graça mas não é bom (risos).
Esta quase obsessão pelo prazer é premeditada ou vai surgindo?
Faz parte das características das personagens. As pessoas que lêem um policial meu esperam que ele chegue à cozinha e comece a cozinhar, ou que beba isto ou aquilo. São tiques de personagem e são aspectos a que dou importância, porque dão sabor ao livro. Não é um truque narrativo, é uma característica das próprias personagens, tem que ver com a vida deles. Eu quando fiz um contrato com estas personagens (risos) insisti para eles terem esses tiques. Acho que os valoriza e as pessoas gostam de ver nos outros parte daquilo que gostavam de ver em si próprios. O romance, o policial e de aventuras, vive muita da projecção que os leitores fazem, daquilo que leva os leitores a imaginar. Eu escrevo romances de aventuras, podem não ser muito fantásticas, mas são histórias de aventuras.
Se tivesse de colocar “Longe de Manaus” numa estante em que sector o colocaria?
… (hesitação com sorriso malandro) Nobel! (risos) Punha claramente em literatura geral, policial e romance de aventuras. Essas três categorias definem um bocado a coisa.
Mas há a tendência de identificá-lo como policial?
Aliás, aparece logo no início uma frase a dizer: “Todos os policiais têm regras, este não tem”. Este tem categorias que fazem parte de um policial, cadáveres, um investigador, crime, tem aquilo que faz um romance policial. Às vezes o que prejudica muito o policial português são os tiques. O detective português tem de ser um pintas, um malandro, tem de usar linguagem de bairro, tem de dizer “bófias e chui”. Isso não é verdade. Basta conhecer um polícia da Judiciária para perceber que não é assim.
“Longe de Manaus”, apesar de partir do Porto, abre-se ao mundo…
É um romance sobre portugueses e por isso tem de sair das fronteiras de Portugal. A certa altura há uma personagem que diz: “Tem cuidado Jaime Ramos, tem cuidado com estes portugueses porque são os portugueses que vivem fora de Portugal”. São os piores, porque são os que não querem regressar. Têm uma má relação com Portugal. Acho curiosa esta ideia. É uma categoria de portugueses que conheci e que me apaixonou porque têm todo o direito de ser assim. Por outro lado, há as pessoas que procuram Portugal lá fora, o que também tem alguma graça. Nós regressámos à Europa depois de 74, mas há muitas coisas nossas que estão espalhadas por esse mundo fora. Esta europeização, que é normal, deixou muita coisa de fora, muitas memórias. Este livro apanha um bocado dessas memórias, da Guiné, de Angola (que é fulcral) e a do Brasil.
É a saudade do império perdido?
Acho que durante muito tempo os portugueses se interrogaram sobre a identidade portuguesa, a perda do império, mas hoje não. Hoje vão a Moçambique, a Cabo Verde, a São Tomé, para passar férias. E acho isso muito agradável. Depois ficam surpreendidos: “Olha que engraçado, eles acompanham o futebol português”. As pessoas não sabem até que ponto o mundo é nosso.
“O Porto perde quando entra em competição com Lisboa”
Muita gente pensa que Francisco José Viegas é do Porto ou, pelo menos, viveu na cidade, mas engana-se. É “apenas” um apaixonado pelo modo de ser portuense e por isso não hesita em dar à cidade o protagonismo dos seus policiais. E depois, ou antes de tudo, é um adepto incondicional do FC Porto.
O detective Jaime Ramos é inspirado em alguém em especial?
O Jaime Ramos nasceu de uma ideia que eu tinha sobre as pessoas do Porto, do pequeno-burguês portuense, céptico, pessimista, que não gosta muito de coisas modernas, novas. O detective Jaime Ramos é fanático do FC Porto, mas não gosta dos jogadores novos. É céptico, livre, independente. É muito pouco falador sobre os seus conhecimentos e sobre a sua cultura. Tenho a ideia que ele gosta de cozinhar, que tem uma casa na Rua Barão Nova
Sintra, frequenta o café Nova Sintra, fuma cigarrilhas e charutos, gosta de cozinhar, de cervejas. E depois é uma mistura de Ben Gazzara com um solteirão que namora com a vizinha de cima. Isso a mim agrada-me.
Dá para perceber que as suas personagens também o conseguem surpreender.
Quando uma pessoa está a escrever um livro e sente que a coisa está a andar só sente isso quando as personagens comandam o livro. A certa altura elas ganham autonomia. Um livro está a correr quando as personagens começam a voar, a dirigir a história.
longemanaus1Quando começa um romance não tem noção como o vai terminar?
Não, não tenho, inexplicavelmente (gargalhadas). Tenho uma ideia do enredo… depois é um bocado acompanhá-los e ver até onde vão. Depois há outra dimensão que é pertencerem a uma cidade, no caso o Porto. E fico contente porque todos os meus policiais desde 1991 se passam no Porto. Além do Mário Cláudio, só há um romancista que fixa todos os seus romances no Porto: sou eu. O único autor que fala só sobre o Porto, que escreve só sobre o
Porto, e que não tem nenhuma antologia sobre o Porto. O que tem muita graça, acho bom! Não pertenço ao Porto sombrio. Neste livro o centro da narrativa é a Rotunda de Santo Ovídio (em Gaia). Ninguém se lembra da Rotunda de Santo Ovídio, é dos sítios mais horríveis que o automobilista se lembra. Mas por que é que os autores que escrevem sobre o Porto não escrevem sobre as coisas do Porto e depois se queixam que Lisboa é que vive na literatura e o Porto não? Porque não falam da Rua do Barão de Nova Sintra, de Campanhã? Eu lembro-me que passava na Rotunda de Santo Ovídio e pensava: “Um dia tenho de ‘matar’ alguém aqui”. O Porto histórico encanta-me, mas o Porto dos jardins, das lojas, das ruas, dos mercados, esse comove-me bastante.
E de onde vem essa adoração pelo Porto?
Não sei, não faço a mínima ideia, a sério! Podia gostar da Figueira da Foz, de Mirandela, mas não. Gosto do Porto. Vivi doze anos em Chaves, sou do Norte. A adoração pelo Porto tem a ver, primeiro, com o facto de ser portista em termos futebolísticos, mas também pelo facto de o Porto não ser Lisboa. De o Porto nascer em certa medida em contracorrente com Lisboa. E depois o Porto é um espaço onde as pessoas eram muito mais livres do que em Lisboa, no sentido de serem mais cépticas. Acho que são duas coisas que andam a par, ser céptico e ser livre. O Porto ao longo da história representou essa aura de liberdade e cepticismo, até político.
Acha que o Porto perde nesta “guerra” que faz com Lisboa?
Perde, perde, Lisboa não quer saber. Não interessa a ninguém se o Porto tem Casa da Música ou não. Pode ser engraçado ter mais um equipamento mas isso não faz do Porto ser mais Porto. O Porto quando entra em competição com Lisboa perde sempre. Houve um momento em que o capital e o trabalho estavam no Porto, mas agora não. Há muitas coisas que se foram embora, nomeadamente muita massa crítica. Ser do Porto ou ser de Bruxelas é exactamente a mesma coisa. Toda a gente deve ser bairrista e da sua rua, deve ser paroquial. A comparação entre Porto e Lisboa é improdutiva. O Porto deve defender aquilo que tem, o que pode garantir como melhor, e que são várias coisas, desde a arquitectura monumental até uma outra maneira de viver as coisas, os seus escritores, os seus autores, mas nada de comparar com Lisboa.
E isso é um reflexo da rivalidade no futebol ou o contrário?
A rivalidade futebolística é um reflexo, não tenho dúvidas. O futebol aproveitou-se dessa rivalidade, sou portista, mas acho que o futebol não é o centro. E depois a ideia que havia que no Porto se trabalhava e em Lisboa não. Isso já mudou, mesmo nas pessoas do Porto. Havia essa ideia porque no Porto havia pouco espaço de diversão. Agora… ninguém tem culpa de gostar do Porto.
A opção por escrever dez capítulos em português do Brasil foi, apenas, para dar mais realismo ao romance?
Por um lado foi, mas por outro lado para dizer que as pessoas têm a mania do português. Eu tenho, tenho mania que se escreve cada vez pior, que a escola também é responsável, que os educadores são responsáveis, as famílias. Povo que escreve mal pensa mal. Apesar disso tudo há coisas tremendas no Brasil (apesar de ser mais arcaico porque conservou a musicalidade do século XIX). As pessoas dizem: isso é brasileirismo. Mas que medo têm? O português, de facto, já não é propriedade dos portugueses, é de quem o fala, dos angolanos, dos moçambicanos, dos brasileiros. Temos de ter a noção que são 170 milhões de brasileiros que o estão falar todos os dias, enquanto a língua para nós é acessória, porque não lhe ligamos. Não há um comissariado a punir os criminosos que escrevem os rodapés nos telejornais. As televisões deviam ser multadas. Para nós o português é uma merda, tratamos mal a língua. Os brasileiros mudam-na todos os dias, recriam o português, fazem coisas maravilhosas. Falam outro português, mas é muito respeitável. Neste caso tinha a intenção de falar do português do Brasil e não só porque se trata de uma personagem, que é a Daniela, com os diálogos em brasileiro. Esses capítulos inteiros são escritos em brasileiro sem aviso nenhum. Pode ser um bocado chocante, mas é para as pessoas se habituarem que o português não é nosso, é de quem o fala.
Para escrever esses capítulos teve a ajuda de brasileiros?
Não, escrevi sozinho e depois tive uma ajuda de uma amiga que fez a “revisão gráfica”.
Outra coisa que se nota é uma descrição detalhada, sem ser exaustiva, própria de quem conhece bem os locais.
Conheço aqueles sítios todos. Não tenho a preocupação de fazer reportagem, mas de me fixar em lugares que se possam reconhecer. É um apoio falar de coisas que existem mesmo. Esse efeito de reconhecimento diverte-me e se me diverte a mim penso que pode divertir o leitor.
Também dá ideia que deu bastante gozo escrever este livro.
Foi o livro mais difícil de escrever em toda a minha vida, em condições difíceis. Nos últimos dois meses foi escrito entre as onze da manhã e as seis da manhã. Mas divertiu-me, como me diverte sempre escrever. Eu não tenho a ideia de sofrimento. Sofre-se como se sofre por amor, as dificuldades de tomar uma opção. A escrita não releva do sofrimento, releva da paixão. O sofrimento existe mas não é a categoria dominante.
Houve lugar a investigação?
Houve em algumas coisas, sobre os libaneses do Brasil, por exemplo. Tive uma ajuda primordial do Milton Hatoum, um autor brasileiro que escreve sobre os árabes da Amazónia, como ele. Tem histórias deliciosas e pedi-lhe emprestada uma das histórias da chegada dos libaneses a Manaus. Por outro lado há uma investigação que tem que ver com as questões mentais. Como funciona a cabeça de um homem que sai de Beirute e vai para Manaus, de um tipo que vive na Amazónia e vai para Angola?
“Longe de Manaus” dava um grande filme. Pensa nisso?
Penso (risos). Hoje é o meu dia de imodéstia. Penso por uma razão: eu escrevo com banda sonora. Tenho a banda sonora, as imagens, as fotografias, que vou coleccionando. Funciona muito com materiais visuais e com planos sequência, em todos os capítulos. Funciona muito em cinema. A linguagem do cinema tornou-se a certa altura o discurso dominante da própria literatura. O cinema faz o que a literatura também fazia. É muito motivante.
Qual é a banda sonora deste livro?
Tindersticks bastante, porque têm uma profundidade estranha, sobretudo aquela canção “Can Our Love”, sobretudo quando o Jaime Ramos aparece. Cada vez que a Daniela aparece é Brian Eno & Harold Bud.
A personagem Daniela tem um papel preponderante?
A personagem Daniela é uma mulher brasileira de 32 anos, explosiva, que acumula a tensão que existiu em todos os livros anteriores sobre a mulher. É a primeira vez nos meus livros policiais em que o assassino não é uma mulher. A Daniela acumula essas tensões, de natureza sexual, que ela resolve, e tensões de relacionamento com o sexo oposto. Ela diz coisas como “Homem não é tão bonito assim”. Ela tem um relacionamento especial com uma amiga por quem está apaixonada. O que ela diz sobre os homens é muito aquilo que eu penso que as mulheres dizem: “Homem não é tão interessante”. Os homens estão convencidos que só eles existem para as mulheres. Mudei bastante a minha própria maneira de escrever sobre mulheres a partir do momento em que descobri uma personagem como essa. Há uma revelação brutal, a revelação da delicadeza, que as mulheres podem viver sem os homens, que os homens são uns apêndices. São úteis, têm algumas potencialidades, mas não são essenciais. As mulheres podem ter vida afectiva, amorosa, intelectual e sentimental independentemente da existência dos homens. A Daniela incorpora essa revolução. Ela fala de uma coisa extraordinária, fala permanentemente do corpo da amiga dela, como se sente excitada diante do corpo da amiga, porque é bonito. É uma personagem que não me abandonará tão cedo.
Os homens vão encarar bem isso?
Estou-me nas tintas. O próprio Jaime Ramos sabe da história e não lhe toca, é como um brilho de pérola.
  

(Entrevista realizada em 2005)
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