Entrevista a Tahar Ben Jelloun a propósito de “Amores Feiticeiros” e “O Escrivão Público”

tahar2_01Tahar Ben Jelloun, escritor marroquino radicado em Paris, tem editadas pela Cavalo de Ferro duas das suas obras, “Amores Feiticeiros” e “O Escrivão Público”, respectivamente um livro de contos e um romance com pinceladas autobiográficas. Comum à maioria das suas obras é o retrato incisivo, por vezes implacável, da sociedade marroquina, nomeadamente o contraste entre modernidade e tradição. Conhecedor profundo da sociedade ocidental e da árabe, Ben Jelloun é por isso uma privilegiada testemunha das relações entre estes dois mundos, como se constata nesta entrevista.

Na sua obra, nomeadamente nestes dois livros editados em Portugal pela Cavalo de Ferro, está sempre presente o contraste entre Ocidente e Oriente, entre o moderno e o tradicional. São os seus temas de eleição?
São temas importantes para o meu trabalho porque acho que a minha posição de estar entre duas culturas, a árabe e a ocidental, leva a que seja normal que me interesse essa realidade. Independentemente de mim, vivemos uma época onde há uma incompreensão entre os dois mundos e penso que a literatura, os escritores e os criadores em geral podem ajudar a compreender o que se passa nesses mundos. É por isso que retrato o meu país, a minha sociedade, o mundo muçulmano, as tradições, para que o público ocidental se possa informar e entender coisas que vistas do exterior não se entendem.

Acha que há na sociedade ocidental soluções para ajudar a desenvolver a sociedade árabe?
Não há culturas fechadas, as culturas são abertas, aceitam interferências. Um dos aspectos importantes das migrações é que com o tempo há uma cultura que entra no Ocidente, embora seja apenas uma parte. Pode sempre aprender-se um com o outro. E se há algo que se pode aprender com o mundo árabe, oriental, é a relação privilegiada com os idosos: os pais os avós. No Ocidente há uma atitude muito triste, que não compreendemos. Por exemplo, em França, no Verão de 2003, houve 15 mil idosos que morreram devido ao calor mas também por causa da solidão. Em Marrocos não se entende como é possível abandonar os pais ou os avós.

Então para si o ideal é uma espécie de mistura das duas culturas?
Pode ser útil. Não se trata de dar tudo ou abandonar tudo. É como um casamento: pega-se numas coisas de um e do outro e com isso também se educa as crianças. A nível cultural pode pegar-se nas coisas mais belas, embora haja muitos países que não têm nada mais que a sua própria cultura, e isso é bastante triste.

Os atentados de Nova Iorque, Madrid e Londres deram um grande contributo para a divisão entre as duas culturas?
Desde há alguns anos que há uma situação de conflito. Mas o problema dos atentados é que se trata de uma situação muito complexa. Não se deve confundir um punhado de criminosos, que quer desestabilizar a sociedade e o mundo, com uma civilização. Hoje em dia quando se vai à América e se tem um passaporte europeu pode-se viajar, mas quando temos um nome árabe somos suspeitos; somos interrogados, etc. Já me aconteceu em Nova Iorque, onde fui tratado como se fosse um suspeito. Não se deve confundir um criminoso que mata inocentes como todo um povo.

A literatura pode ser um antídoto importante contra essas divisões?
Se as pessoas querem compreender melhor o que se passa no mundo devem ler autores árabes, traduzir mais livros, etc. A literatura árabe é negligenciada pelo Ocidente. Na América praticamente não há traduções de obras árabes.

Tem livros traduzidos em várias línguas. Tem que ver com o facto de viver em Paris?
Não. Eu cheguei a França numa época (1971) em que não havia terrorismo. Mas hoje em dia a situação complicou-se porque os europeus têm medo do terrorismo, há uma ameaça de terrorismo em toda a Europa. É verdade que vivemos todos com esse medo.

Uma das características mais interessantes das suas obras é abordar temas como o casamento, o amor e a sexualidade em Marrocos, realidades praticamente desconhecidas aqui na Europa, onde não se conhece a fundo o quotidiano da sociedade marroquina. Porque escolhe esses temas como base dos seus livros?
Porque na sociedade marroquina essa discussão é muito rara e eu luto contra a hipocrisia. Os marroquinos têm uma sexualidade mas não falam dela, vivem-na escondidos.

A sociedade marroquina hoje em dia está mais aberta. Pelo menos, é a imagem que chega ao Ocidente.
Sim, nos últimos cinco anos houve uma evolução extraordinária. Já não há um regime policial nem de repressão. O rei tem feito muito para dar mais liberdade ao país – o seu pai teve anos terríveis. A sociedade evoluiu, já se pode dizer o que se pensa.

Marrocos pode ser um exemplo para a região?
De momento não se pode dizer que é um exemplo, mas gostaríamos de ver o Magreb unido numa entidade como a Europa, seria formidável. Mas, infelizmente, ainda há conflitos por resolver com a Argélia.

Nos seus livros é bastante crítico em relação a Marrocos, mas nota-se que tem uma grande paixão pelo seu país.
É normal quando se gosta muito do nosso país que se seja duro e crítico para que ele se torne melhor.

A sua obra é bem aceite em Marrocos?
Sim… já fui criticado e contestado, mas ao mesmo tempo sou estudado nas escolas.
“O Escrivão Público” tem muito de autobiográfico.
Sim, há algumas coisas. É uma autobiografia misturada com ficção.

Tal como é dito, a dado passo, no romance, também “escreve em vez de viver”?
Sim. Continuo a escrever em vez de viver, é verdade. Mas eu vivo, tenho família, crianças…

O podem esperar os leitores portugueses que tomam contacto com a sua obra?
Podem viver algo que os leva a uma sociedade bastante próxima: aqui estamos a duas horas de Tânger. E entre Portugal e Marrocos há uma memória e uma cultura comuns.

PERFIL
Tahar Ben Jelloun nasceu em Fez (Marrocos) em 1944 mas vive em França desde 1971, sendo um dos mais consagrados escritores contemporâneos, traduzido em todo o mundo, vencedor de um Goncourt e do IMPAC (de Dublin).
Estudou na Universidade de Paris, onde fez o doutoramento em Psiquiatria Social.
Iniciou a carreira literária em 1973, escrevendo em francês, e em 1984 recebeu o conceituado Prémio Goncourt com o romance “La Nuit Sacrée”. Em 2004 recebeu o Prémio IMPAC graças a “Uma Ofuscante Ausência de Luz”.
Normalmente empenhado em causas sociais, nos seus livros surgem quase sempre as contradições da sociedade árabe contemporânea, dividida entre a modernidade e a tradição, entre o Estado e a Religião. Outra das suas temáticas favoritas é a relação do Ocidente com o mundo árabe.
Para além de “Amores Feiticeiros” e “O Escrivão Público”, o autor marroquino já viu traduzido para português livros como “O Homem Justo”, “O Albergue dos Pobres”, “O Islão Explicado à Minha Filha” e “Uma Ofuscante Ausência de Luz”.

 

(Entrevista realizada em 2005)

Um pensamento sobre “Entrevista a Tahar Ben Jelloun a propósito de “Amores Feiticeiros” e “O Escrivão Público”

  1. Pingback: QuidNovi editou «O Primeiro Amor É Sempre o Último», de Tahar Ben Jelloun | Porta-Livros

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.