Arturo Pérez-Reverte – Entrevista a propósito de “A Rainha do Sul”

reverte1O escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte em “A Rainha do Sul” (Edições Asa) conta a vida de uma mulher – Teresa Mendoza – que luta, sobrevive e vence no masculino mundo do tráfico de droga. Reverte falou desta obra mas também de si, de literatura, do prazer de ler e, principalmente, de aventuras.
“A Rainha do Sul” é uma aventura, mas com a particularidade de não ter um herói puro, aquele que pratica o Bem.
Sendo uma mulher não poderia ser um herói puro. A mulher é muito mais complexa. Eu sou um escritor muito limitado, conto sempre a mesma história. Sempre me fascinou a história dos mercenários gregos que em território inimigo tentam regressar a casa. Como jornalista, sempre presente em países em guerra, este conceito cresceu. Creio que o ser humano é um soldado perdido em território inimigo e eu conto sempre esse romance. Mas a mulher é particularmente perdida num território particularmente inimigo e desta vez quis contar uma história como uma mulher, mas isso é mais complexo. Um homem pode ser derrotado em território inimigo e sobrevive, mas a mulher se é derrotada não sobrevive. Por isso, o combate da mulher é muito mais cruel, mais duro, mais violento e muito difícil. Ela luta pela sobrevivência num mundo de homens. Isto não é um romance sobre tráfico droga, é sobre uma mulher. O tráfico de droga é apenas o cenário… O mundo do narcotráfico é muito masculino e dá muitos recursos narrativos.
Como é que fez a investigação para conseguir descrever de uma forma tão completa um mundo tão complexo como o do tráfico de droga?
Quando era repórter passei muitos anos destacado em guerras, onde havia muitos narcotraficantes. Certos amigos dessa época eram traficantes e mercenários, alguns portugueses. E para escrever este livro voltei a contactar os meus antigos amigos. Foi um romance “escrito” em bares, bordéis, tascos, mas desta vez sem a inocência do repórter. Agora fui para utilizar um material que ia manipular como narrador. Foi uma experiência muito agradável por ir a esses lugares sem necessitar de respeitar o rigor.
Mas a obra está escrita como se fosse uma espécie de reportagem.
É uma aparência falsa. Um romance pode adoptar diferentes formas de estrutura. Escrevê-la como se fosse uma reportagem é um recurso narrativo, mas é um romance. Ia mover-me num mundo, o do tráfico de droga, no qual não ia fazer juízos morais, ia falar de uma mulher tentando decifrar alguns enigmas da mulher.
A impressão com que se fica ao ler “A Rainha do Sul” é que no fundo os traficantes são pessoas normais, como quaisquer outras.
Não queria fazer um ensaio sobre a droga. Movo é as minhas personagens por um mundo que é o do narcotráfico. Um traficante não diz quando trafica: “Que mau que sou”; quando mata: “Sou um assassino”. Para ele é um trabalho como para mim é escrever romances. A normalidade profissional, tinha de a manter no romance para dar credibilidade. Os traficantes têm filhos, mulher, amigos, os seus próprios códigos de comportamento, as suas regras de jogo. Não os aprovo nem condeno, conto como é esse mundo passeando por lá a minha personagem. Este romance é sobre o coração de uma mulher. É uma viagem ao coração de uma mulher.
Em “O Cemitério dos Barcos em Nome” também tem uma personagem feminina forte.
Mas vista de fora, pelo marinheiro Coy, como um enigma. Agora quis dizer o tinha na cabeça essa mulher e foi um desafio muito difícil porque sou um homem.
Como se conseguiu “meter” na pele de uma mulher?
Não sei. Com senso comum, com raciocínio, com juízos.
Ouviu comentários de mulheres sobre a personalidade de Teresa?
Recebo muitas cartas de mulheres (espanholas, mexicanas, francesas, italianas…) que dizem: “Sou uma mulher respeitável, mãe de família, feliz, mas sou ‘Teresa’. Identifiquei-me com ela. A luta dela com os homens é a minha luta”.
Considera “A Rainha do Sul” um livro de aventuras?
Não é só. Todos os meus livros são de aventuras. Todos os livros em que o ser humano sai de um território conhecido e entra num desconhecido, arriscando a vida, o intelecto e o espírito.
O livro de aventuras é um género menor na literatura?
Pertenço à Real Academia da Língua, em Espanha, mas fui o primeiro autor desse tipo de livros a entrar. A aventura é um termo muito amplo. Há alguns académicos e críticos estúpidos que pensam que existem linhas que delimitam os géneros. Hoje em dia as linhas são muito confusas. É muito perigoso atribuir géneros. Acho que há romances bons ou maus. Um exemplo: Saramago é um autor respeitado de romances sérios. É mais importante “A Jangada de Pedra” do que “Os Três Mosqueteiros”? “Os Três Mosqueteiros” impõe comportamentos e éticas e há gente que é como é porque leu a obra. Só os muito estúpidos e arrogantes são capazes de traçar linhas e categorias na literatura. O principal pecado da literatura é ser aborrecida. Sempre tentei ser ao mesmo tempo profundo e divertido.
O seu tipo de escrita é influenciado pelo facto de ter sido jornalista?
Não. Nesse aspecto devo muito pouco ao jornalismo. A minha vida como escritor é uma luta contínua contra os vícios e clichés que a linguagem jornalística me deixou. Escrevia melhor antes de ser jornalista.
Nos seus livros, através das personagens, faz sempre um apelo à leitura.
É uma profissão de fé. Surge naturalmente. Sou um leitor militante desde os doze anos e na hora de criar personagens não posso impedir que o meu amor pelos livros se manifeste. E neste caso particular tinha de justificar como uma mulher analfabeta podia progredir. Teresa nunca poderia ter progredido sem livros.
Continua a ser um grande leitor?
Já li tudo o que se pode ler. A literatura contemporânea interessa-me menos. Agora releio muito. A um autor novo prefiro reler “O Primo Basílio” de Eça de Queiroz, que é uma lição de literatura e psicologia e um dos melhores romances da história da Europa.
O que ambiciona como escritor?
Escrevo porque me sinto bem, porque me dá liberdade e independência. Gosto de contar histórias e fazer coisas que não fiz na vida, como matar, seduzir mulheres, ter amigos que não tive, andar à luta com um polícia sem ser preso. Posso fazer qualquer coisa. Escrever dá um poder imenso.
Como é o seu dia de trabalho?
Levanto-me às 7h30, corro pelo monte e trabalho oito horas diárias, como se fosse ao escritório. Faço-o com disciplina. Escrever é 20 % de talento narrativo e 80 % de trabalho.
Tem outras ambições para além da escrita?
Não. A minha vida é ler, escrever e velejar.

 

(Entrevista realizada em 2004)

2 pensamentos sobre “Arturo Pérez-Reverte – Entrevista a propósito de “A Rainha do Sul”

  1. Anabela Teles

    “Tem outras ambições para além da escrita?
    Não. A minha vida é ler, escrever e velejar.”

    Há gente com sorte 🙂 talvez com génio.
    Vou comprar o livro. Se não gostar pelo menos ajudei-o a ter a vida que sonhou
    🙂
    Bom dia

  2. Pingback: Porto Editora lança a 20 de Agosto “A Sombra da Águia”, um inédito de Pérez-Reverte « Porta-Livros

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.