Enrique Vila-Matas – Entrevista a propósito de “O Mal de Montano”

mal-montano3vilamatas1Enrique Vila-Matas, entre outras obras, é o autor de “O Mal de Montano” (Teorema), uma obra que vagueia entre o diário íntimo e o romance, a viagem sentimental, a autoficção e o ensaio. Acima de tudo é um livro sobre literatura, uma homenagem à literatura em todas as suas vertentes. Trata-se de uma obra difícil de classificar, já que tão depressa se está dentro do pensamento do narrador como se passa para a descrição de uma viagem. O escritor catalão explicou a génese e, de certa forma, o conteúdo de “O Mal de Montano”.

 

O seu romance “O Mal de Montano” é absolutamente original e inovador. Foi algo predefinido ou essa já era a ideia inicial?

Telefonaram-me para casa de uma instituição de Madrid chamada Fundación de Ciencias y de la Salud, da qual nunca tinha ouvido falar. Queriam convidar-me para uma conferência sobre “literatura e doença”. Ouvi as suas repetidas mensagens no gravador do telefone, mas não queria responder porque pensei que era uma instituição que pretendia que fosse a Madrid para me convencer a deixar de fumar. Assustavam-me. Enviaram-me uma carta a dizer que me pagavam para fazer a conferência. Nunca me tinham oferecido tanto dinheiro por uma intervenção de uma hora. Aceitei, mas não sabia de que doença haveria de falar. Uma amiga disse-me para falar de literatura e loucura. Decidi falar de literatura e de alguém que sofria da doença de literatura, que não podia viver sem ela. Era alguém o mais oposto possível a um “Bartleby”, ou seja, o mais oposto a alguém que deixou de escrever ou de se interessar apaixonadamente pelo literário. A conferência – quinze páginas – foi dando origem ao livro, sobre o qual ignorava tudo quando comecei a escrevê-lo.

A obra é uma nítida homenagem à Literatura. Porque necessitou de fazê-lo?

Não gosto da vida verdadeira e por isso me dedico à ficção. Se a literatura não existisse eu mesmo a inventaria.

A sua mente é como a do narrador, sempre cheia de referências literárias?

Metade das referências literárias de “O Mal de Montano” são inventadas. A outra metade não.

Sente-se prisioneiro da literatura? É ela que o domina ou o contrário?

Apenas fui prisioneiro da literatura enquanto escrevia “O Mal de Montano”, da mesma forma que só fui prisioneiro do tema do suicídio enquanto escrevia “Suicídios Exemplares”, só nessa altura e nunca mais.

Em que género classifica “O Mal de Montano”? Romance, ensaio, contos (visto que vai contando pequenas histórias), livro de viagens…

Género híbrido que mistura o livro de viagens com o ensaio, o conto e a autobiografia real com a autobiografia fingida. E o tom poético das últimas páginas. É um livro escrito com um grande sentido de liberdade.

Como consegue construir personagens fictícias tão ricas como Margot Valerí? Inspira-se em alguém?

Li no avião que me trazia de volta a Espanha vindo do Chile uma entrevista com uma aviadora chilena de oitenta anos chamada Margot, que falava da sua paixão pelo voo. Neste caso inspirei-me numa personagem real. Há pouco tempo, foram entrevistar esta velha aviadora e perguntaram-lhe se me tinha conhecido, ao que ele respondeu que tinha conhecido tanta gente durante a sua vida que o mais provável era ter-me levado um dia no seu avião. Desta forma afirmo que ela não sofria do “mal de Montano”. Mostrou ser idêntica à personagem que eu tinha criado.

Porque mistura tanta ficção com a realidade? Pelo prazer de jogar com a imaginação?

Todo o que conto é real ou aproxima-se muito da realidade. É o ponto de vista do narrador que faz com que pareça que estou a inventar algo. Sem dúvida, jamais invento. As coisas acontecem-me sempre como se estivesse permanentemente metido dentro de um romance.

Prefere trabalhar/escrever ficção ou realidade?

Ficção misturada com a realidade. Mas o que escrevo acredito que são relatos reais.

É um autor bastante premiado. Os prémios são vitais para si?

São agradáveis mas nunca escrevi para receber medalhas ou diplomas de boa conduta. Escrevo por necessidade, para sobreviver.

O livro tem muitas referências a Portugal, nomeadamente aos Açores.

Qual a sua relação com o nosso país?

Desde há dez anos que viajo com muita frequência para Portugal,

Madeira e Açores. Gosto muito da alma elegante dos portugueses e da beleza em geral do país.

Prefere descrever locais e ambientes ou construir e desenvolver a personalidade de personagens?

Nunca tive demasiadas relações com as personagens. Nunca me visitaram nos meus sonhos e levam a sua própria vida, longe de mim.

Prefere ler ou escrever?

Escrever, viajar e ler. Por esta ordem.

Quais são os seus escritores preferidos?

Kafka, Pessoa, Lobo Antunes, Bolaño, Gombrowicz, Aira, Monterroso, Beckett, Robert Walser, entre outros.

 

O livro 

Enrique Vila-Matas escreveu um livro notável, de uma grande originalidade, que se devora sempre à espera de uma surpresa, não propriamente de enredo, mas sim a nível de estilo de escrita. Com a particularidade de tudo encaixar e fazer sentido, apesar dos vários e coloridos tipos de azulejos usados para compor o painel. Vila-Matas escreve sobre uma doença “terrível”, a literatura, à qual chamou “O Mal de Montano”, precisamente o nome da obra, editada entre nós pela Teorema. Montano é o filho do narrador (ambos escritores) que, supostamente, na ideia do pai, sofre de um bloqueio de escrita. Assim, o narrador, de Barcelona, tal como o autor, resolve visitar o filho em Nantes, para o ajudar. Mas, afinal, quem parece sofrer da “doença” é o próprio pai. Através das suas personagens, Vila-Matas faz inúmeras citações, tanto de escritores como de obras, revelando-nos que o narrador tem uma obsessão pela literatura. Ao longo da obra, mistura vários géneros, desde o romance à autobiografia, integra histórias que parecem contos, relatos de viagens, numa agradável fusão de ficção com realidade. A tudo isto se junta uma galeria de personagens muito ricas, a começar pelo narrador, prosseguindo numa idosa aviadora chilena ou no homem mais feio do mundo. Pelo meio há tempo para uma viagem algo surreal à ilha do Pico, nos Açores. Uma delícia.

 

(Entrevista realizada em 2004)

Apresentação de “A Escrava de Córdova” na Almedina-Arrábida Shopping

imagemDecorre hoje (23 de Janeiro) às 21h30 na Livraria Almedina, no Arrábida Shopping, em Gaia, uma sessão de apresentação do romance “A Escrava de Córdova”, de Alberto S. Santos. O autor vai falar sobre este romance histórico situado nos séculos X e XI e que se centra na vida de Ouroana, uma jovem cristã na busca da felicidade, pretexto para uma incursão até ao lado mais brilhante, mas também duro e cruel, da civilização muçulmana do Al-Andalus. 

Novidades ASA (Fevereiro 2009)

Sexus_af.inddAs Edições ASA prepararam para Fevereiro um “pacote” de lançamentos onde se destaca o regresso de “Sexus”, de Henry Miller, o primeiro livro da trilogia “Rosa-Crucificação” do autor norte-americano.

Originalmente publicado em 1949 em Paris, “Sexus” esteve proibido nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha durante quase vinte anos. Trata-se de um relato das escapadelas sexuais de Miller, retratando de forma ficcionada a vida do autor na América dos anos 20 do século passado.

Ainda com a América como pano de fundo, a ASA propõe “Perdidos na América”, de Joey Goebel, a história de cinco pessoas cuja singularidade perturba a pequena cidade onde vivem. São elas: a sensual Aurora, que está disposta a tudo para deixar de ser vista como uma mulher-objecto; o idealista Luster, que vive num ghetto com os seus doze irmãos traficantes de droga e que pretende ser famoso; Ember, que aos oito anos sonha em destruir mundo; Opal, que tem 80, e que “só” pretende destruir convenções e preconceitos; e Ray, um iraquiano que adora a América, apesar de a ter combatido na Guerra do Golfo. Unidos pela amizade, estes cinco acabam por formar a mais estranha banda rock do mundo.

O tenente Mario Conde está de regresso com “Um Passado Perfeito”. O escritor cubano Leonardo Padura leva desta vez o tenente numa viagem pelo passado, que tem arranque com o desaparecimento de Rafael Morín, antigo colega de escola de Conde e funcionário da nomenclatura cubana. Enquanto investiga o desaparecimento do amigo, Mário Conde reencontra Tamara, a mulher da sua vida, casada precisamente com Rafael.

Entre as novidades ASA destaque também para “Lili La Tigresse”, de Alona Kimhi, a história de duas solitárias mulheres (uma gorda, Lili, e outra magra, Ninush) que se tornam inseparáveis.

“Tuaregue” – Alberto Vázquez-Figueroa

tuaregueO escritor espanhol Alberto Vázquez-Figueroa viu editado entre nós, por iniciativa da DIFEL, a sua obra “Tuaregue”, datada já de 1981 mas que, entretanto, em nada perdeu em termos de actualidade e interesse.
“Tuaregue” pode funcionar como livro de aventuras ou até de viagens, mas é principalmente o retrato de um homem para quem honra e tradição estão no topo de tudo. Mais ainda… Mais do que o retrato de um homem é, através dele, o retrato de um povo.
O protagonista, Gacel Sayah, é um nobre tuaregue, um “inmouchar”, dono de uma infindável porção de território no deserto do Saara. Senhor absoluto daquelas terras, acolhe um dia dois desconhecidos que vêm em fuga do norte. Mesmo não sabendo quem são trata-os como manda a tradição tuaregue, considerando-os hóspedes. Só que, durante a noite, um deles é morto e o outro raptado. Sentindo-se desonrado por não ter sido capaz de defender os hóspedes, Gacel enceta uma longa caminhada (física e moral) que o leva numa busca incessante por todos os responsáveis por aquela desfeita. Para ele, acima de tudo, estão as tradições do povo tuaregue, com um código moral muito definido. É esse código moral que o guia numa caminhada onde não importa quem mate, desde que tal seja necessário para resgatar o seu hóspede.
Pelo seu hóspede (e pela própria honra), Gacel Sayah atravessa um deserto que poucos conseguiram transpor antes, onde encontra os restos fantasmagóricos de uma mítica caravana carregada de riquezas que pereceu nesse mundo seco e inumano.
Gacel, torna-se, ele próprio, uma figura mítica, endeusado pelos seus, temido e, acima de tudo, respeitado pelo inimigo, que vê nele o símbolo último de um país que se deixou dominar por povos e culturas estranhas.
Guerreiro de excelência, elimina sem dificuldade quem se atravessa no seu caminho, até nos levar a um final surpreendente já na grande cidade, onde defronta os poderosos do país, que vinha desafiando sem sequer se aperceber do mito em que se tinha tornado
Através da aventura épica de Gacel Sayah, Alberto Vázquez-Figueroa dá-nos a conhecer um povo orgulhoso por viver no deserto em condições adversas, para quem o maior valor é o código moral. Os tuaregues não querem saber de fronteiras, de quem manda no país, porque para eles a vida é o deserto, é lá que se sentem bem e têm dificuldade em entender e, acima de tudo, em acatar as regras de quem pretende fazer deles apenas mais um povo de determinado país. Tudo isso fica bem patente nesta obra-prima de Figueroa, escrita com perfeição e com um tal “sal” que nos prende até à última página. Fica muito acima de um simples livro de aventuras – mesmo se o fosse “apenas”, seria já excelente, pois dá-nos uma visão livre de preconceitos de um povo tantas vezes incompreendido. Livre de preconceitos, porque, apesar de se notar uma profunda homenagem, não deixam de ser questionados, através das personagens com quem Gacel se vai cruzando, determinados comportamentos e opções de vida dos tuaregue, pouco compatíveis com o mais elementar que exista no respeito pela vida humana.
Um excelente livro, onde história, aventura e condição humana se misturam na perfeição. Uma obra-prima de Figueroa, escritor nascido na ilha canária de Tenerife, mas que até aos 16 anos, por força do exílio do pai, viveu em Marrocos e no Saara.

Rosa Montero – Entrevista a propósito de “A Louca da Casa”

louca-casa3rosamonteroRosa Montero, escritora espanhola (entre muitas outras funções), é a autora de “A Louca da Casa” (ASA), uma obra impossível de catalogar que mais não é do que uma homenagem à imaginação. “A imaginação é a louca da casa” é um frase de Santa Teresa de Jesus e Rosa Montero prova-o neste livro e nesta entrevista, onde fez uma verdadeira apologia da imaginação.

 

O seu livro, “A Louca da Casa”, é difícil de catalogar dentro de um único género. Consegue fazê-lo?

Não, porque antes de mais a piada do livro é essa originalidade. Acho que é o meu livro mais original, o melhor que escrevi, entre outras coisas porque é diferente de todo o resto. É um livro pequeno, mas é meu, só meu. É um olhar próprio sobre o mundo e dentro dessa visão está essa coisa impregnada de géneros e essa mistura tão absoluta sobre o real e o fictício. Quando saíam os tops de vendas em Espanha, muitas vezes colocavam-no em ensaio, outras vezes em ficção, outras em contos. No Panamá uma escritora local disse: “Isto é um romance, porque é o único género suficientemente híbrido para admitir tudo isto”. Pode ter razão. Se está perto de algo pode ser de um romance, nesse ponto de vista.

Como surgiu a ideia de escrever este livro?

Escrever é uma coisa mágica, misteriosa, que o escritor não controla. Escrever tem muito que ver com sonhar. Na realidade, os romances são sonhos diurnos do escritor. Da mesma forma que não controlas os teus sonhos à noite, também não controlas o que escreves. Essa é uma das coisas fascinantes da escrita. Muitas vezes sai a ideia de um livro, uma coisa muito pequena, mas quando te pões a escrever sai algo completamente diferente. Isso aconteceu desta vez. A primeira ideia deste livro surgiu há 20 anos e foi um lugar-comum: “Algum dia escreverei um ensaio sobre literatura.” Todos os romancistas escrevem sobre literatura, é uma espécie de vício. Pensei nisso e comecei a tirar apontamentos. Os anos passaram e há três anos reuni as notas e decidi escrever. Nesse momento surgiu-me o título na cabeça. E os títulos têm um comportamento muito curioso, porque muitas vezes saem tão bem por si só que ditam ao escritor o que está escrever. O título é uma frase de Santa Teresa de Jesus, que diz: “A imaginação é a louca da casa.” Quando esse título surgiu pensei logo: “O livro não vai ser sobre literatura, mas sim sobre a imaginação, mas de todos os seres humanos.” Nós, os seres humanos, somos sobretudo animais imaginativos, fantasiosos. E a imaginação completa a realidade, traduz-nos a realidade e permite-nos viver num mundo que, de outro modo, sem imaginação, seria um caos e inabitável. Por isso, a imaginação salva-nos. De repente dei conta que ia ser um livro de agradecimento à imaginação. Também constatei que não ia ser um ensaio, mas um livro sobre a imaginação que fosse obra da imaginação.

É um pouco como uma caixa de um mágico de circo, sai de lá tudo.

E qual é papel do leitor no meio de tudo isso?

Também quis que o leitor brincasse comigo e escolhesse aquilo em que queria acreditar. Do modo como está escrito, o livro está cheio de armadilhas. De entrada o leitor crê que o que está a ler é tudo real, notarial, mas continua a ler e chega a um momento em que diz: “Mas esta mulher está a enganar-me, e se me engana nisto em quantas outras coisas já me mentiu?” A resposta é que menti em muitas. O livro está cheio de mentiras. Mas, na verdade, é igual saber onde se mente ou não porque o que quer dizer o livro é que a vida imaginária é tão real como a vida real. E na nossa vida real há muita imaginação.

A imaginação é um dom do ser humano, mas para que serve na realidade?

Permite que nos compreendamos. É tão descontínua a realidade. Os nossos actos não se dirigem numa única direcção. É tão confusa a vida que não poderíamos viver sem essa imaginação que traduz essa confusão a algo compreensível. A imaginação desenha a realidade a tinta-da-china sobre uma mancha cinzenta e confusa. E completa zonas onde nada há. Faz uma realidade que nos permite viver.

Mas também é preciso saber dosear a imaginação para não se chegar à loucura.

Sim, o livro trata em primeiro lugar da imaginação e só depois da loucura. E porquê? Porque a loucura é a fronteira interna entre a imaginação que constrói e a imaginação que destrói. Quando deixa de ser uma ferramenta e se transforma numa tirana, quando suplanta a sua personalidade, converte-se em loucura e delírio. Por isso, acho que não há ninguém no mundo que não tenha tido medo da loucura, porque todos a levamos dentro de nos. O problema não é controlar a imaginação, o problema é perder o sentido do real.

Nota-se, realmente, que o livro parece ter uma vida própria.

Isso acontece sempre. Antes de escrever, ao desenvolver a ideia, sei quem são as personagens, faço mapas, quadros, esquemas, sei que o romance vai ter tantos capítulos, mas quando me sento ao computador tudo muda completamente. É isso que é maravilhoso ao escrever romances, surpreendem-te tanto como te surpreende a vida. Escrever é viver. É vida de primeira ordem, é vida de qualidade. A vida é incontrolável. Esse material incontrolável também está nos romances. Aqui aconteceu o mesmo. Por exemplo, apareceu a personagem da minha irmã, quando eu não tenho nenhuma irmã, é mentira, e começaram a acontecer-lhe coisas.

Mas há dados reais em “A Louca da Casa”, mesmo se contados de outra forma?

Há bastantes coisas que são verdade.

Ao mentir está a imaginar situações que gostaria de ter vivido?

Não, o que tento contar é que a imaginação do romancista é como as possibilidades paralelas na vida, que são intermináveis. Não são as que se quer viver nem as que mais medo dão, são desdobramentos possíveis da realidade. Todos somos milhões, poderíamos ser milhões, dentro de nós somos o mundo. Com a imaginação literária vives um pouco esses mundos.

Nunca se sabendo, no livro, o que é verdade ou mentira, acaba por nunca expor a sua intimidade.

As vidas imaginárias são vidas. Apesar de neste livro contar muitas mentiras biográficas, acho que é o meu livro mais íntimo. Revela muito do que eu sou, mas não tens de te cingir ao detalhe porque no fundo está a verdade.

Escreveu uma obra só com biografias de mulheres (“Histórias de Mulheres” – Edições Asa). Gostaria que alguém um dia fizesse uma biografia sua?

Não. É um pensamento muito inquietante. Vai ser uma tradução redutora. Uma vida são tantas vidas que uma biografia é uma tradução redutora.

Mas não pensa nisso ao fazer biografias de outras pessoas?

Sim, mas gosto muito de ler biografias, porque são como mapas de apoio. As biografias ensinam muito, aprendemos como os outros viveram, mas ver-me como biografada… Primeiro, não creio na posteridade, não penso que vá sobreviver à minha morte. Quando eu morrer, o mundo acabou. Segundo, é óbvio e evidente que a maioria das pessoas não sobrevive à sua morte. Há muito poucos que são recordados depois e é altamente improvável que eu seja um deles. Fazes dos outros, mas que te façam a ti… (risos)

“A Louca da Casa” também faz um retrato da classe dos escritores?

O que fiz foi utilizar cenas ou circunstâncias da vida dos escritores para reflectir sobre temas. Tudo para entender o que somos. Essas partes são reais, estão documentadas, só invento na parte relacionada comigo. Se falo de Goethe (escritor e homem monumental), se este homem é capaz de ter umas falhas tão enormes, de perder tanto a dignidade só para ser um nobre, então é preciso estarmos atentos, porque se um grande homem faz isso nós caímos mais facilmente. Conto as histórias para explorar a alma humana, para dizer como somos.

Mostra também que os grandes escritores afinal são pessoas normais…

Eu não gosto da mitificação. Mitificar é uma maneira de manipular a realidade e mentir. Os mitos enquanto pessoas não existem. As pessoas são contraditórias, confusas, animais confusos. Quando queres reduzir uma pessoa à imagem de santo é uma falta de respeito a essa pessoa.

Depois de ter escrito aquele que considera ser o seu melhor livro está com medo do que vem a seguir?

A verdade é que estou com medo. Escrever é um ofício e aprende-se escrevendo e a ficção aprende-se com a maturidade. Sempre que escrevi sabia que ia ser a mais um passo. Tenho muita ambição de fazer um livro melhor, mas pela primeira vez pensei:”E se não consigo fazer um livro tão perfeito como este?” O que consegui está muito perto do que queria fazer. Tenho um pouco de medo, mas a minha ambição mantém-se. Estou agora com um projecto de um romance fantástico no século XII. Mas também tenho outra ideia, que é escrever um romance sobre a vida de um taxista.

 

O livro

“A imaginação é a louca da casa”, disse Santa Teresa de Jesus. Rosa Montero, escritora espanhola, pegou na ideia e deu corpo a “A Louca da Casa”, livro de pura homenagem à imaginação. Misturando factos da sua vida com outros totalmente fantasiados, Rosa Montero escreveu uma obra deliciosa, recheada de estórias que, no fundo, não interessa saber se são realidade ou ficção. Isto porque cumprem outra função muito mais importante, entretêm, tanto pelo conteúdo como pela forma de escrita (solta, ligeira, mas sempre bem elaborada), demonstrando uma inteligência, um humor e, claro, uma imaginação fora do comum. O que interessa se Rosa Montero teve um caso com um actor de Hollywood, se ela nos conta, em três divertidas versões, uma eventual aventura amorosa com tal “estrela”?

Depois, “A Louca da Casa” é também uma espécie de minitratado sobre literatura e escritores, uma análise, por vezes mordaz, de quem conhece a classe por dentro. Mas, principalmente, o livro é uma conversa inteligente com a autora e é bem verdade quando ela diz que, apesar da imaginação e da fantasia, este é o livro mais intimista dela. E vale bem a pena conhecê-la.

 

(Entrevista realizada em 2004)

Novidades Presença (Janeiro 2009)

a_mao_de_midas2o_segredo_de_copernico1“O Segredo de Copérnico”, de Jean-Pierre Luminet, é uma das novidades em destaque na Editorial Presença nesta segunda quinzena de Janeiro, a par, por exemplo, de “A Mão de Midas”, de Jack London, ou “O Lado Obscuro da Economia”, de Loretta Napoleoni.

“O Segredo de Copérnico” trata-se de uma biografia romanesca que permite descobrir o indivíduo para lá do extraordinário pensador. A acção arranca no início do século XVI, em Cracóvia, onde Copérnico vive uma fase controversa, exercendo as suas múltiplas funções de astrólogo, médico e de homem da Igreja. Ainda assim, prossegue as suas investigações sobre a organização do Cosmos, colocando o Sol no centro do nosso universo, ao contrário do que até então fora defendido.

Já na colecção A Biblioteca de Babel, organizada por Jorge Luís Borges, sai agora o décimo volume, “A Mão de Midas”, da autoria de Jack London.

“O Lado Obscuro da Economia”, de Loretta Napoleoni, é uma aposta da Presença na colecção Sociedade Global. Trata-se de uma obra que pretende expor o lado obscuro da globalização da economia, as interdependências económicas paradoxais geradas pelos novos operadores de mercado.

“Honra o Teu Pai”, de Gay Talese, é um livro documento sobre a ascensão e queda da família Bonanno, um dos pilares do crime organizado nova-iorquino nos anos 60 do século XX.

Nesta quinzena a Presença vai ainda editar “A Astrologia e o Amor”, de

Cristina Ricci, e ”Como Devo Alimentar o Meu Filho”, de Ariane Brand e Eduarda Alves.

Já para o público mais jovem a Presença propõe “A Academia dos Pesadelos”, de Dean Lorey, e “A Casa dos Espelhos”, da Colecção Ulysses Moore.

Prémio Inês de Castro para Teolinda Gersão

mulher2O livro de contos “A mulher que prendeu a chuva e outras histórias”, de Teolinda Gersão foi distinguido com o Prémio Fundação Inês de Castro. Já antes esta obra, editada pela Sextante e composta por catorze contos, conquistara o Prémio Máxima de Literatura 2008.

As histórias incluídas neste livro de Teolinda Gersão partem da vida quotidiana para se abrirem a mundos oníricos, fantásticos, terríveis e absurdos.

A autora de “A mulher que prendeu a chuva e outras histórias” já lançou doze livros de romance e contos, traduzidos em várias línguas.

Ao longa da sua carreira, Teolinda Gersão ganhou o Prémio de Ficção do Pen Club, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio da Crítica da Associação Internacional dos Críticos Literários e o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco.

“O Artista da Morte” – Daniel Silva

artista-morte-aO primeiro romance onde Gabriel Allon, um antigo agente dos serviços secretos israelitas, aparece como protagonista, “O Artista da Morte”, surgiu em 2000 (foi editado em Portugal em 2008 no catálogo da Bertrand) e é sem dúvida o mais interessante e profundo desta série criada pelo norte-americano Daniel Silva. Os restantes, apesar de interessantes, bem montados e frenéticos, dedicam mais espaço à acção e à preparação das operações secretas dos israelitas e não vão tão fundo na mente dos protagonistas, em particular de Allon, um implacável agente secreto afecto à Mossad que, contudo, vive grandes dilemas interiores. Contudo, nem por isso “O Artista da Morte” perde em acção e trama em relação aos restantes romances da série, que têm vindo com bastante sucesso a ser editados no nosso país.

Em “O Artista da Morte” travamos conhecimento com o Allon restaurador de arte, escape que encontrou para se distanciar do seu passado de espião onde a morte é uma nuvem constante que paira sobre si. A dedicação ao restauro foi a forma que encontrou de se abstrair do seu passado, mas a vida tranquila por que tanto anseia não passa mesmo de uma miragem e vê-se obrigado a regressar ao activo. O alvo a abater é Tariq, um terrorista palestiniano que já no passado se cruzou com Allon.

Não há verdadeiros heróis, nem vencedores, nem vencidos, ficando-se aliás com a sensação de que todos são, no fundo, derrotados

Daniel Silva faz das dúvidas existenciais de Allon um dos pontos fortes desta obra, mas ainda assim não esquece nem por um momento a acção. O livro está estruturado à boa maneira dos thrillers, ou seja, capítulos pequenos, nenhum espaço ou tempo para pontos mortos e, consequentemente, acção constante. A escrita de Daniel Silva é simples e eficaz, algo comum a muitos escritores que antes foram jornalistas. O autor denota um bom conhecimento da situação no Médio Oriente, mas não consegue evitar uma certa tendência para favorecer os israelitas em detrimento, por exemplo, dos palestinianos. Nota-se que até tenta dotar de algum humanismo os terroristas palestinianos, mas a caneta (ou teclado) foge-lhe sempre para o lado de Allon e parceiros.

Outro ponto forte do romance, e aqui é algo que é comum aos outros livros da série, é a descrição da montagem das operações da Mossad, bastante pormenorizada e assustadoramente credível. Começando pelas operações financeiras que é preciso desencadear para arranjar financiamento para as dispendiosas acções de resgate e/ou abate, passando pela colocação no terreno de Allon e da sua equipa, os ambientes são recriados de uma forma quase cinematográfica, conquistando sem dificuldade os adeptos deste tipo de obras.

Por fim, de referir, como seria de esperar no género, que o enredo tem lugar em diversos países, desde as grandes metrópoles aos inevitáveis cenários exóticos.

Gabriel Allon era um antigo assassino da Mossad, responsável pela morte de seis dos doze membros do Setembro Negro, organização responsável pelo ataque terrorista nos Jogos Olímpicos de Munique de 1972. Allon foi recrutado pelo “Velho”, o seu chefe, que o “desviou” quando ele era um jovem e promissor estudante de arte.

O autor
“O Confessor”
  foi a primeira obra de Daniel Silva a chegar a Portugal, dando assim a conhecer um autor que se move na linha dos antigos romances de espionagem e dos actuais thrillers políticos. Por isso, o escritor já foi considerado um digno sucessor de talentos como Graham Greene ou John Le Carré.
Daniel Silva, que escreveu sete bestsellers em sete anos, tem nacionalidade americana, mas é filho adoptivo de um casal de açorianos e o avô era um pescador nascido nos Açores. Antes de em 1994 se dedicar em exclusivo à escrita de romances foi jornalista, produtor executivo da CNN (nomeadamente dos programas “Crossfire” e “Inside Politics”) e repórter de guerra durante o conflito Irão-Iraque. O seu contacto com a realidade do Médio Oriente deu-se a partir do ano de 1987, quando foi colocado como correspondente no Cairo, no Egipto.
Desde 1994 já escreveu os romances “The Unlikely Spy”, “A Marca do Assassino”, “The Marching Season”, “O Artista da Morte”, “The English Assassin”, “O Confessor”, “Morte em Viena”, “Príncipe de Fogo”, A Mensageira”, “O Criado Secreto” e “Moscow Rules”.

“Justine” – Lawrence Durrell

justine“Justine”, obra clássica de Lawrence Durrell (1912-1990) editada em Portugal pela Ulisseia, é um dos vértices de uma tetralogia que tem a mítica cidade egípcia de Alexandria como pano de fundo, ou quiçá, como protagonista.

No seu todo, a obra de Durrell intitula-se “Quarteto de Alexandria”, incluindo, para além deste “Justine”, “Baltasar”, “Mountolive” e “Clea”. Estes quatro volumes foram escritos entre 1957 e 1960 e fizeram de Durrell um candidato ao Nobel da Literatura.

A acção decorre no período que medeia as duas guerras mundiais. Alexandria é, no fundo, a personagem principal desta teia de enredos amorosos, políticos e religiosos, sendo excelentemente secundada por personagens bem elaboradas, das quais Justine e o narrador são só os melhores exemplos.

Este par vive um amor proibido (ambos são já comprometidos), com tanto de intenso como de dramático e, principalmente, fatalista.

Durrell, para contar a sua história, não é linear no tempo, já que recorre muitas vezes a saltos ao passado que permitem ao leitor compreender (e julgar) melhor certos actos das personagens no presente.

E as personagens são, inequivocamente, uma das grandes traves-mestras da qualidade deste romance, não só o narrador e Justine, como também Nessim (marido de Justine), elissa (companheira do narrador) ou os outros que vão povoando as suas vidas e, em simultâneo, de Alexandria, através dos quais nos é dado um retrato desta misteriosa cidade.

Durrell, através do narrador, faz comparações entre Alexandria e Justine –

 “… compreendo que ela é uma verdadeira filha de Alexandria; isto é, nem grega, nem síria, nem egípcia, mas uma híbrida, um complexo” – dando à cidade uma vida e uma personalidade por norma só reservada a seres humanos, daí se compreendendo a devoção do escritor pela cidade.

Mas esta devoção não significa admiração pura, já que, por exemplo, na descrição dos beijos proibidos do casal escreve: “as implicações de cada beijo seriam diferentes em Itália e em Espanha; aqui os nossos corpos estavam feridos pelos ventos ásperos e esterilizantes que sopravam dos desertos africanos, e éramos obrigados a substituir o amor por uma ternura cerebral mais cruel, que, longe de repelir a solidão, só servia para exacerbá-la ainda mais”. Ou seja, Alexandria ganha corpo neste romance, de tal forma que é quem mais influencia os comportamentos de quem vive no livro.

Por isso,“Justine” é acima de tudo um livro que nos apresenta uma cidade muito peculiar e fascinante, através de uma bela e trágica história de amor, conduzida por uma mulher fascinante que, não consegue, ela própria, guiar os seus sentimentos como quereria, levada por algo tão forte e intenso que a deixa arrasada.

A adoração de Durrell por Alexandria nota-se em todos os pormenores e há a destacar um passeio nocturno do narrador por um bairro indígena, depois de uma noite complicada onde tentou descobrir o que era afinal, o amor, o sexo.

No fundo, o que a autor transmite é a que personalidade é moldada pelo local onde se vive.

Jorge Semprún – Entrevista a propósito de “Vinte Anos e Um Dia”

vinte-anos2semprun2Jorge Semprún escreveu aos 80 anos o seu primeiro romance em castelhano, no caso “Vinte Anos e um Dia”. O escritor adoptou a França como país de residência quando teve de fugir de Espanha devido à guerra civil, mas regressou para ser ministro da Cultura num governo socialista. Por tudo isso foi difícil limitar esta conversa a um “simples” romance. De qualquer forma, “Vinte Anos e um Dia” (Edições Asa) é uma obra de leitura obrigatória, com a acção a decorrer, principalmente, em 1956, vinte anos depois de ter começado a guerra civil espanhola. Na localidade de Quismondo, Toledo, todos os anos se repete uma estranha cerimónia que consiste na recriação de um momento trágico ocorrido em 1936, quando camponeses revoltosos assassinaram o filho do dono da herdade La Maestranza. À sua volta gira uma série de histórias (políticas, de amor, traição), de tal forma intensas que deixam o leitor preso às 220 páginas do lirvo.

 

Este é um livro político, histórico ou um romance de amor?

Há um pouco de tudo. Mas ao leitor é que cabe escolher a parte que mais lhe interessa, se a de amor, de história, da política.

Quando o começou a escrever tinha já ideia de qual iria ser o tema principal?

Os temas fundamentais que me interessavam no, na altura, eventual livro misturavam-se muito: a política, o amor e a reconstituição de um período da

História de Espanha de que se fala pouco. Só agora a literatura começa a falar dessa época, depois de muito tempo de esquecimento, porque a democracia permite que se recorde o passado sem problemas. Isso sim, é voluntário, o acto de recordar a época do franquismo, da clandestinidade, da luta.

Como lidam actualmente em Espanha com esse passado?

Acho que a relação com o passado é mais transparente do que há uns anos, talvez devido à mudança de gerações, é quase biológico. Hoje pode-se evocar o passado sem provocar de seguida um conflito nas famílias, nas sociedades, nas aldeias. No entanto, há coisas difíceis de recordar porque ainda há valas comuns onde estão enterradas vítimas da repressão. Pelo menos na literatura já é mais transparente a relação com o passado.

O livro tem muito de autobiográfico?

Sim, nomeadamente as referências à Madrid de 1956, uma experiência que vivi, as referências à personagem Federico Sanchéz, uma espécie de alter-ego, com o qual tenho uma relação íntima e ao mesmo tempo crítica. Mas nunca pretendi, nesta obra, que o autobiográfico se sobrepusesse ao romanesco. O que há de autobiografia está inserido na estrutura novelesca.

Porque sentiu a necessidade de incluir um elemento “estranho” como o historiador americano?

Porque ao contar esta história pareceu-me útil, do ponto de vista narrativo, a visão de um estrangeiro. Para que entre o narrador e a realidade houvesse outra visão mais objectiva do que a de Federico Sanchéz. Uma visão mais serena, menos espanhola, menos apaixonada sobre os acontecimentos da guerra e da posterior ditadura.

A história central, da expiação, da recriação do assassínio, é verdadeira?

O núcleo da história é verdadeiro, ou seja, o assassínio por azar de um dos irmãos e a cerimónia expiatória, embora não tivesse durado vinte anos. Eu prolonguei-a até à entrada da geração do pós-guerra. Havia várias versões, mas a terra existe. A família inventei-a.

É uma obra de reconciliação?

Há inevitavelmente relação com a reconciliação. Há um período em que recomeça uma atitude de reconciliação e unidade anti-franquismo e desaparece a visão da guerra civil. A morte de Franco facilitou o processo de transição pacífica para a democracia.

Parece-me também que é um romance muito erótico.

Esse aspecto impõe-se naturalmente nesse universo fechado dos Avendaño, na viagem de noivos, através de coisas que ouvi contar na minha família. Vem do universo muito típico da grande burguesia espanhola de origem rural.

O incesto chega a ser encarado de uma forma muito carinhosa.

Sim, na medida em que são vistos como elementos trágicos convencionais, são elementos dramáticos da tragédia grega e pareceu-me que também aqui poderia ser um elemento de entendimento do mundo tão fechado da família Avendaño.

Pretende que o seu livro seja uma espécie de lição de História para as actuais gerações?

Em geral nunca pretendi dar lições através do que escrevo. Se é lição, isso é com o leitor. Tinha a necessidade pessoal, que coincide com a colectiva de Espanha, de regressar a essas memórias. Em parte também por isso o livro foi escrito em castelhano. Era mais fácil regressar à minha memória dessa época em espanhol, do que na língua do momento, o francês, que é um pouco estranha a esse episódio da vida espanhola. Tinha grande vontade de voltar a esse momento e foi um bocado difícil decidir entre o francês e o espanhol. No tempo que me resta, que não é muito, vou tentar escrever uma série de romances, cujo tema já está definido. Serão em espanhol porque misturam um pouco de história, aventura pessoal, amor, etc.

Uma situação como o franquismo poderia regressar a Espanha ou surgir em outro país europeu?

O franquismo é tipicamente espanhol, é a forma espanhola de fascismo porque é o único na Europa onde a Igreja Católica tem tanta influência. Mas não creio que possa voltar. A direita parlamentar é muito reaccionária mas não é autoritária. A gestão de Aznar nos últimos anos era muito autoritária mas estava regida pela democracia. Foi eleito pelo povo.

Os espanhóis lidam melhor com o passado do que os alemães?

O passado dos alemães é muito mais pesado, por muito duro e repressivo que tenha sido o franquismo. Conheço bem a Alemanha e acho que em mais nenhum país da Europa se fez tanto trabalho de educação e informação com a juventude.

Você é uma espécie de compêndio de História!

Surge a tentação, ou necessidade, de incorporar elementos autobiográficos mesmo em romances puros. Claro que se tivesse tido uma vida mais monótona e cinzenta de funcionário do Ministério do Comércio a imaginação poderia voar completamente.

Aproveita sempre a sua experiência pessoal para preencher os seus livros?

Nem sempre. Mas neste livro há uma passagem em que a personagem narrador disse ao historiador americano que é muito difícil esquecer a experiência pessoal. A memória pessoal interpõe-se sempre, no meu caso, a infância, a guerra civil, o exílio, a resistência em França, os campos de concentração, o regresso a Espanha, a clandestinidade, a expulsão do partido, a vida de escritor num idioma estrangeiro, o regresso a Espanha como ministro, tudo isso é muito novelesco (risos).

Não se sente preso a esse seu passado histórico? Não sente necessidade de escrever algo diferente, recorrendo só à imaginação?

Sim, tenho essa necessidade, mas é muito difícil. Gostaria muito de escrever um romance de verdade, em que tudo fosse imaginário, em que ninguém percebesse qual era o caminho da minha memória nas personagens totalmente reelaboradas.

Pensa em francês ou em espanhol?

Sou completamente bilingue, esquizofrénico (risos), mas trato disto sozinho, sem ajuda médica. Penso e sonho mais em espanhol, mas quando faço revisão das notas de trabalho dou conta que na mesma página passo de uma língua à outra. As notas são bilingues.

(Entrevista realizada em 2004)