“A Quarta Mão” – John Irving

quarta-mao1“E se a viúva do dador exigir direitos de visita à mão?” Esta foi a questão lançada pela mulher do escritor John Irving após ver a notícia na televisão de um transplante de uma mão.
Irving pensou… e em resposta escreveu o excelente romance “A Quarta Mão”.
A obra do escritor norte-americano foi lançada em Portugal pela ASA. É acima de tudo um livro de personagens já que estas, em diversos momentos, só por si ultrapassam o interesse do próprio enredo. A nível da descrição das personagens, John Irving — um dos grandes nomes da literatura contemporânea norte-americana — pode equiparar-se a Tom Wolfe.
Irving entretém os leitores com uma descrição detalhada (mas não entediante) das principais personagens e do seu invariavelmente insólito meio ambiente.
Há três pessoas a reter nesta obra: o protagonista Patrick Wallingford, o Dr. Jazac e Mrs. Clause. À volta do primeiro decorre todo o divertido enredo de “A Quarta Mão”. Patrick é um jornalista de televisão, atraente e irresistível para as mulheres, que um dia, durante uma reportagem em directo num circo indiano, vê a sua mão esquerda ser devorada por um leão.
Entra então em cena o estranho Dr. Jazac, um reputado cirurgião que aguarda ansiosamente pela oportunidade de fazer o primeiro transplante de mão nos Estados Unidos. Patrick é a sua chance a partir do momento em que surge um “dador”. A mulher de um camionista que morreu por acidente quer que a mão deste seja “entregue” a Patrick. Mas, com a mão, vem algo mais… Primeiro é a viúva (Mrs. Clausen) que se impõe a Patrick – logo no primeiro encontro obriga-o (em troca da mão) a fazer amor com ela para poder ter o filho que sempre desejou. Depois, estranhamente, Patrick (o desejado – com todas as mulheres do mundo à disposição) fica obcecado com a viúva, uma mulher simples, parola, de um mundo ao qual o jornalista, definitivamente, não pertencia.
Já com uma nova mão, Patrick muda radicalmente, questionando-se incessantemente, tanto a nível profissional como sentimental.
Continua a “devorar” mulheres, mas agora o que procura não é a carne, mas sim o espírito, alguém que trate de si. Mesmo estando com outras mulheres, é sempre a Mrs. Clausen que procura.
Algo paralelo à história principal surge uma detalhada descrição da estranha personalidade que é o Dr. Jazac. O médico não tem uma importância fundamental no desenvolvimento do romance, mas a sua maneira de ser e de actuar proporciona dos mais divertidos momentos de “A Quarta Mão”.
Assim, é principalmente através das personagens que o autor nos transporta, com muito realismo, para um universo a roçar o absurdo, que tem por ponto máximo o jornalismo sensacionalista, do qual Patrick é um dos expoentes, mas cada vez mais renitente em participar dele. Para além do jornalismo, outro tema presente em todo o romance são as relações entre homens e mulheres, com a Patrick a ser uma espécie de catalizador do amor de todo o tipo de fêmeas.
Ao contrário do que seria de esperar, o facto de ter perdido a mão em directo na televisão só o tornou ainda mais popular e desejado pelo sexo oposto. Em seu favor passou a contar o factor “coitadinho”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.