Category Archives: Opinião sobre livros

«A Filha do Papa» – Luís Miguel Rocha

A Filha do PapaPronto, agora já entendo o «fenómeno» Luís Miguel Rocha. O thriller A Filha do Papa (uma edição Porto Editora) é efetivamente um livro cativante e envolvente que vai ganhando fôlego e ritmo a cada virar de página. Mesmo não sendo o Vaticano e papas um tema de minha preferência, bem pelo contrário, os mistérios que povoam este romance foram suficientes e bem montados para me prender a atenção – e bem preciso é ter atenção ao ler este A Filha do Papa, pois não só há uma grande profusão de histórias em desenvolvimento simultâneo como um elevado número de personagens que por vezes nos pode deixar confuso. Mas, essa profusão de personagens tem o seu lado positivo, pois permite-nos uma maior variedade de escolha entre aqueles de quem gostamos ou não. Mas isso de tomar partidos pode ser perigoso, pois, como seria de calcular num romance bem pensado, as coisas nunca são só pretas ou brancas.
A trama está bem organizada e disposta de um modo quase cinematográfico e aqueles que pensem, talvez por preconceito, que se trata de uma obra menor, não pensem que este livro é «light» pois o enredo é denso e requer que se puxe pela cabeça. A escrita simples, direta e descomplexada de Luís Miguel Rocha ajuda ao envolvimento do leitor. E assim teria de ser, pois há muita informação, histórica ou ficcional, a ser transmitida ao leitor, notando-se que o autor fez bem o (imenso) trabalho de casa.
Ora, esse trabalho de casa incidiu principalmente sobre a vida de Pio XII, o tão mal amado papa acusado de ser amigo dos nazis e antissemita e que aqui, nesta ficção (ou nem por isso), sai branqueado nessa matéria. Mas, noutra, que é afinal de contas o núcleo deste romance, fica-se a saber que terá tido uma filha secreta e esse é o mote para todas as confusões que alimentam a trama deste livro. No meio dessa trama envolvem-se duas personagens habituais nos romances de papas de Luís Miguel Rocha, a jornalista Sarah e o padre muito «especial» Rafael, de quem se vai conhecer também revelações bombásticas relativas à sua vida pessoal.
Já agora, um reparo. O pormenor de enumerar quase rua a rua os locais em Roma por onde vão passando as personagens nas mais diversas situações pode ser interessante para quem conhece bem a cidade, mas para os outros pode revelar-se algo… «desnecessário». Mas que não seja isto a desencorajar alguém a leitura deste romance, pois é apenas, como referi, um pormenor no meio de muita coisa que nos prende. A Filha do Papa trata-se de um livro bem pensado e «apresentado» que por certo repetirá o êxito dos anteriores romances de Luís Miguel Rocha, deixando já os leitores à espera de mais.

Sinopse: «Será o antissemitismo a verdadeira razão para o Papa Pio XII não ter sido beatificado? Quando Niklas, um jovem padre, é raptado, ninguém imagina que esse acontecimento é apenas o início de uma grande conspiração que tem como objetivo acabar com um dos segredos mais bem guardados do Vaticano – a filha do Papa Pio XII. Rafael, um agente da Santa Sé fiel à sua Igreja e à sua fé, tem como missão descobrir quem se esconde por detrás de todos os crimes que se sucedem e evitar a todo o custo que algo aconteça à filha do Papa. Conseguirá Rafael ser uma vez mais bem-sucedido? Ou desta vez a Igreja Católica não será poupada?»

Autor: Luís Miguel Rocha
Editora: Porto Editora
Ano de Edição: 2013
Páginas: 432

«Morte com Vista para o Mar» – Pedro Garcia Rosado

Capa Morte com Vista para o MarPedro Garcia Rosado prossegue, agora na Topseller, a sua «cruzada» pelo «bem-estar» do policial português. O seu mais recente contributo, Morte com Vista para o Mar (e com este já lá vão oito thrillers), é mais um bom exemplo daquilo que se deve/pode esperar de um policial contemporâneo. Tem uma boa história, personagens credíveis e apresenta um bem elaborado e preciso retrato da sociedade portuguesa, nomeadamente dos jogos de interesses que ensombram muitas das autarquias.
Além disso, o escritor continua (e ainda bem) a não temer introduzir cenas bastantes violentas onde quase dá para ver o próprio sangue, que escorre abundantemente.
Tudo começa, como não podia deixar de ser, com um crime, bastante violento por sinal, ou não fosse utilizado um machado, que ocorre nas Caldas da Rainha (é bom que se verifique este tipo de «descentralização» na literatura portuguesa), do qual resulta a morte de um antigo professor. Patrícia Ponte, inspetora da PJ que em tempos manteve uma relação com a vítima, investiga o caso e pede a ajuda do seu ex-marido, Gabriel Ponte, também ele inspetor da PJ, mas já reformado e a viver na zona onde decorreu o assassínio. O professor estaria prestes a denunciar um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro, mas com o decorrer da investigação vai-se percebendo que as causas do crime poderão ter sido outras. Só que, ao remexer no lodo, as águas vão ficando cada vez mais turvas e envolvendo cada vez mais gente, desde governantes a investidores.
Grão a grão, Pedro Garcia Rosado vai-nos «alimentando» com mais dados, laçando-nos de uma maneira que nos deixa perfeitamente envolvidos e que nos prende até ao final da história, que se desenvolve a um ritmo crescente. Um toque aqui e um toque ali servem para nos prender a atenção constantemente e um dos melhores exemplos é a introdução de um terceiro elemento, a jornalista Filomena Coutinho, que não só serve para desenvolver a faceta pessoal das personagens como para denunciar uma certa maneira de funcionar de alguns órgãos de comunicação social. Nota-se que o autor se movimenta com à-vontade nos meios que retrata (as forças policiais, as autarquias, as empresas obscuras e a comunicação social), o que só dá mais credibilidade a este Morte com Vista para o Mar e ao mundo que pretende retratar.
Com a sua escrita simples (mas não básica) e direta, Pedro Garcia Rosado ganhou de novo a aposta, e ganha também o leitor que se dedique a este livro, seja ou não amante de policiais.
Note-se que Morte com Vista para o Mar marca o arranque de uma nova série, dedicada às investigações de Gabriel e Patrícia Ponte, assim como de Filomena Coutinho, e para setembro de 2013 está marcada a «estreia» de um novo episódio: Morte na Arena: A Descida aos Infernos. Ficamos à espera!

Sinopse: «Nas traseiras de uma moradia isolada nas Caldas da Rainha, um professor de Direito reformado aparece morto à machadada. Patrícia, inspetora-coordenadora da Polícia Judiciária, pede ajuda ao ex-marido Gabriel Ponte, antigo inspetor da PJ, que assim regressa ao mundo da investigação criminal. Meses antes, o professor tinha contactado Patrícia, sua antiga aluna e amante, para denunciar a existência de um esquema de corrupção e de lavagem de dinheiro em torno do projeto de um empreendimento turístico gigantesco nas falésias da costa atlântica.
As primeiras provas apontam para que este homicídio seja resultado de um affaire com uma mulher casada, mas poderá o professor ter sido assassinado por saber demais?»

Autor: Pedro Garcia Rosado
Editora: Topseller
Ano de Edição: 2013
Páginas: 310

«Cenas da Vida de Aldeia» – Amos Oz

Cenas da Vida de AldeiaJá aqui o terei confessado antes: não sou grande apreciador de contos. Mas, tendo em conta que Cenas da Vida de Aldeia (uma edição Dom Quixote) vem assinado pelo israelita Amos Oz (que me deslumbrara com Uma História de Amor e Trevas) e era composto por temas que no seu todo contavam uma única história, entendi que o risco de me aborrecer não era grande. E entendi bem, pois estava na presença de um belo livro, cuja leitura dos contos só faz sentido se os ler a todos, pois trata-se de um único corpo composto por fragmentos de vidas.
Apesar de serem vidas de pessoas que vivem numa aldeia com as particularidades próprias de uma região invariavelmente sob tensão, no fundo, na essência, são as vidas de pessoas como quaisquer outras, com os mesmos problemas, dúvidas, incertezas, certezas, convicções, etc.
Nestas Cenas lemos/vemos as vidas de Tel Ilan, aldeia fictícia israelita, pacata e enquadrada num belo cenário rural. Através do quotidiano dos habitantes (há uns e outros que saltam de história para história; afinal, a aldeia é pequena e é natural que se cruzem, certo?) vivemos também nós a própria Tel Ilan, não como um turista ou viajante de passagem, mas como um deles, pois Amos Oz leva-nos ao interior das casas, das suas vidas. E o que conhecemos são pessoais normais, condicionadas pelo ambiente que as rodeia, mas isso é, no fundo o que se passa com todos nós, seja esse ambiente uma guerra, uma ilha, um bairro isolado e marginalizado.
Cenas da Vida de Aldeia é portanto, como já deu para perceber, um livro sobre pessoas e a beleza dele reside no modo como Amos Oz leva a que nos envolvamos com elas, tomando-as como nossas. O nosso apetite aguça-se com uma boa dose de mistérios ocultos naquelas casas e ruas, assim como com histórias bizarras, amores perdidos, obsessões, melancolia e saudade, momentos macabros, e com um toque de imprevisibilidade bastas vezes incrementado por finais deixados em aberto, escancarando as janelas da imaginação do leitor para daí tirar as suas próprias conclusões.
Assim sendo, só me resta dizer: compre o seu bilhete até Tel Ilan, pois mesmo que não goste da aldeia em si quando lá chegar, vai por certo apreciar a viagem. É que Amos Oz escreve tão bem que só isso vale a viagem.

Sinopse: «Um turista de passagem pela pacata aldeia de Tel Ilan verá casas rústicas centenárias, altos ciprestes, colinas verdes e pomares. Uma Toscana no coração dos montes de Manassés. Mas sob a superfície pululam os segredos e os enigmas: escavam à noite nas fundações da casa de Pessach Kedem. Há um mistério escondido no quarto de dormir da família Levin. E porque ficou o agente imobiliário trancado na cave do falecido escritor? Todas as histórias deste livro, à exceção da última, têm lugar numa aldeia imaginária. Um lugar que vai sendo construído de conto para conto como uma Macondo israelita – uma superpersonagem concreta, vibrante e poderosa.
Mas Cenas da Vida de Aldeia é, acima de tudo, uma obra em que as personagens passam de uma história para outra, errando entre aquilo que perderam e o que irão perder.»

Autor: Amos Oz
Título original: Tmunot Mihayei Hakfar
Editora: Publicações Dom Quixote
Tradução: Lúcia Liba Mucznick
Ano de Edição: 2013
Páginas: 206

«A Praia dos Afogados» – Domingo Villar

pe-praiaA Praia dos Afogados é um policial com algo mais. Ou seja, quem se der ao «trabalho» de ler este livro não vai deleitar-se «apenas» com uma história em volta de um crime, vai, isso sim, deleitar-se com um belo romance que retrata uma região (a costa da Galiza) e as pessoas que lá vivem, particularmente a comunidade piscatória, com um realismo e um entusiasmo que não deixa ninguém indiferente.
Domingo Villar, o seu autor (galego, como será fácil de perceber ao longo das páginas), apresenta, a quem não conhece, uma Galiza que não é só aquela que se vê e absorve nos passeios pela costa. A quem conhece, saberá bem lá «regressar», pois com esta leitura é inevitável não reconhecer o ambiente muito típico daquele pedaço de terra logo ali a seguir ao Minho.
O crime, no caso o assassínio de um pescador, é somente o pretexto para nos levar a travar conhecimento com uma série de personagens que poderíamos encontrar ali ao virar da esquina, ou melhor, ao cruzar o rio Minho. Através do inspetor Leo Caldas, que investiga a morte do pescador Justo Castelo, e das pessoas que o envolvem, tanto quem o ajuda a desvendar o mistério da morte, como os suspeitos, podemos traçar um retrato bem realista do dia-a-dia das pequenas populações costeiras e das dificuldades que enfrentam, principalmente depois de findos os anos dourados da faina. São as visitas aos restaurantes/tascos locais, à lota, às casas humildes, à lota, o modo como comem, como passam o tempo, como trabalham, os costumes e as crenças dos pescadores, tudo isso nos envolve, tanto quanto o mistério em si, pois, com discrição, elegância e suavidade, Domingo Villar enreda-nos na trama e quando nos apercebemos estamos completamente presos à história.
O livro tem as voltas e reviravoltas típicas de um policial, mas não daquelas absurdas, antes das que apanham as pessoas desprevenidas na vida real, pois, como sempre, nem tudo o que parece é.
Com uma escrita cuidada e um argumento bem pensado e fundamentado, estamos perante uma excelente leitura, e para aqueles que entendem a presença de muitos diálogos como sinal de escassa qualidade literária, aqui vai um aviso: deixem-se de preconceitos!
Se os houvesse para colar em livros, este A Praia dos Afogados sem dúvida mereceria um selo de qualidade.

Autor: Domingo Villar
Título original: La playa de los ahogados
Editora: Sextante
Tradução: Helena Pitta
Ano de Edição: 2013
Páginas: 420
Sobre o livro: «Uma manhã, o cadáver de um marinheiro é arrastado pela maré até à beira-mar de uma praia galega. Se não tivesse as mãos amarradas, Justo Castelo seria outro dos filhos do mar a encontrar a sua sepultura entre as águas, durante a faina. Sem testemunhas nem rasto da embarcação do falecido, o inspetor Leo Caldas mergulha no ambiente marinheiro da povoação, tentando esclarecer o crime entre homens e mulheres renitentes em revelar as suas suspeitas, mas que, quando decidem falar, indicam uma direção demasiado insólita.»

«Em Parte Incerta» – Gillian Flynn

gone girl_01Há livros sobre os quais se criam grandes expectativas e depois, quando chega a hora de serem lidos, acaba por se gerar alguma desilusão, pois a fasquia estava demasiado elevada.
Confesso que foi esse o meu receio ao avançar para a leitura de Em Parte Incerta. Depois de tudo o que se escrevera (e dissera) sobre este romance da norte-americana Gillian Flynn, acabei por ficar um pouco de pé atrás, temendo a referida desilusão. Mas, depois, temendo, por outro lado, estar a passar ao lado de algo importante e marcante resolvi arriscar e… ganhei a aposta! Que livro fantástico!
É apresentado como um thriller, o que só por si já seria motivo de regozijo, mas é muito mais do que isso. Em Parte Incerta é um retrato da América nascida da crise de 2008; não um retrato global de toda a sociedade, mas um retrato em pequena escala da influência da crise no quotidiano das pessoas – mas, não será isso mesmo o que melhor espelha o que vai no mundo, esses pequenos mundos, os «nossos» mundos?
Os dois protagonistas (Nick e Amy, que formam um casal) são um reflexo das consequências da crise em todos nós. E como é que isso se processa? Ora muito bem, a autora, neste que é o seu segundo romance editado em Portugal (o outro foi Objectos Cortantes), criou duas personagens interessantíssimas, tão reais e humanas que até assustam, que se veem envolvidas, num período em que passavam por uma fase de decadência económica, num acontecimento que abala todos de forma tremenda. O acontecimento é o desaparecimento de Amy, como é bom de ver. E, desse ponto de partida, começamos a conhecer as personagens (não só as duas principais, como as que as rodeiam, familiares, amigos, polícias ou advogados.) Poder-lhes-ia chamar de personagens peculiares, mas, vendo bem, não passam de pessoas como nós ou como aquelas que conhecemos. Por isso, em vez de peculiares, são apenas «normais». E contatar isso é que pode revelar-se assustador.
Claro que as personagens que passamos a conhecer melhor são Nick e Amy, tanto através do relato do que vai sucedendo como através de memórias e do diário da desaparecida. E é curioso que, página à frente, página atrás, amamos um e odiamos o outro, e, de repente, já é o contrário. E essa é uma das grandes «armas» deste romance, a ambiguidade das personagens e das situações, as constantes evoluções e (des)evoluções no que sentimos por elas, até darmos por nós perdidos sem saber o que pensar. E, de repente, ainda meio «zonzos», levamos um soco no estômago, e todo se torna ainda mais… «inclassificável».
Todo este jogo deixa-nos preso ao livro, graças a uma técnica de atração irrepreensível de Gillian Flynn que sabe como poucos captar (para não mais largar) a atenção do leitor.
Se nem nós, leitores, na posição privilegiada de espectadores (com acesso a mais informações do que os protagonistas), conseguimos entender as mente de Amy e Nick e tomar partidos, quanto mais os próprios, que não sabem da missa a metade? Nunca como aqui foi tão apropriada a frase de promoção de um livro: «Acha mesmo que conhece a pessoa que dorme ao seu lado?»

PS - Segundo a edição de abril da revista inglesa Total Film, o realizador David Fincher está em negociações para deitar a mão à versão cinematográfica de Em Parte Incerta, com base num argumento escrito pela própria Gillian Flynn.

Autor: Gillian Flynn
Título original: Gone Girl
Editora: Bertrand
Tradução: Fernanda Oliveira
Ano de Edição: 2013
Páginas: 520

Sinopse: «O casamento pode dar cabo de uma pessoa…
Uma manhã de verão no Missouri. Nick e Amy celebram o quinto aniversário de casamento. Enquanto se fazem reservas e embrulham presentes, a bela Amy desaparece. E quando Nick começa a ler o diário da mulher, descobre coisas verdadeiramente inesperadas…
Com a pressão da polícia e dos media, Nick começa a desenrolar um rol de mentiras, falsidades e comportamentos pouco adequados. Mostra-se evasivo, é verdade, e amargo – mas será mesmo um assassino?
Entretanto, todos os casais da cidade se perguntam já se conhecem de facto a pessoa que amam. Nick, apoiado pela gémea Margo, assegura que é inocente. A questão é que, se não foi ele, onde está a sua mulher? E o que estaria dentro daquela caixa de prata escondida atrás do armário de Amy?
Com uma escrita incisiva e a sua habitual perspicácia psicológica, Gillian Flynn dá vida a um thriller rápido e muito negro que confirma o seu estatuto de uma das melhores escritoras do género.»

«O Ano Sabático» – João Tordo

O Ano SabáticoJoão Tordo regressou e devemos dar graças por não ter feito um ano sabático. Pois é, ainda bem que, para ele, ano sabático é «apenas» o título de um romance, de um bom romance, mais um, dele, onde a precisão e a contenção da escrita são o veículo perfeito de uma história imaginativa e bem contada.
Esta história é uma espécie de círculo traçado a dois tempos. Vejamos se consigo explicar: começa num ponto, com uma personagem, que enceta um semicírculo na sua vida, que se encerra precisamente no ponto onde outra personagem, à qual está umbilicalmente ligada, inicia o seu semicírculo, que irá encerrar no ponto de onde saiu a primeira.
A ação decorre entre o Canadá e Portugal. (Um parêntesis a propósito disto: li algures alguém a questionar por que raio a história tinha de ter por cenário o Canadá? Porque é que um escritor português tinha de escrever sobre o Canadá e não sobre o nosso país? Parece-me mesquinho. Porque não? Se calhar, quem questiona isto é daqueles que ficam todos contentes quando leem um livro estrangeiro cuja ação decorre em Portugal. Aí, já é um orgulho. Uma boa história é uma boa história, passe-se no Canadá, em Portugal ou na Albânia. E esta é indiscutivelmente uma boa história.)
Assim sendo, regressemos ao Canadá, onde vamos conhecer Hugo, um músico, ou candidato a músico, um contrabaixista, que está de partida para retornar a Portugal após uma estadia de longos anos na América. Em treze anos não encontrou o seu rumo, algo que o preocupa, nomeadamente porque já passou dos 40. Em Portugal, desenquadrado, Hugo, com a ajuda da irmã gémea, tenta retomar uma vida normal. Um desses passos de retorno à normalidade passa por ir a um concerto, do pianista Luís Stockman. Mas aí é que começa verdadeiramente o drama e a espiral de loucura e decadência de Hugo. Stockman, uma estrela em ascensão, interpreta a meio do concerto um tema inédito que mais não é do que uma composição que Hugo anda a escrever mentalmente há anos. Fica então obcecado com isso, pois como é possível alguém interpretar um tema que só ele conhecia? A obsessão recai sobre o próprio Stockman, que passa a ser o seu «alvo». Quer saber quem ele é e quanto mais sabe mais percebe que se está a ver perante um espelho, não um espelho da realidade, mas um espelho daquela que poderia ter sido a sua própria realidade.
Este «jogo» de personalidades e espelhos é muito bem montado por João Tordo que, com recurso a uma linguagem simples (mas não básica, atenção!), nos apresenta uma história a dois tempos, onde Hugo, vazio em si, procura Stockman, para se completar, e este, sem o saber, nem aparentemente necessitar, se completa com a vida prévia de Hugo. Poder-se-ia dizer que a estes dois homens bastaria uma única vida (unida) para duas entidades, dois corpos. Não seria bem um caso de dois gémeos indissociáveis, mas antes um caso de dupla personalidade concretizada, ou seja, que passou a morar efetivamente em dois corpos.
Parece confuso, mas não é. O Ano Sabático lê-se extremamente bem, e é de fácil compreensão, pois no fundo tudo tem lógica e é apresentado/explicado de forma bastante clara, socorrendo-se para isso de um bom leque de personagens, sejam elas atores principais ou secundários.

Sinopse: «Depois de treze anos de vida desregrada no Québec, Hugo, um contrabaixista de jazz, decide tirar um “ano sabático” e regressar a Lisboa, onde espera reencontrar o equilíbrio junto da família. Porém, logo numa das primeiras noites, assiste ao concerto de Luís Stockman – um pianista que se tornou recentemente famoso –, e a almejada paz transforma-se no pior dos pesadelos: Stockman toca um tema inédito que Hugo conhece bem demais, pois é o mesmo que vem escrevendo há anos na sua cabeça…»

Autor: João Tordo
Editora: Publicações Dom Quixote
Ano de Edição: 2013
Páginas: 212

«Dr. No» – Ian Fleming

ctp-drnoEstá confirmado. James Bond envelhece melhor em livro do que em filme. Dr. No, original de 1958 que teve em 2010 uma bela reedição na Contraponto, é uma obra que escapou incólume à passagem dos anos, contrariamente ao que, na minha opinião, ocorre com algumas das versões cinematográficas do mais famoso agente secreto do mundo. Vantagens da leitura, que dá mais margem de manobra à imaginação em termos de cenários e cenas, especialmente se já não se tiver muito presente a imagética do filme.
Este é sem dúvida um dos melhores títulos de Fleming, e não terá sido por acaso que foi escolhido, em 1962, para iniciar a versão cinematográfica de 007. Com um bom nível de escrita, superior aos mais populares livros de espionagem da atualidade, Dr. No é um thriller envolvente que desde cedo capta o leitor, tanto pelo enredo como pelos cenários exóticos, algo que, sabe-se, é procurado pelos leitores deste tipo de ficção. Não tem as reviravoltas que entretanto nos habituámos a apreciar nos thrillers – é mais seco e puro –, mas compensa com personagens bem construídas e «fiáveis», consistentes, em suma.
A ação, que decorre nas Caraíbas, coloca um James Bond a precisar de repouso frente a um vilão de topo, Dr. No, que se isolou numa ilha (Crab Key) rodeado apenas pelos capangas de que necessita para levar por diante um demoníaco plano motivado pela vingança contra um mundo que o atraiçoou. Bond, que foi enviado às Caraíbas pelo seu carismático chefe M para resolver um caso que se pensava quase burocrático, aos poucos percebe que está em jogo algo mais do que uma série de coincidências.
Quase sem darmos por isso, o ritmo do romance vai crescendo de intensidade e assim, num abrir e fechar de olhos, estamos numa praia com Bond e o seu parceiro, prestes a enfrentar o Dr. No. E, claro, com a inevitável Bond Girl, a ingénua Honey Rider, imortalizada no cinema por Ursula Andress. E o que se pode pedir mais a um livro, que não seja que nos envolva sem darmos por isso?

Sinopse: «Após o desaparecimento de um agente dos Serviços Secretos Britânicos e da sua secretária na base de Kingston, M acredita que este pode ser um caso fácil para 007, ainda em recuperação do encontro quase fatal com um agente russo. Só que James Bond e Honey Rider, a sua bela e vulnerável amiga, após terem sido capturados ao invadirem a isolada ilha caribenha de Crab Key, encontram-se em poder do Dr. No, um sinistro eremita com pinças mecânicas no lugar de mãos, absolutamente fascinado pela dor. Decidido a proteger dos Serviços Secretos Britânicos as suas operações clandestinas, o Dr. No tem agora a oportunidade de se livrar de um inimigo e de aprofundar as suas diabólicas pesquisas. Bond e Rider acabam por ter de lutar pela vida num mortífero jogo da autoria do Dr. No…»

Autor: Ian Fleming
Título original: Dr. No
Editora: Contraponto
Tradução: Luís Santos
Ano de Edição: 2010
Páginas: 194