Robert Wilson – Entrevista a propósito de “O Cego de Sevilha”

rwilsonRobert Wilson, escritor inglês que vive grande parte do ano em Portugal, num local remoto do Alentejo, é o autor de “O Cego de Sevilha”, recentemente lançado em formato de bolso pela Booket (das Publicações Dom Quixote).

A acção decorre na Semana Santa, em Sevilha, a partir da morte brutal de um empresário local. O detective Falcón, a contas com uma grave crise pessoal, investiga o caso e acaba por se envolver de tal forma que descobre uma série de coisas sobre o passado do seu próprio pai, um conhecido pintor já falecido.

Um intriga envolvente, passada numa cidade irresistível, muito bem descrita por Wilson.

 

“O Cego de Sevilha”, para além de ser um romance e um thriller, é também uma espécie de viagem a uma Sevilha desconhecida.

Em 1984 fui pela primeira vez a Sevilha, numa viagem de bicicleta que me trouxe também a Portugal. Tinha um amigo em Sevilha e passei lá dois meses.

Foi quando me apaixonei pela cidade. Quando, depois de em 1989 ter vindo viver para Portugal (em 1992 mudei-me para o Alentejo), o mesmo amigo veio de novo viver para Sevilha. Assim, eu e a minha mulher começámos a ir a Sevilha. Entretanto, tinha começado a escrever (em África) e desde sempre tive a ideia de fazer uma história em Sevilha. Tem muitos cenários cativantes e é assim que os livros começam para mim. Houve coisas da cidade que me atingiram em termos de poderem ilustrar uma história. A Semana Santa, a Virgem, as touradas, a alegria dos sevilhanos, são as coisas que sempre se ouvem falar de Sevilha.

Decidi, ao invés de evitar estes clichés, levá-los ao extremo e confrontá-los e envolvê-los na história. Quis que o interior de Sevilha, a parte velha, cujo mapa parece um cérebro, fosse indistinta da cabeça do detective.

Como se cria uma intriga tão elaborada e consistente?

É algo que vem com a escrita. Tenho a ideia do cenário, um feeling sobre as personagens e depois começo a história. Na abertura de “O Cego de Sevilha”, o leitor é posto no papel da vítima e não sabe o que se passa e então percebe que algo terrível está a acontecer. Queria que o leitor sentisse o mesmo que eu estava a sentir: o assassino removeu os olhos da vítima. Fiquei horrorizado por ter essa ideia. Apareceu-me quando trabalhava num livro anterior. Tive também a ideia de um detective a passar por uma crise pessoal.

Como é que consegue ter essas ideias tão terríveis?

As pessoas perguntam à minha mulher: “Não tens medo de viver com ele?” [risos] Na verdade, se falar com escritores de thrillers e de livros de serial-killers verifica que a maior parte são mulheres. A maior parte do público é feminino. Isso prova que não tem nada que ver com o potencial de cada um para ser sinistro.

A personagem de Javier Falcón está muito bem construída. Como se dá vida a uma personagem dessas? Com imaginação ou baseado em alguém?

É só imaginação, mas as personagens têm a tendência para ditar como a história se desenrola. Ganham vida própria. Por vezes, coisas da vida real ajudam. No caso de Falcón fui ver uma pessoa em Sevilha, que era muito simpática – não tinha nada que ver com Falcón –, e ela disse-me que a razão por que se tornou detective foram os filmes negros americanos. E usei isso, foi a única coisa, mas ajudou-me a construir o homem.

Quando constrói uma personagem vai buscar pequenas coisas a pessoas que conhece?

As personagens têm a tendência para ser composições. Mas, conforme a acção decorre, as personagens modificam-se e é preciso estar preparado. Também se pode ter uma ideia interessante, mas que não combina com a personagem, e aí é preciso voltar ao início.

Como faz para descrever a cena de um crime?

Tenho-a na cabeça e represento-a para mim próprio. Tenho toda a ideia da cena dentro de mim, em imagens, e ponho por escrito no papel.

Na elaboração dos romances baseia-se em factos reais? Por exemplo, a corrupção durante a exposição Sevilha’92?

Isso provém de uma mistura de artigos de jornais que apareceram em Espanha e no Reino Unido e que foi corroborado por pessoas que viviam em Sevilha na altura. Havia pessoas a alugar Mercedes para parecer que estavam a fazer dinheiro às custas da Expo’92. Tornou-se um status mostrar que se fez dinheiro às custas da Expo.

Os sevilhanos gostaram da descrição feita da cidade?

Sim, apesar de ser muito difícil escrever sobre Sevilha. Os sevilhanos queriam que escrevesse coisas positivas sobre a cidade. Estranharam quando lhes disse que, apesar de ser uma cidade feliz, ia recorrer a personagens em crise. Mas, essencialmente, sou pró-Sevilha e isso nota-se no livro. No fim do livro, quando Javier vai à feria (as festas), está completamente destruído mas, por momentos, consegue esquecer a sua situação difícil e diverte-se a dançar. Os sevilhanos reconheceram que esse era o seu maior cliché. Eles não conseguem levar a vida demasiado a sério por muito tempo.

Podia trazer Javier Falcón a Portugal.

É sempre uma possibilidade, mas penso que ele vai achar a língua

difícil.[risos]

Que país considera o seu, actualmente?

Bem… a Península Ibérica.

Depois de ter desempenhado diversas funções antes de ser escritor, como decidiu dedicar-se à literatura?

Acho que não se pensa “vou ser escritor”. A minha ideia surgiu aos 14 anos e estava numa aula de inglês. Escrevi uma história e li-a na aula e toda a gente parou para ouvir. O professor disse: “Foi fantástico”. Era uma história de amor e crime. Cheguei à conclusão que era capaz de fazer este tipo de coisas, pôr umas palavras juntas. Já em adulto, depois de ter andado pela Grécia, o meu pai morreu e regressei a Londres para estar junto da minha mãe. Trabalhei numa empresa de navegação. Depois fui dar uma volta de bicicleta pela Europa e quando regressei trabalhei em publicidade. Mas durante todo o tempo fui adquirindo experiência. Aos 35 anos, quando comecei a trabalhar para me tornar escritor, já tinha muita experiência, tinha conhecido muita gente.

Porque optou pelos thrillers?

Porque queria que houvesse o maior número de pessoas possível a ler os meus livros. É um género onde se pode escrever excelentes livros, onde se pode fazer tudo. Estudei em Oxford, mas sei que aquele tipo de escrita não era para mim. Sou mais ligado à realidade.

Não pensa escrever outro tipo de obras?

Neste momento sinto-me muito bem assim. Há quem diga que este género nos limita, mas eu acho que só tem de se obedecer a uma coisa: há um crime e um detective que tem de o resolver. Não é nada limitativo. Nem a personagem tem de ser um herói, nem a vítima de morrer de determinada maneira, o mundo está em aberto.

2 pensamentos sobre “Robert Wilson – Entrevista a propósito de “O Cego de Sevilha”

  1. Maria Alice

    Li apenas ¨Uma Pequena Morte em Lisboa¨ e gostei muito. Espero ler
    brevemente novos livros deste escritor criativo e envolvente.
    Foi ótimo conhece=lo.

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