“Gone, Baby, Gone” – Dennis Lehane

gone-baby-goneTratou-se apenas de coincidência (e nada mais do que isso) a edição de “Gone, Baby, Gone”, de Dennis Lehane, na mesma altura em que ocorreu o desaparecimento de Madeleine McCann no Algarve.
Para os mais distraídos este livro pode ser encarado como um aproveitamento da situação, mas há que desmontar essa ideia. “Gone, Baby, Gone” é, “simplesmente”, um policial de grande nível, escrito em 1998 pelo mesmo autor de “Mystic River” e “Shutter Island”, também já lançados em Portugal pela mesma editora (Gótica) que nos fez chegar este intenso drama policial.
Neste romance, já adaptado ao cinema por Ben Affleck, uma menina de quatro anos (Amanda) desaparece de sua casa, onde havia sido deixada sozinha pela mãe, mais interessada em ir para um bar. Limitou-se esta a dar seguimento ao seu “way of life”, mais inclinado para o álcool e as drogas do que para tratar da filha.
De início, toda a gente parece interessada no caso, alvo de uma grande cobertura mediática que deslumbra, nomeadamente, a mãe de Amanda, pouco importada em ser estrela da TV pelos piores motivos.
Com o passar do tempo o interesse esmorece, embora o caso não tenha sido esquecido por um casal de detectives privados, Patrick Kenzie e Angela Gennaro, contratado pelos tios de Amanda, aparentemente os únicos interessado no destino da menina desaparecida.
É nesta fase, alguns meses decorridos sobre o desaparecimento sem que a investigação produza resultados, que o mistério se alastra definitivamente para os meandros do crime de Boston, onde é difícil distinguir os bons dos maus, ou seja, onde não se sabe se são melhores os polícias ou os bandidos. Ou melhor, se não há bandidos melhores do que agentes da autoridade.
Como é norma nas obras de Lehane, este desenha Boston de forma implacável – é a sua cidade, mas talvez por gostar tanto dela nada lhe perdoe. E esse retrato da sociedade local, nu e cru, é talvez uma das melhores “armas” desta obra, onde nada é nítido e transparente e onde as consequências do rapto vão atravessar de forma transversal todos os envolvidos, não escapando ninguém incólume. Para as personagens torna-se impossível discernir e decidir sobre o que está certo ou errado e se uma ou outra opção vai trazer implicações boas e más (mas indeléveis) em quem opta e em quem o rodeia.
Corrupção, droga, armas, lutas de poder, pedofilia, tudo isto surge neste romance e tudo isto surge ligado ao rapto tão só porque as ramificações do mal estão tão ligadas que seria impossível destacá-las umas das outras. Tudo tem que ver com tudo e nada acontece por acaso.

2 pensamentos sobre ““Gone, Baby, Gone” – Dennis Lehane

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