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Um «raio X» ao fotojornalismo com a colaboração de João Silva


Diz-se que uma imagem vale mil palavras. Concordo. Mas há alturas em que as imagens, por si só, não bastam. E é sobre um caso desses que escrevo neste texto. De nada valeria aos fotógrafos de guerra Greg Marinovich e João Silva estarem a expor as suas fotos neste livro de que vos falo – Bang-Bang Club, uma edição bem-vinda do Clube do Autor – sem que algo mais se explicasse.
Trata-se de um livro sobre fotojornalismo de guerra e por muito boas que fossem as fotos deles, sozinhas não teriam conseguido contar a história que esta dupla pretendeu contar, precisamente a do Bang-Bang Club, um grupo de quatro amigos que, com as suas máquinas, retrataram os últimos e sangrentos dias do apartheid na África do Sul.
Trata-se de um excelente documento para tentar perceber esse conturbado período da história sul-africana, sendo ao mesmo tempo um testemunho de como vivem, e reagem, os fotojornalistas em situações de perigo extremo, rodeados pela morte, que acaba também por os atingir.
É precisamente a morte de um dos elementos do Bang-Bang Club, o sul-africano Ken Oosterbroek, que serve de ponto de partida ao livro escrito a meias pelo seu compatriota Greg Marinovich e por João Silva (sim, para os mais distraídos, é o premiado fotojornalista português do New York Times). Já agora, refira-se que o outro elemento do grupo é o também sul-africano Kevin Carter, que venceu o Pulitzer em 1994 com uma famosa foto tirada no Sudão onde se vê uma criança e um abutre e que se suicidou poucos meses depois de receber o galardão.
A eterna questão dos jornalistas de guerra é aqui abordada, sendo um dos pontos fulcrais da obra. Até onde deve intervir um jornalista envolvido num cenário de guerra? Como deve reagir perante uma série de atrocidades que decorrem à sua frente? A sempre defendida opção pela não intervenção deixa inevitavelmente as suas marcas, pois embora cientes das suas obrigações profissionais, não deixam de ser seres humanos que testemunham coisas terríveis.
O livro está escrito de uma forma simples e objectiva, mas envolve o leitor pela sua genuinidade e sinceridade, pois bastas vezes os autores confessam que não saberiam como reagir em determinadas situações extremas, assim como têm dificuldade em compreender, e interiorizar, os seus próprios comportamentos. O que é natural, pois ao contrário do que sucede muitas vezes com as suas fotos, não vivem num mundo a preto e branco. Aliás, a franqueza deles por vezes chega a ser desconcertante, nomeadamente no assumir de um distanciamento face ao que testemunham. Mas a verdade é esta, sem esse distanciamento, conseguiriam cumprir a sua missão enquanto fotojornalistas?
O livro vem completado com fotos da autoria dos quatros elementos do Bang-Bang Club, com um útil e minucioso glossário, assim como com uma cronologia da África do Sul. O prólogo é assinado por Desmond Tutu.
É, em suma, um preciso documento para quem se interessa por jornalismo e pela história do apartheid.
A foto de cima é da autoria de João Silav e a de baixo de Greg Marinovich.