Category Archives: Opinião sobre livros

«O Cavalo Amarelo» – Agatha Christie

Já aqui o referi. Nunca fui grande fã de Agatha Christie. Não tem que ver com a escrita (é agradável e fluida como eu gosto, com muitos diálogos) nem sequer com os enredos, que me parecem, do que conheço, bem montados e estruturados, mas antes com os ambientes. Os chás, o papel de parede, as casinhas com jardins, as rendinhas impedem-me de me afeiçoar a livros que até gostaria de ler – na dúvida, quando quero algo do género, opto por Georges Simenon.
Assim, quando por razões profissionais fui levado a ler O Cavalo Amarelo (Edições ASA) não parti com grande entusiasmo para a leitura (em termos de lazer, porque o profissionalismo é sempre idêntico, seja qual for a obra). Pois bem, estava errado e desta vez a história agradou-me, e agarrou-me, talvez por não contar com a presença dos habituais Poirot e Miss Marple.
O Cavalo Amarelo é o nome de uma estalagem onde, alegadamente, se pratica magia negra. O protagonista, Mark Easterbrook, chega até lá após se interessar pelo caso de um padre idoso que surge assassinado e que horas antes tinha ouvido um segredo de uma mulher moribunda. Uma série de mortes misteriosas desperta então a atenção de Mark, que arrisca infiltrar-se num mundo conspirativo, com venenos e muitas associações a magia negra, algo em que ele próprio não acredita. Mas os factos que vai encontrando pela frente deixam-no confuso, chegando a questionar as suas próprias crenças.
Agatha Christie criou um rol de personagens pitorescas que dão muita cor e vida a este policial onde, como mandam as regras, nada é o que parece nem ninguém é quem parece.
Doseando bem as informações que tem para revelar, quase sempre libertadas através dos diálogos das suas personagens, vai enredando os leitores na sua trama, cativando-os com uma história credível, apesar das infiltrações no mundo da magia negra.
Os irredutíveis da dama do crime por certo vão gostar – é esse, afinal, o papel dos irredutíveis –, mas os outros, como eu, que não são desta onda, têm aqui uma boa oportunidade para colmatar uma eventual falha na lista dos grandes nomes da literatura já lidos.

Autora: Agatha Christie
Título original: The Pale Horse
Editora: Edições ASA
Tradução:
John Almeida
Ano de Edição: 2012
Páginas: 260
Sinopse:
«Quando um padre idoso é assassinado, o homicida revista o corpo da vítima tão furiosamente que rasga o forro da batina. O que procurava o assassino? E o que teria, horas antes, uma mulher moribunda confessado ao padre? Mark Easterbrook e a sua aliada Ginger Corrigan estão determinados a solucionar estes mistérios. Mas respostas parecem estar na posse de três mulheres que são afamadas praticantes de magia negra…»

«Equador» – Miguel Sousa Tavares

Demorei uns tempos (uns anos) a chegar ao Equador, um tempo que, agora, me parece demasiado longo, mas se calhar a viagem até este tremendo romance de Miguel Sousa Tavares foi encetada na altura ideal.
Muito badalado desde há anos, este romance tornou-se demasiado exposto, uma daquelas coisas de que tanto se fala que até acaba por perder o interesse, para não dizer «enjoar». Estava, portanto, a precisar de um período de descanso antes de lhe pegar e, a pretexto da nova e bela edição da Oficina do Livro, finalmente tive a oportunidade (e a vontade) de o fazer.
Revelou-se uma leitura compulsiva, motivada não só por estar bem escrito mas por se tratar de uma bela história e de uma aventura bem documentada onde todas as páginas, palavras e letras são úteis, justificando-se assim a dimensão, em termos de páginas, da obra.
Equador tem tudo: aventura, cenários exóticos, emoção, denúncia, contextualização histórica, tudo assente, e movido, inevitavelmente numa complexa história de amor.
Com a acção a decorrer no início do século XX – trata-se de um clássico romance histórico – tem por protagonista Luís Bernardo, um homem com preocupações sociais que defende uma nova política colonial e que é incumbido pelo rei D. Carlos de se mudar para São Tomé e Príncipe (como governador-geral) para averiguar das condições de trabalho dos negros nas plantações de cacau, de modo a assegurar-se de que não havia escravatura. A preocupação da realeza tinha mais que ver com a pretensão de agradar aos ingleses, que ameaçavam com um boicote comercial, do que efectivamente com as condições de trabalho desumanas. Em tempos de transição como aquele, a noção de escravatura era algo vaga e Luís Bernardo encontra dificuldades para levar o seu trabalho avante, dada a reticência dos poderosos produtores de São Tomé e Príncipe. Tudo se complica quando se começa a desenvolver a tal complexa história de amor que envolve, além de Luís, o casal Ann e David, sendo este último precisamente o cônsul inglês encarregue de verificar se efectivamente a escravatura era uma coisa do passado.
A história e os ambientes são narrados com muita cor e vida e o enquadramento histórico escapa ao cinzentismo por vezes presente neste tipo de romance, provando que é possível descrever uma época de outra forma, que não seja tipo manual ou livro de história. A mistura entre a descrição dos ambientes, a vida quotidiana em São Tome, as amizades, os amores, as tensões e a política resulta numa história sabiamente equilibrada e bem construída que se lê como se assistindo a uma grande produção cinematográfica – isto é um elogio, caso tenham dúvidas.
Em suma, um grande romance, a ler.

«Ninguém Quis Saber» – Mari Jungstedt

Ninguém Quis Saber, da sueca Mari Jungstedt, é um excelente policial para ler nas férias, pois apesar de ter uma história bem montada e repleta de surpresas não é uma daquelas obras excessivamente complexas que exigem uma atenção redobrada e uma leitura em ambiente «controlado».
Um assassínio e um desaparecimento de duas pessoas que aparentemente nada teriam que as ligassem atormentam a pacata ilha de Gotland. Ainda para mais, sendo eles em parte auto-excluídos, os vínculos que mantêm com a sociedade são tão débeis que se torna difícil perceber onde se poderiam cruzar. A vítima mortal é o fotógrafo Henry Dahlström, que aparece morto depois de ter ganho uma fortuna nas corridas de cavalos. Dahlström é um alcoólico, que depois de ter sido um prometedor fotógrafo, passou a viver de biscates, essencialmente para alimentar o seu vício. Não é por isso de estranhar que o círculo de «amigos» seja no seu todo constituído por potenciais suspeitos, pois todos eles vivem num mundo de vícios e decadência.
Mais tarde desaparece Fanny, uma adolescente inevitavelmente complicada devido a viver com uma mãe completamente «destrambelhada» que a obriga a ser prematuramente adulta e madura. E isso tem o seu preço e deixa-a exposta aos «males» da sociedade.
Como em qualquer bom policial sueco, as chagas desta «perfeita» sociedade nórdica são implacavelmente expostas e denunciadas, pois além do alcoolismo, há a acrescentar os dramas familiares, as famílias disfuncionais, as vidas de fachada, a pedofilia, etc., seja em passagens directamente ligadas aos crimes, ou apenas ilustrativas do quadro geral.
Mari Jungstedt é mais poupada em palavras do que dita a tendência actual, o que é algo que até se saúda tendo em conta a proliferação de obras que se perdem na própria teia que tecem e acabam por dar mais importância aos floreados do que ao cerne da questão. Aqui não há gorduras a aparar, tudo é útil e essencial, mas não se pense por isso que é um thriller seco de carnes, está lá tudo o que é preciso. E o que é que é preciso? Um bom enredo, retorcido e surpreendente mas lógico, personagens bem construídas e humanamente viáveis, e uma boa contextualização social. Não traz nada de inovador ao género, mas também não estamos sempre à espera de novidades, certo? Sabe bem ler algo que siga (bem) as regras e não se perca em artificialidades e trivialidades. O que aqui se lê nestas 240 páginas é necessário e útil.
Por isso, aconselho a que sigam atentamente a investigação de Anders Knutas que será, ele próprio, surpreendido com o desenrolar dos acontecimentos. Tal como os leitores.

Autor: Mari Jungstedt
Título original: Ho I denna stilla natt
Editora: Contraponto
Tradutora (do inglês): Irene Guimarães
Ano de Edição: 2012
Páginas: 240
Sinopse: «O fotógrafo Henry Dahlström aparece assassinado na até então adormecida e invernal ilha de Gotland, após ter recebido uma avultada soma das apostas nas corridas de cavalos. A resolução do caso parece ser fácil, pois tudo indica que o crime foi cometido por alguém do círculo social de Dahlström, com o intuito de ficar com o seu dinheiro.
Enquanto isto, uma jovem de catorze anos, Fanny, desaparece e a polícia começa a investigar um suposto sequestro.
O rumo das investigações dá, porém, uma reviravolta quando o porteiro do edifício onde morava Dahlström descobre uma caixa com fotografias pedófilas, nas quais aparece a jovem Fanny.
Anders Knutas vai precisar de todo o seu talento e da ajuda do seu amigo, o jornalista Johan Berg, para descobrir o que se esconde por detrás deste terrível caso.»

«Caçadores de Cabeças» – Jo Nesbø

Ao começar a ler Caçadores de Cabeças, do norueguês Jo Nesbø, fiquei algo desiludido. Parecia-me então, de entrada, uma história algo «fútil», muito alta sociedade, com alguns pormenores interessantes mas sem me convencer, pois achei que não me iria levar a lado nenhum de especial. Era tudo muito linear e limpo.
Não seria motivo para largar o livro, mas confesso que estava à espera de algo mais forte, mais pesado, mais denso. Mas eis que de repente… dá-se uma grande reviravolta, não propriamente no enredo do livro, mas no ritmo vertiginoso, às vezes até alucinado, do romance, aí sim já um genuíno thriller.
Jo Nesbø quiçá quis «brincar» com os leitores e depois de uma entrada light não dá mais sossego a quem se dedicou à leitura de Caçadores de Cabeças.
A história gira em torno da alta finança e do mundo das artes, tendo como ponto central Roger Brown, um reputado caçador de cabeças (não, não se trata de nada criminoso, a função dele é encontrar os executivos ideais para cargos de chefia das grandes empresas). Mas Roger Brown, para apaparicar a mulher Diana (que considera boa de mais para si), vive bem acima das suas possibilidades e, aproveitando-se dos conhecimentos dela, urde um golpe ambicioso para roubar uma valiosa obra de arte. A vítima é um holandês, Clas Greve, que não só é a pessoa ideal para um cargo que Roger está incumbido de preencher, como é proprietário de um quadro de Rubens que desperta a cobiça do caçador de cabeças.
Só que em jogo está bem mais do que um «simples» quadro, e Brown depara-se com um adversário de respeito, de uma inteligência e astúcia tais que lhe estraga por completo os planos e lhe exige uma (contra)-resposta à altura, para tentar safar-se então da enorme alhada em que se vê envolvido.
Jo Nesbø, com uma série de artimanhas, controla e domina por completo o leitor, que se vê enredado de tal forma na história que sente dificuldade em pousar o livro. Imaginativo sem se tornar absurdo, e com uma ironia refinada e muito, muito negra, depois do tal arranque pausado entra numa espiral de «loucura» que, por muito que às vezes nos pareça surreal, acaba por fazer sentido, pois tudo encaixa na perfeição, o que revela a imaginação fértil, ordenada e controlada do escritor.
Só para que se entenda o que está em jogo quando se lê um livro de Nesbø, convém referir que o autor norueguês já foi comparado a Stieg Larsson, Henning Mankell ou, por exemplo, a uma mistura de Tarantino com irmãos Coen. É ou não uma mistura explosiva e prometedora?

Autor: Jo Nesbø
Título original: Hodejegerne
Editora: Dom Quixote
Tradutora (do inglês): Maria Georgina Segurado
Ano de Edição: 2012
Páginas: 280
Sinopse: «Roger Brown é um vilão sedutor, um homem que parece ter tudo: é o caçador de cabeças mais bem-sucedido da Noruega – procura e seleciona altos quadros para as maiores empresas –, casado com uma elegante galerista e proprietário de uma casa luxuosa. Mas, por detrás desta fachada de sucesso, Roger Brown gasta mais do que pode e dedica-se ao perigoso jogo do roubo de obras de arte.
Em Caçadores de Cabeças, Jo Nesbø envolve-nos numa conspiração explosiva nos meandros da elite industrial e financeira, que culmina no submundo de assassinos contratados e vigaristas.»

«Bar Flaubert» – Alexis Stamatis

De literatura grega pouco conheço, nem clássicos nem contemporâneos (aqui só um pouco de Panos Karnezis), mas recentemente tive uma bela surpresa ao ler Bar Flaubert, um belo e viciador romance de Alexis Stamatis editado agora pela Porto Editora, embora seja um original já de 2000.
Sim, demorou uns anos a cá chegar, mas agora que podemos frequentar o Bar Flaubert não há que hesitar, é um «lugar» de visita obrigatória. Mas isso nem é preciso recomendar, pois assim que se põe ou pé (ou, melhor, a vista) neste romance de lá já não se quer sair. Logo a abrir, o que me ocorre dizer é que Bar Flaubert me faz lembrar A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, o que é um tremendo de um elogio, pois trata-se de um dos meus livros preferidos.
Há um manuscrito misterioso, um autor ainda mais misterioso e um jornalista curioso que por acaso encontra em casa do seu pai esse romance, chamado precisamente Bar Flaubert, que o deixa enfeitiçado. Enfeitiçado a ponto de largar tudo para encontrar o seu autor, um tal Loukas Matthaiou misteriosamente desaparecido na década de 70 e sobre quem o pai mostrara grande repulsa em falar. Isso só espicaça ainda mais a vontade do jornalista (já agora, chama-se Yannis Loukas), que, prestes a entrar nos 40 anos e numa fase indefinida da sua vida, se agarra a «isto» para lhe dar algum sentido. Assim, a procura pelo autor de Bar Flaubert é, também, uma busca por si próprio, uma demanda que o leva a Barcelona, Florença e Berlim, antes do regresso à Grécia – Stamatis praticamente «criou» um livro de viagens dentro do romance, quase sem que o leitor dê por isso, pois as cidades visitadas são, na sua essência, elas próprias personagens/protagonistas deste envolvente romance e sem elas nada faria sentido.
Pista a pista, Stamatis seduz-nos, não nos deixa pousar o livro, pois doseia com grande inteligência e precisão os dados que nos quer apresentar, através de uma história que mistura emoção (há tiros, roubos de arte, mortes, perseguições de carros) com erudição (deambulações cativantes sobre pintura, literatura) sem desníveis de estilo ou quebras de ritmo. Além disso, o romance apresenta um leque de personagens ricas e diversificadas, que vão crescendo com o desenrolar do enredo, e é com gosto acrescido que se assiste ao desenvolvimento das suas personalidades face aos acontecimentos surpreendentes que se vão sucedendo.
As obrigatórias revelações surpreendentes que um romance deste género teria de incluir são, também, perfeitamente plausíveis e credíveis, elementos fundamentais para fazer de Bar Flaubert um romance maduro que, ao mesmo tempo, se lê como um thriller, deixando-nos incertos entre saborear cada página ou passar rapidamente à seguinte (quiçá atropelando umas frases e/ou palavras) para se conhecer os desenvolvimentos da narrativa – na dúvida, o melhor é mesmo saborear, até porque, chegados ao fim, fica aquela inevitável sensação de vazio que surge sempre que se acaba de ler um bom livro e do qual se sente imediatamente saudades.
Bar Flaubert tem uma alma que esperaria encontrar, por exemplo, num romance espanhol, mas isso será fruto do meu desconhecimento face à literatura grega, pois se calhar essa «tal» alma será, isso sim, mediterrânica.
Esqueça a Grécia «falida», esqueça a Grécia do futebol e conheça uma outra Grécia, aquela que nos chega por via da literatura e que para já nos traz o Bar Flaubert de Alexis Stamatis – esperemos que se sigam mais bons exemplos.

Autor: Alexis Stamatis
Título original: Bar Flaubert
Editora: Porto Editora
Tradutor: Mário Dias Correia
Ano de Edição: 2012
Páginas: 280
Sinopse: «Yannis Loukas é um jornalista freelancer, filho de um prestigiado escritor, que aceita ajudar o pai a compilar uma autobiografia. Esquadrinhando o arquivo pessoal da família, Yannis descobre um misterioso manuscrito intitulado Bar Flaubert, cuja publicação o pai tinha recusado alguns anos antes. Ao lê-lo, a sensação de que alguém transpôs para o papel os seus sentimentos mais íntimos e secretos leva Yannis a querer encontrar o autor, um homem chamado Loukas Matthaiou. Mas quem é de facto esse homem e por que razão todos os que com ele se cruzaram parecem de alguma forma ter sido marcados pela sua personalidade carismática? Seguindo as pistas que Matthaiou foi deixando ao longo do seu livro, a vida de Yannis irá sofrer uma reviravolta imprevisível, numa demanda que cruza as fronteiras da ficção com a realidade.»

«Eu Sou Deus» – Giorgio Faletti

Giorgio Faletti já me havia deixado bem impressionado com o seu romance de estreia Eu Mato, mas agora ainda subiu mais na minha consideração com o recentemente editado Eu Sou Deus, também trazido até nós pela Contraponto.
O escritor (e muito mais) italiano escreveu um romance policial «americano», mas não só por este ter por cenário os Estados Unidos, antes porque a sua «alma» é tipicamente americana. O essencial da acção decorre na Nova Iorque da actualidade, onde um serial killer pouco típico põe em marcha um ambicioso projecto de matança (e vingança) que deixa desnorteadas as autoridades. É um plano que tem a sua génese em algo terrível ocorrido muitos anos antes durante a Guerra do Vietname.
Uma jovem detective, Vivien Light, é a que mais se envolve na caçada ao criminoso, mas por portas travessas é também envolvida, sem o saber e através de familiares, no plano de acção do assassino. O seu parceiro improvável (bem ao estilo das séries televisivas há uma dupla com pouco em comum entre si) é um repórter fotográfico caído em desgraça que tenta recuperar o prestígio profissional e a auto-estima e que graças às suas ligações perigosas deita inadvertidamente a mão a informações cruciais sobre o serial killer.
Há diversos temas bem trabalhados, como os traumas de guerra, as relações pessoais (muitos dramas pessoais e familiares), a ganância desmedida, que no seu conjunto trabalham para elaborar um enredo bem conseguido e que logram prender o leitor.
Os pormenores são revelados pouco a pouco, espicaçando a curiosidade e envolvendo cada vez mais o leitor, atraído não só pelo engodo dos crimes como também pelas histórias paralelas independentes (ou não?) das acções do serial killer. Isso é conseguido através de uma série de personagens interessantes, embora por vezes algo clichés, capaz de agradar a quem gosta de bons thrillers negros e clássicos.
Num ou noutro pormenor, Eu Sou Deus teria ganho com uma melhor edição de base, pois há trechos de texto desnecessários que, se eliminados, dariam ainda mais ritmo a um já de si animado thriller. Por exemplo, há uma personagem completamente secundária, com uma passagem praticamente inócua pelo enredo, que merece uma introdução detalhada à sua vida. Isso na altura leva-nos a pensar que teria alguma utilidade mais para a frente, só que isso nunca chega acontecer… Talvez o autor tivesse chegado a pensar dar-lhe mais destaque e depois tenha mudado de ideias.
De qualquer forma, não é isso que estraga uma boa proposta de leitura para os amantes do género, que por certo serão cativados pelas motivações deste que se pretende Deus.

Autor: Giorgio Faletti
Título original: Io Sono Dio
Editora: Contraponto
Tradutora: Sara Ludovico
Ano de Edição: 2012
Páginas: 375
Sinopse: «Encontro um botão e pressiono-o com delicadeza. E outro. E mais outro.
Um instante ou mil anos depois, a explosão é um trovão sem tempestade, a terra que acolhe o céu, um momento de libertação.
Depois os gritos e a poeira e o barulho dos carros que chocam uns contra os outros e as sirenes que me avisam que, para muitas das pessoas que estão atrás de mim, chegaram ao fim os oito minutos.
Este é o meu poder.
Este é o meu dever.
Este é o meu querer.
Eu sou Deus.”
Um serial killer aterroriza Nova Iorque. As suas ações não seguem os padrões conhecidos pelos criminalistas, escolhendo as vítimas totalmente aleatoriamente. Não lhes olha nos olhos enquanto morrem, mas também não o poderia fazer, pois ataca massivamente. As autoridades procuram desesperadamente um rosto, mas o assassino não tem rosto, nome, nem passado, nem futuro. Vivien Light, uma jovem detetive que esconde os dramas pessoais sob uma sólida imagem profissional, e Russel Wade, um repórter fotográfico com um passado que deseja esquecer, são a única esperança para deter este homicida – um homem que não pode ser responsabilizado pelos seus atos, um homem que acredita ser Deus.»

«Os Filhos de Krondor – O Príncipe Herdeiro» – Raymond E. Feist

A Saída de Emergência lançou no início de Junho O Príncipe Herdeiro, primeiro dos dois livros que compõem Os Filhos de Krondor, do norte-americano Raymond E. Feist, e que se seguem, cronologicamente, aos eventos da saga O Mago. Contudo, apesar de haver personagens comuns, são obras que podem ser lidas em separado.
Este foi o segundo livro que traduzi de Feist, com José Remelhe, e depois de ter ficado positivamente surpreendido com o primeiro (As Trevas de Sethanon), o presente serviu para cimentar o meu gosto por um género que não estava, como já confessei, entre os meus de eleição.
Assim, vinte anos após a Guerra da Brecha dirigi-me ao Império do Grande Kesh, onde me cruzei de novo com Arutha, Pug e Jimmy, embora desta vez o protagonismo seja dado aos gémeos Borric e Erland, que se preparam para suceder ao Príncipe Arutha no Reino das Ilhas.
Ambos levam uma vida despreocupada e até irresponsável, mas o pai pretende que cresçam e se tornem mais responsáveis, pelo que os incumbe de uma missão. Assim, são enviados como embaixadores ao reino de Kesh, para participarem como seus representantes nas cerimónias do jubileu da Imperatriz. Começa assim uma tremenda aventura que, a dada altura, leva a que os irmãos se separem e sigam caminhos independentes. Borric é alvo de uma tentativa de assassínio e Erland não sabe que o irmão sobrevive. Erland, agora o futuro rei, tem de cumprir a sua missão e segue para Kesh, enquanto Borric avança às escondidas, pois não sabe quem o tentou matar. Pelo caminho, ansiando pelo reencontro, ambos se envolvem em grandes e emocionantes eventos, com Feist a dosear na perfeição os ingredientes que fazem deste um grande livro de aventuras onde o elemento fantástico tem menos preponderância do que na saga O Mago. Há também magia, mas em doses mais reduzidas, e nada de dragões e afins. Para contrabalançar, há viagens e perseguições marítimas, muitas lutas de espadas, uma grande conspiração palaciana (bem urdida pelo autor, pois, apesar de complexa, não é incompreensível – é só preciso estar atento aos nomes, pois há imensas personagens.)
As personagens são outro dos pontos fortes desta obra, dado que, além das já citadas, há uma série de outras, nomeadamente no Reino de Kesh, que evoluem de forma curiosa e acompanhando bem o desenrolar do enredo.
Raymond E. Feist é um adepto do pormenor e um mestre na criação de «cenários». O faustoso Reino de Kesh é, convém dizer, uma criação notável, mais parecendo a descrição de um mundo já existente e estudado e não fruto da imaginação de uma mente. E refiro-me tanto às descrições paisagísticas como aos seus habitantes, nomeadamente os seus governantes e os detentores de altos cargos, aqueles com quem lidamos. Kesh surge muito bem estruturado neste livro, tanto a nível físico/geográfico como a nível político e é, como vão perceber (e por vários motivos), uma terra fascinante e extremamente sedutora.
Duelos, intrigas, reinos fascinantes, mortes (algumas surpreendentes), personagens fortes, perseguições (a cavalo, a pé, de barco), reviravoltas, etc, etc. Excelentes ingredientes de um grande livro de aventuras, que pode ser lido independentemente de todos os outros, anteriores e posteriores, de Raymond E. Feist.

Autor: Raymond E. Feist
Título original: Prince of the Blood
Editora: Saída de Emergência
Tradutor: José Remelhe e Rui Azeredo
Ano de Edição: 2012
Páginas: 365
Sinopse: «Os gémeos Borric e Erland são os homens mais despreocupados do Reino das Ilhas. Mas a bem-aventurada juventude deles termina quando se preparam para suceder ao trono do seu pai, o Príncipe Arutha. Como primeira tarefa, o Príncipe envia-os no papel de embaixadores ao reino de Kesh, a mais poderosa das nações. Mas, mesmo antes de partirem, uma tentativa de assassínio a Borric é, o mais velho dos irmãos, é evitada no último momento. Trata-se somente do início de uma jornada traiçoeira que levará os irmãos por caminhos separados e mortíferos – um, enquanto fugitivo, o outro, enquanto futuro rei. Agora, cada um deles deve traçar o seu próprio caminho rumo à maturidade, honra e paz, enquanto os que anseiam pela guerra se tornam cada vez mais audaciosos.»

«007 – Carta Branca» – Jeffery Deaver

Jeffery Deaver, escritor norte-americano conhecido pelos seus thrillers, nomeadamente O Coleccionador de Ossos, é o novo «criador» de James Bond, pois a Ian Fleming Publications deu-lhe «carta branca» para escrever a nova aventura do mais famoso agente secreto do mundo. E tratou-se, pude comprová-lo, de uma boa escolha, pois o autor criou uma verdadeira historia à 007, onde conjuga bem os traços tradicionais do herói com algumas inovações bem inseridas que não o desviam dos seus «habituais padrões de qualidade».
Uma particularidade curiosa deste thriller é que, apesar de ser um verdadeiro 007, poderia ser também «apenas» um bom e trepidante romance de espionagem, com um protagonista «qualquer». Ou seja, trata-se de uma boa história que não necessitaria da «muleta» James Bond para resultar. E, mais ainda, é uma história «terra a terra». Ou seja, desta vez (e ainda bem, porque às vezes o contrário já cansa um pouco) não é o destino da Terra que está em causa nem se perspectiva um conflito à escala mundial. O enredo consegue ser complexo (e não confuso) e bem estruturado, mas assente num grupo de vilões que, com as suas peculiaridades, têm objectivos bem mundanos e muito pessoais que não passam pelo domínio do planeta.
O enredo de Carta Branca, sendo um bom thriller, tem uma boa dose de reviravoltas, das inteligentes, não das disparatadas, que tiram credibilidade à trama. E tudo decorre, como seria expectável, e exigível, a um ritmo trepidante, capaz de prender o leitor.
A acção decorre na actualidade, mas note-se que este James Bond é bastante jovem. É um cavalheiro que sabe estar, como teria de ser qualquer Bond, mas mais novo do que aquele(s) que estamos habituados a «ver/ler». Ou seja, mantém os traços característicos de James Bond de Fleming, mas adaptou-se à actualidade. Daí termos por protagonista um trintão veterano da Guerra do Afeganistão. Mas, não se preocupem os indefectíveis de Bond, continua a haver gadgets, como o inovador e iQphone, Bond girls e paragens exóticas, como o Dubai e a África do Sul, ou até a Sérvia. Ou seja, inova, renova-se, mas sem perder a alma. Portanto, os serviços secretos detectam uma ameaça, há divergências dentro da própria estrutura sobre a melhor forma de actuar, James Bond segue as suas firmas convicções e dá a volta ao «sistema» para levar a sua avante.
O essencial de 007 continua lá, e isso é fundamental. Carta Branca tem tudo para agradar a fãs do agente secreto e também a fãs, somente, deste género literário, sem concessões que o façam perder a face. Muito pelo contrário.

Autor: Jeffery Deaver
Título original: Carte Blanche
Editora: Porto Editora
Tradutor: Mário Dias Correia
Ano de Edição: 2012
Sinopse: «Com pouco mais de trinta anos, James Bond está agora ao serviço de uma nova organização – criada após os trágicos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 – que opera à margem do MI5, do MI6 e até do Ministério da Defesa, que aliás alega desconhecer a sua existência. O seu objetivo: proteger o Reino de Sua Majestade sem olhar a meios.
Quando está a jantar com uma belíssima mulher, James Bond é surpreendido com uma mensagem do quartel-general, que foi alertado para um terrível ataque a ter lugar dentro de dias no Afeganistão: Previsão de milhares de baixas, interesses britânicos seriamente comprometidos.
Bond recebe carta branca para fazer tudo o que for necessário para executar com  sucesso a sua nova missão.»

«Não Sou Um Serial Killer» – Dan Wells

A Contraponto editou recentemente o interessante romance de estreia do norte-americano Dan Wells, Não Sou Um Serial Killer, que na primeira pessoa e com muito humor negro nos conta a história de um rapaz perturbado que tem a particularidade de partilhar o nome com um conhecido assassino em série. Será só isso que partilha?
Este livro tem a particularidade de abordar com um humor (obviamente negro) um tema pesado, e de proporcionar por isso (dentro dos limites possíveis) um leitura leve e descontraída.
John Wayne Cleaver teme que o seu destino esteja traçado: ser um serial killer. E é isso que tenta evitar a todo o custo, embora tal não seja fácil, pois é um rapaz (de quinze anos) pouco sociável, que além disso ajuda no negócio de família… uma casa mortuária. Esse contacto com os mortos agrada-lhe, e preocupa-o, e para evitar o que acha ser inevitável cria uma série de regras que tem de seguir estritamente. Mas tal tarefa complica-se quando uma vaga de assassínios assola a sua típica vila americana, levando-o a ter de lidar de perto com o fascínio que sente pelos assassinos em série. Achando-se dotado de uma mente especial com propensão para a «coisa» entende ser o único capaz de decifrar a linha de pensamento do assassino e assim acabar com os crimes. E dessa forma envolve-se onde não devia.
Dan Wells leva-nos através da mente de John a navegar por este mundo macabro, o que, sendo feito numa perspectiva de um rapaz de quinze anos, só pode levar a situações por vezes caricatas e bem-humoradas. É esse contraste entre o sangue e o riso a mais-valia deste livro, que numa escrita simples e fluída nos apresenta uma alternativa saudável e descontraída dentro do romance negro.
Fica a questão, que não vou desvendar: até ponto a série de crimes vai despertar o «monstro» que habita em John Wayne Cleaver, o nosso protagonista sociopata? Não vou desvendar, mas o caminho a percorrer até lá se chegar é bem sinuoso e cheio de curvas e contra-curvas. Deixe-se guiar por ele, é uma personagem bem construída e complexa que Dan Wells soube montar com uma boa dose de credibilidade e coerência.

Autor: Dan Wells
Título original: I Am Not a Serial Killer
Editora: Contraponto
Tradutora: Raquel Dutra Lopes
Ano de Edição: 2012
Sinopse: « John Wayne Cleaver é um rapaz perigoso – muito perigoso. E passou a vida a tentar não cumprir o seu potencial.
É bem-comportado, calado, tímido e reservado, mas incapaz de sentir empatia e de compreender as pessoas que o rodeiam. Prefere conviver com os mortos; o seu trabalho (e passatempo favorito) é embalsamar cadáveres na casa mortuária que pertence à família. Além disso, partilha o nome com um famoso serial killer e tem uma obsessão quase incontrolável por psicopatas e assassinos em série. Sob estas circunstâncias, parece que o seu destino está traçado.
Contudo, Cleaver tem consciência das suas invulgares características, e quer a todo o custo impedir-se a si mesmo de matar. Para tal, criou um conjunto de regras muito precisas: tenta cultivar apenas pensamentos positivos pelas pessoas que o rodeiam (até pelo bully do liceu), evita criar laços ou interessar-se por elas (tem apenas um amigo da sua idade) e, sobretudo, tenta a todo o custo manter-se afastado do fogo (que gosta de atear), dos animais (que gosta de dissecar) e de locais e vítimas de crimes. As suas regras vão ser postas à prova quando é encontrado um corpo terrivelmente mutilado – e depois um segundo, e um terceiro. Será que na sua pacata vila existe uma criatura ainda mais perigosa do que John Wayne Cleaver?»

«A Investigação» – Philippe Claudel

«O Investigador, deixando-se arrastar como uma palha pela forte corrente do rio, abdicou. Renunciou pela primeira vez na sua existência a pensar como indivíduo que possui uma vontade, que domina as suas ações, vivendo num país que garantia a cada cidadão liberdades fundamentais, tão fundamentais que, na maior parte das vezes, todos os cidadãos, incluindo o Investigador, usufruíam delas sem tomar plenamente consciência.(…) Era um pouco como se de algum modo tivesse abandonado uma parte do seu corpo para entrar num outro corpo, vasto e sem limites.»

Philippe Claudel já nos ensinou que é possível escrever bons romances em poucas páginas. É um regra que segue sempre e o quanto isso me agrada. Nunca há ali nada de acessório e superficial, tudo vale a pena, e mais uma vez isso acontece ao longo das 180 páginas de A Investigação, a sua mais recente obra, editada pela Sextante.
É um livro claustrofóbico e labiríntico, quase «kafkiano», sobre o nosso presente, sobre a nossa sociedade, que nos limita e prende, que nos leva a seguir um caminho sem questionar, como um cordeirinho – no próprio livro há uma representação dessa situação das vendas nos olhos, através de uma alegoria da qual consta uma linha pintada no passeio que os transeuntes alienados seguem até embaterem no muro onde conduzia. «…fique sabendo que vi certos indivíduos, perto do muro, que não se atreviam a afastar-se da linha, tentando escalar o muro de cinco metros, sem nenhum apoio e que termina por arame farpado, até esfolarem a pele dos dedos e partir as unhas, e para chegar até onde?»
Como de costume, está tremendamente bem escrito, é imaginativo, moderno e belo, e parte de uma situação real, uma vaga de suicídios na France Telecom, para traçar um retrato impiedoso da nossa sociedade. O Investigador é enviado à Empresa para averiguar o que se passa, mas entra num mundo anónimo e cinzento, sem alma, onde tudo parece funcionar mecanicamente e seguindo regras estritas, e onde cada desvio à norma se torna uma via sem saída. O Investigador afunda-se no anonimato de uma grande Empresa, onde não se sabe quem manda, um pouco como quando telefonamos para uma linha de atendimento e nunca há um responsável à mão. Daí neste romance não haver nomes, as personagens são identificadas pelas suas funções – o Investigador (que chega ao ponto de esquecer o seu próprio nome), o Responsável, o Guarda-Noturno, o Guia, a Psicóloga, os Turistas, os Deslocados, os Arquitetos, e até a Empresa e a Cidade.
O ambiente chuvoso, frio e cinzento ajuda a criar o ambiente deprimente em que mergulhamos acompanhando o Investigador na sua descida aos infernos da burocracia e do anonimato. O que não se compreende não é para interrogar, é para seguir, parece ser o lema daquelas com quem se vai cruzando numa caminho sinuoso que nunca o leva onde pretende e onde uma série de equívocos o desvia do seu rumo, tanto o da sua investigação como o do seu próprio ser. O termo espiral de loucura é aqui perfeitamente adequado em A Investigação.
Claudel traça um retrato sombrio e negro para a humanidade, com todos presos num estado de quase alucinação colectiva, sugados pela Empresa, que roubou a vida e a cor a tudo o que a rodeava. O «eu», a singularidade, desaparecem, dão espaço ao conjunto, ao global, onde todos são iguais, e onde a vida e a alma se extinguem penosamente. Não se chamasse A Investigação e este romance bem poderia repetir o título de um outro livro brilhante de Claudel: Almas Cinzentas.
Excelente!

Autor: Philippe Claudel
Título original: L’Enquête
Editora: Sextante
Tradutora: Isabel St. Aubyn
Ano de Edição: 2012
Sinopse: «“Não é olhando que descobrirás.” Como pôde o Investigador adivinhar? Como pôde saber que esta investigação de rotina seria a última da sua vida?
Encarregado de descobrir as causas de uma onda de suicídios numa grande empresa, o Investigador sucumbe gradualmente à ansiedade. O hotel onde se instala é abrigo não só de turistas, como de gente deslocada e estranha. Na empresa onde investiga, ninguém o apoia e o clima é hostil. Terá caído numa armadilha, será vítima de um pesadelo demasiado real? Não consegue comer, beber ou dormir, e as suas perguntas só dão origem a mais perguntas. À medida que faz algumas descobertas, interroga-se se não se tornará ele na nova presa a ser esmagada por aquela máquina infernal. E começa a compreender a nossa impotência face a um mundo que nós próprios construímos e que conduz à nossa destruição.»