“A Rainha do Sul” – Arturo Pérez-Reverte

rainhasul2O espanhol Arturo Pérez-Reverte é, sem dúvida, um especialista em literatura de aventuras, e se depois de “O Cemitério dos Barcos Sem Nome” a fasquia estava colocada a uma altura considerável, o que se pode dizer após a leitura de “A Rainha do Sul” é que não há que ter medo de pôr as mãos e a vista nesta obra editada pela Asa.
Trata-se de um livro notável a todos os títulos, um dos indicados para desmentir quem acha que a literatura de aventuras é um género menor.
O que Steven Spielberg fez pelo cinema de aventuras com “Os Salteadores da Arca Perdida” pode ser equiparado, dentro das devidas condicionantes, ao que este autor espanhol tem feito em termos de literatura de aventuras.
Desta vez, Arturo Pérez-Reverte conta-nos a história de Tereza Mendoza, uma jovem e, até certo ponto, ingénua mexicana que faz uma travessia incrível pelo mundo do tráfico de droga.
Apesar da história se basear no mundo do narcotráfico – e ninguém fica de fora (mexicanos, colombianos, galegos, marroquinos, russos, etc.) – o curioso é que quase parece não haver más pessoas, pelo menos entre os protagonistas.
É notório como um livro de aventuras sobrevive sem um herói puro, um daqueles que contra ventos e marés tudo faz para que o Bem triunfe sobre o Mal.
Aliás, em “A Rainha do Sul” essa fronteira é muito, muito ténue. Teresa Mendoza, a protagonista, chega a rainha do narcotráfico não por escolher um rumo fácil para vencer na vida, mas sim porque sempre lhe saem os piores caminhos, sem hipótese de optar. É uma questão de fugir para a frente, usar a cabeça e, basicamente, sobreviver.
Esta é, principalmente, a história de uma sobrevivente, que aprende a mexer-se num complexo, nebuloso e pouco firme mundo dominado por homens.
Da sua ignorância, recorre à sua energia e aproveita cada revés para daí tirar uma nova força para então dar um passo seguro.
Arturo Pérez-Reverte, antigo jornalista, escreve um romance como se escrevesse uma reportagem, proporcionando mais de 400 páginas sem momentos mortos, misturando bem as partes em que é o jornalista que investiga a vida de Teresa quem nos conta a história, com as outras em que é a própria protagonista a expor-nos a sua existência.

Investigação e realismo
O livro está muito bem escrito, dentro de um estilo clássico e despretensioso, seguindo uma linha cronológica natural, o que dá outro realismo a uma obra que resulta de um grande trabalho de investigação do autor, a que não faltou contacto com traficantes de droga.
O livro, efectivamente, foi trabalhado como se de uma reportagem se tratasse. Não sendo uma biografia de ninguém em particular, é de certeza um mosaico de retratos de muita gente com quem Pérez-Reverte contactou.
Só assim poderá ter “construído” tal rede de tráfico de droga e de negócios paralelos como a que aparece no livro. Complexa, mas lógica, a um ponto que chega a ser assustador por nos abrir as portas de um mundo que está aqui tão próximo mas do qual não conseguimos discernir a verdadeira dimensão.

2 pensamentos sobre ““A Rainha do Sul” – Arturo Pérez-Reverte

  1. Faltar-me-ão umas vinte folhas para terminá-lo. a sensação? “bem esgalhado”. Teresa Mendoza incute-me sentimentos de empatia iguais às geradas por Tom Ripley.
    portanto, a concordar com a recessão

  2. Pingback: «O Tango da Velha Guarda» é o novo romance de Arturo Pérez-Reverte | Porta-Livros

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