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Julia Navarro – Entrevista a propósito de “A Irmandade do Santo Sudário”

20/12/2009 · Deixe um Comentário

Julia Navarro, jornalista espanhola, estreou-se aos 50 anos no mundo literário com um romance de aventuras, A Irmandade do Santo Sudário (edição Gótica/Círculo de Leitores), onde o protagonismo é dado ao manto que terá envolvido o corpo de Cristo. Várias personalidades e sociedades secretas lutam entre si, ao longo de 2000 anos, para se apoderarem da preciosa relíquia. Julia Navarro explicou como nasceu e cresceu a obra, cuja acção até passa por Portugal.

Como lhe ocorreu escrever um romance tendo por protagonista o Santo Sudário?
Por acaso! Já escrevi livros sobre política, ensaios, história e nunca pensei em escrever um romance. Surgiu um dia, ao ler uma notícia perdida num jornal – quando estava na praia – sobre um cientista, um microanalista forense, um dos muitos que estudaram o Santo Sudário. Trazia uma pequena biografia do cientista e uma pequena nota sobre o sudário e a controvérsia que há na comunidade científica sobre a sua autenticidade.
Nunca tinha lido nada sobre o tema, nem me interessara até então, mas ao ler sobre esta controvérsia (há quem diga que o sudário é falso e com origem no século XIV e outros que dizem que é autêntico) a minha imaginação despertou. Comecei a “escrever” mentalmente o romance. Uns dias mais tarde, estava no Sul de Espanha, junto a Portugal, e levei o meu filho ao castelo de Castro Marim (uma fortaleza templária) e aí acabei de “escrever”mentalmente o meu romance. Aí decidi que os templários tinham de ter um papel importante no enredo.

É tudo ficção?
É um romance de ficção. Está escrito no presente e no passado e há dados sobre o que se diz na lenda do Santo Sudário, como o facto de ele ter aparecido no século IV na cidade de Edessa. Fica aí até ser levado pelos cruzados para Constantinopla. Com todos esses acontecimentos históricos o que faço é montar um romance.

Não temeu ter reacções negativas por parte da Igreja por usar um símbolo como este?
Não, porque este não é um romance contra nada nem ninguém. Não é um romance religioso, mas sim de aventuras. A parte religiosa, trato-a com respeito porque há milhões de pessoas no mundo que acreditam que o Santo Sudário é o manto que envolveu o corpo de Jesus. Há que ter respeito pelas crenças. Nunca seria capaz de usar um elemento religioso para fazer uma burla, uma crítica.

Após ter escrito o romance o Santo Sudário passou a ter algo de poderoso para si?
O Santo Sudário tem algo de especial, transcende algo dele. Talvez seja a fé de milhões de pessoas. Se perguntar se acredito que é na realidade o Santo Sudário respondo: “Não sei”. Mas também a Igreja não o assegura e permite que seja estudado por cientistas. O Papa, há uns anos, visitou a Catedral de Turim e disse que o Santo Sudário era um enorme desafio para a Igreja. Há algo de especial, mas pode ser que seja a fé nele depositada.

A teoria aplicada no romance – a existência de dois sudários – tem algum fundamento?
É mentira, claro. Um padre meu amigo disse-me: “Pena que o tenhas inventado, haveria de ser a verdade”.

É inevitável estabelecer um paralelo com O Código Da Vinci.
Não tem nada a ver, mas não me chateia a comparação. Há muitas diferenças, porque não questiono fundamentos da fé e das crenças dos cristãos, nem entro em discussões sobre a autenticidade do Santo Sudário. O Código da Vinci” pode ter-me beneficiado, mas quando escrevi o romance ainda não tinha sido publicado.

Porque há agora tanto interesse em romances com fundo religioso?
Vivemos numa sociedade com uma enorme crise de valores, e o Homem está a deixar de lado as crenças tradicionais. O Homem desde sempre perguntou de onde vimos, qual o sentido da vida? Essa busca é feita de forma distinta. Às vezes em páginas de livros.

É uma mistura de romance policial com a vertente religiosa. Porquê?
Não é um romance religioso, apenas há uma relíquia que está no meio de uma aventura e de uma investigação policial.

E a Julia Navaro é religiosa?
Sou filha da minha geração, ou seja tive uma educação religiosa e tenho um sentido transcendental da vida: Isso significa que sou religiosa? Não sei, não sei. Acredito em Deus.

Não lhe provocou problemas interiores fazer um romance com um símbolo religioso?
Não, não. A vida tem de ter um sentido para além de estarmos aqui, mas continuamos à procura dessa resposta desde que somos Humanidade. Há pessoas que encontram essas respostas na religião, outras não, como é o meu caso. O Ocidente tem 2000 anos de cultura cristã e independentemente de ser católica praticante ou não estamos impregnados dessa cultura.

Acredita na existência de sociedades secretas como as que há no seu livro?
Acho que sim, no mundo há seitas, pessoas que agem na sombra. Também acho que na sociedade da globalização há pessoas que tomam decisões sobre os nossos países. Apesar de ser chamada de sociedade da informação, está muito mal informada. Aparentemente toda a informação está aí, mas cada vez sabemos menos. Sociedades económicas, multinacionais, tomam decisões sobre o futuro dos nossos países, sem nos apercebermos. Acreditamos que as nossas democracias formais são as que funcionam, mas nesta época há um poder globalizador. Também acredito que há seitas religiosas, formadas por gente fanática, o que me assusta porque no fanatismo há gente que acredita em nome das suas crenças religiosas tudo lhes é permitido. A mim tudo o que seja uma seita, que seja secreto, provoca-me repulsa. Na democracia não há lugar para sombras, nem organizações secretas.

O livro
A Irmandade do Santo Sudário, editada pela Gótica na colecção Cavalo de Tróia e pelo Círculo de Leitores, é um envolvente livro de aventuras, escrito de uma forma simples que cativa o leitor desde a primeira página.
Tudo começa quando ocorre um incêndio na catedral de Turim, onde está religiosamente guardado o Santo Sudário, manto que terá envolvido o corpo de Cristo. No local aparece o cadáver de um homem sem língua e na prisão já penava outro com as mesmas características, que anos antes tentara roubar o sudário. O Departamento de Arte, dirigido pelo detective Marco Valoni e pela historiadora Sofia Galloni, enceta uma empolgante investigação, mas a autora faz-nos também recuar no tempo, passando pelo Império Bizantino, a França de Filipe, o Belo, Portugal e Espanha, sempre com os Templários bem presentes.
Na actualidade os alvos da investigação são homens de negócios cultos e refinados, figuras da Igreja, com o elemento comum de serem solteiros, ricos e poderosos.

 (Entrevista realizada em 2004)

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Sérgio Luís de Carvalho – Entrevista a propósito de “O Destino do Capitão Blanc”

23/11/2009 · 1 Comentário

Sérgio Luís de Carvalho, autor do recentemente editado romance O Destino do Capitão Blanc (um lançamento da Planeta), deu uma entrevista ao Porta-Livros onde aborda esta sua obra cuja acção decorre na fase final da Primeira Guerra Mundial. O sidonismo é outros dos temas incluídos neste romance que, em simultâneo, traça um retrato de um homem do seu tempo (o Capitão Blanc), dividido entre a guerra que enfrenta e os seus conflitos interiores. Sérgio Luís de Carvalho aborda e explica, nesta entrevista, o conteúdo do seu livro, assim como nos fala, em termos gerais, do que entende por romance histórico.

O Destino do Capitão Blanc pode ser catalogado como um romance histórico, mas na verdade acaba por ser uma obra bastante intimista centrada na vida e nas relações pessoais de um militar português cujas preocupações vão muito para além da guerra e da política? Como optaria por classificar o seu romance?
Sempre parti do princípio que o chamado romance histórico é um género de literatura no fundo igual a qualquer outro género. Trata das mesmas realidades e questões, só que algures noutro tempo. Por isso, salvaguardando os respectivos contextos narrativos e factos históricos, claro, as questões fulcrais e basilares que Blanc enfrenta em pouco divergem das de um soldado medieval ou das de um legionário romano. Independentemente das conjunturas, da visão do mundo, da realidade de época e do quotidiano, as questões pessoais essenciais estão lá: o medo, o amor, a coragem, o poder, a guerra, o desejo de acertar contas, a vontade do regresso a casa, as saudades, a responsabilidade, a culpa… Poderíamos estar a falar de Ulisses, de Ricardo III ou do soldado Ryan, afinal.
Mas sim, classificaria este romance como “histórico” porque cumpre esse requisito básico: o de se passar no passado e ser baseado num contexto e/ou factos históricos.

Ao arrancar para este projecto, pretendia escrever sobre um indivíduo ou sobre um momento histórico? Ou seja, preocupavam-no mais as questões relacionadas com a complexa vida pessoal do Capitão Blanc ou as relacionadas com o relato da guerra e com o Sidonismo?
Na verdade o que me cativou desde logo foram os eventos das derradeiras horas da Primeira Guerra. Trata-se de algumas das mais estranhas e absurdas horas de que há registo. O armistício é assinado no dia 11 de Novembro pelas 6 horas da manhã, e o cessar-fogo é estipulado para as 11 horas: a 11ª hora, do 11º dia do 11º mês de 1918. Mas as ordens dos altos comandos aliados estipularam que os ataques programados até às 11 horas se mantivessem, desde que nenhum tiro fosse disparado depois das 11 horas. Esta decisão incompreensível conduziu à morte de milhares de soldados. O último morreu às 10.59. E note-se que as derradeiras ofensivas foram desencadeadas contra trincheiras alemãs que iriam ser abandonadas nos dias seguintes, como o armistício estipulava.
Este facto, que surge num dos últimos capítulos do romance, foi, afinal, o ponto de partida. Mas claro que eu queria que um militar português estivesse envolvido nos eventos desse dia. Assim nasceu o capitão Blanc, e começou a forjar a sua própria história, a sua memória, os seus sentimentos, angústias, esperanças. E o romance passou, gradualmente, a girar em torno dele e, claro, dos homens do CEP. Ao fim de pouco tempo, não era o Blanc que girava em função desse massacre, mas esse massacre que começou a tomar sentido em função da história do capitão Blanc. 

O que o levou a optar por este período específico da História de Portugal para servir de pano de fundo ao seu romance?
Antes de mais a evidência histórica. Durante os últimos meses da Primeira Guerra, Sidónio Pais era presidente e o sidonismo era uma força importante, se bem que aqui e ali mostrando já sinais de erosão. Esse contexto era incontornável. Mas o Blanc vai, por analepse, recontando-nos a sua história pessoal que se confunde com os derradeiros anos da monarquia, com a implantação da república e com a divisão do Partido Republicano. Blanc andou pela Sintra e pela Cascais burguesas, pelo Real Colégio Militar (actual Colégio Militar), pela Escola de Guerra (actual Academia Militar), combateu as incursões do Paiva Couceiro, tornou-se sidonista…
Bom, era inevitável que, tomando como ponto de partida (e de chegada) o massacre de 11 de Novembro, o contexto fosse o da guerra de 14-18 e o de Portugal sidonista e republicano.

Os soldados portugueses eram menosprezados pelos seus próprios aliados. Com este romance pretende, nomeadamente, fazer justiça sobre o papel das tropas portuguesas na Primeira Guerra Mundial?  
O sentimento dos restantes soldados aliados pelos nossos soldados não era uniforme. Oscilava entre uma certa e inevitável sobranceria (que a falta de ilustração e até a rusticidade dos muitos soldados do CEP “justificava”) e uma relativa admiração pela sua capacidade de resistência. Estávamos mal equipados e mal preparados, de facto. Depois de La Lys o CEP desagregou-se e passou a servir como tropa de apoio aos ingleses. Cavando trincheiras, por exemplo, o que os nossos soldados “agradeciam”, pois assim não estavam nas primeiras linhas…
Curiosamente, vários estudos estrangeiros que li sobre a Primeira Guerra referem-se à nossa participação de forma muito marginal, e amiúde em termos pouco elogiosos. E, nos seus diários, até alguns dos nossos melhores e mais competentes oficiais são críticos do comportamento de alguma oficialidade e de alguma soldadesca. E dos poderes políticos nacionais, claro.
Não tive intenção de prestar justiça, o romance não tinha esse intuito didáctico. Mas inevitavelmente acabei por deixar que a caneta (ou o teclado) escorresse para uma mal disfarçada admiração por aqueles infelizes. No contexto em que foram, com a preparação que levavam, com as condições que não tinham, era impossível alguém fazer melhor. 

Pensa que em Portugal há um desconhecimento sobre o papel de Portugal na Primeira Guerra Mundial?
Bom, esse desconhecimento recai um pouco sobre variados aspectos da história nacional. Não só sobre o papel de Portugal na Primeira Guerra. Não me cabe aqui explanar as razões dessas lacunas, mas o facto de termos uma longuíssima História, de os nossos alunos e docentes de História terem uma carga horária que torna pouco viável grandes análises dos nossos momentos mais marcantes, de serem escassos os programas/filmes/séries de TV sobre a História nacional, de a produção cinematográfica portuguesa ser escassa, enfim, tudo isso contribui para um certo desconhecimento… É certo que a produção historiográfica portuguesa está ao nível da que se faz lá fora, essa produção dirige-se mais a um público académico.  
Enfim, se desconhecimento há, aplica-se igualmente a inúmeros aspectos da nossa História.

Com os seus romances tenta de alguma forma ensinar algo aos seus leitores sobre a História de Portugal?
Sinceramente, não é esse o principal objectivo. Tento escrever romance, não um tratado/estudo histórico, ainda que dê muita atenção ao rigor histórico. Mas se contribuir para um maior conhecimento de factos e épocas, tanto melhor. Não escrevo romances didácticos, mas ficarei feliz se os meus romances tiverem, no final, um pouco dessa vertente. 

Que tipo de investigação fez para se preparar para este romance? Encontrou muito material disponível?
Nos meses que antecedem a escrita de um romance histórico reúno material que me dê informações fiáveis sobre o assunto em causa. No caso concreto deste romance reuni e li várias obras de referência, desde os estudos de Isabel Pestana Marques, Aniceto Afonso e Matos Gomes, até colectâneas do cancioneiro do CEP ou memórias de ex-combatentes. Também li estudos estrangeiros sobre os eventos dos derradeiros dias do conflito e recolhi vários sites académicos sobre o assunto. Ao longo do romance, e para esclarecer pequenas dúvidas que sempre surgem, contactei instituições credíveis como, por exemplo, museus nacionais e estrangeiros (Museu da Carris, Museu do Automóvel do Caramulo, Imperial War Museum).
Por outras palavras, há um estudo inicial que me dá o grosso da informação e, constantemente, durante a redacção, há um contínuo de estudos para certificar aspectos que me vão surgindo. Por norma reúno várias centenas de páginas de apontamentos. 

O facto de ser um romance histórico não retira liberdade de acção às personagens?
Uma pergunta pertinente. Depende. Se estiver a tratar de uma personagem com uma biografia muito conhecida, pode haver esse problema. Há, nesse caso, menos margem de manobra para efabular. Porém, e tomando como exemplo este romance, o que se verificou é que a personagem central é ficcionada, ainda que movendo-se em cenários e factos históricos. Assim sendo, tive alguma liberdade na construção da personagem, desde que respeite o seu contexto, isto é, desde que construa uma personagem credível no mundo e época em que se move.
Essa “liberdade” é menor, claro, em personagens reais e de biografia histórica conhecida, como é o caso do pintor quatrocentista Konrad Witz, que foi a principal personagem do meu anterior romance, O retábulo de Genebra

Nas partes em que não há registos históricos, ou os que há não são fidedignos, permite-se a recorrer à sua imaginação para preencher essas lacunas?
Decerto, mas com uma grande condicionante: os aspectos romanceados têm de respeitar a época em que decorrem. Por assim dizer usa-se a lógica do “se não existiu, poderia perfeitamente ter existido”. A linha entre realidade histórica e ficção é sempre ténue, mas convém que para o leitor as coisas fiquem claras. Por isso indico genericamente, em apêndice, quais os factos históricos e os efabulados ao longo do romance. 

Os seus estudos em História ditam o tipo de romance que vai escrever, ou admite vir a tentar algo fora do âmbito do romance histórico?
Não despimos a pele da nossa formação em nenhum caso, mesmo em romances “não-históricos”. A nossa formação, a nossa visão da realidade, a forma como usamos a utensilagem dessa nossa formação (académica e não só) no dia a dia e na escrita, estão lá sempre.
Escrevi já alguns romances onde a narrativa histórica coexiste com partes não-históricas (El-Rei pastor, Retrato de S. Jerónimo no seu estudo ou Os peregrinos sem fé), e neste caso essa harmonização exige, mesmo assim, claro, o rigor nas passagens e capítulos históricos. Só escrevi um romance de todo “não-histórico”: Os rios da Babilónia. Mas confesso que me sinto mais confortável a lidar com o romance histórico. 

Pode saber-se se já trabalha em algum novo projecto literário e, se sim, qual é o tema?
Estou, de momento a escrever um romance cuja acção decorre em 1556/57, na raia luso-espanhola, entre Olivença (ao tempo, portuguesa) e Barcarrota (perto de Badajoz). E envolve um estranho mistério. Histórico, de resto…

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Vítor Burity da Silva – Entrevista a propósito de “Este lago não existe” e “Rua dos anjos”

19/11/2009 · 1 Comentário

O escritor angolano Vítor Burity da Silva viu recentemente editadas em Portugal duas das suas obras, Rua dos anjos e Este lago não existe, que serviram de mote à Porto Editora para lançar a colecção Literatura Plural. O Porta-Livros entrevistou o autor, abordando temas como os seus livros, a sua carreira, a literatura angolana, a Angola de hoje e as relações entre Portugal (onde vive) e o seu país de origem. 

Um elemento sempre presente na sua escrita, pelo menos nestes dois livros (Rua dos anjos e Este lago não existe), é o sonho. Porque esta necessidade de sonhar, sua e das personagens?
Bem, o sonho faz parte da vida, não é? E nós temos sempre, temos ambições, temos objectivos. E quando um homem sonha as coisas acontecem… diz o poeta. É no fundo um interiorismo, eu mergulho muito para dentro para vivenciar recalcamentos, amarguras, mágoas, frustrações, que fazem parte do percurso de vida e então o sonho está sempre presente, grande parte como metáfora para muitas outras coisas. 

E ao escrever sobre isso, liberta-se de alguma forma?
Liberto, liberto, é uma descarga imensa. Eu fico mal quando não escrevo, tenho de escrever todos os dias. Tal como um atleta precisa de treino para descomprimir, eu preciso de escrever para descomprimir.

Vendo por estes dois livros, opta muito por histórias a dois.
É coincidência nesses dois livros, noutros tenho mais gente. Normalmente gosto mais de uma narrativa directa, sem grandes interferências de personagens. As personagens vão aparecendo metaforicamente também e muitas das vezes as personagens aparentes nestas histórias na realidade não são personagens, são um seguimento do narrador numa discussão. Mas neste caso apareceram de facto estas duas pessoas, embora em Rua dos Anjos a história esteja centrada numa só, e a pessoa misteriosa é uma metáfora, uma mão de Deus, que Serafim precisa para se reorganizar, para se reerguer. Ele nem tem de onde vem, esta ali, pura e simplesmente. Em Angola isso foi utilizado como discriminação, mas eu nem disse nada disso. É engraçado, é a liberdade de interpretação de cada um, pode ser questionada, e um tipo põe-se à margem, e põe-se à mão, ao escrever. 

Estas vivências das suas personagens são vivências íntimas, pertencem a casos que observa ou nascem por si, naturalmente?
Nascem naturalmente, mas têm que ver com a vida, com o dia-a-dia, são ainda resquícios da guerra, da mágoa, da separação de pais, de casamentos não muito felizes, e o que vejo dos outros. 

É bem visível nestas obras a imaginação existente dentro das personagens. É uma maneira de mostrar a sua própria imaginação?
Não intencionalmente, mas vê-se muito os pensamentos das personagens, é uma forma que tenho de dar vida às personagens que uso. 

Apega-se muito às suas personagens? Quando acaba a escrita de um livro tem pena de as deixar ou já está farto delas?
Não, não me farto, e gosto. Tantas vezes me sinto um Serafim, independentemente do que formos, há tantas vezes que nos sentimos mal, com o nosso dia-a-dia, com os nossos casamentos, com o nosso trabalho, e o sem-abrigo Serafim é uma metáfora da sociedade, a história não é propriamente dos sem-abrigo, é o sem-abrigo que todos somos em determinados momentos da nossa vida, quando não temos terras, não temos deus, motivos nem motivação. 

Quando começou a escrever, a sentir a necessidade de contar as suas histórias?
Eu escrevo desde sempre, desde muito pequenino. Comecei também a ler muito cedo, já livros pesados. Já na escola primária as pessoas comentavam a forma como eu escrevia, as redacções; agora são composições… Questionavam muito a minha imaginação. Ainda há tempos encontrei a minha professora da primária e ela disse: “Eu sempre disse que ias ser escritor.” Tinha uma imaginação muito forte, e cá estou. Tenho muitas coisas escritas, milhares e milhares, só que, pronto, fui publicando as mais recentes. 

Quando teve a noção que pretendia fazer carreira como escritor?
Sabe, eu tenho ouvido de um outro escritor, que admiro bastante, que é o Lobo Antunes, que diz isto (e penso como ele): não passamos a ser escritores quando escrevemos, passamos a ser escritores quando temos maturidade para o ser. E então temos de ter muito treino. Nem tudo o que escrevemos é para ser definitivo, é preciso muito treino, escrever muito e ler bastante. 

Já escreveu algo de que se tenha arrependidos, que tenha olhado para trás e pensado: isto é mesmo mau?
Já, dois ou três livros, não muito grandes, de que não gosto nada. Há um do qual já nem me lembro do título.

E o contrário, passa-se? Olhar para um livro e pensar: isto ficou mesmo bem?
Gosto muito do Este lago não existe, gosto muito. É uma metáfora, não é um poema como dizia o Pepetela, supera as frustrações relativas ao que não conseguimos, aos nosso objectivos . 

Vive entre o Porto e Luanda. Qual dos dois será aquele que considera efectivamente a sua casa?
Angola é o meu país, onde nasci, é o país onde na essência vivo, só que por outras razoes vim para cá estudar, fui ficando, as coisas foram acontecendo, depois vêm os casamentos e os divórcios e vou-me mantendo por cá, mas mais três ou quatro anos e volto para Angola. Mas gosto de cá estar. 

Qual dos dois ambientes – Portugal e Angola – influencia mais a sua escrita?
Para lhe ser sincero, Angola, até pelo sangue tropical, pelos escritores e pelas músicas que há. O povo português é muito melancólico, chora muito, o povo angolano, não, o povo angolano é feliz. A qualquer título faz-se uma festa, dançamos, comemos, bebemos. 

Um aluno angolano, chegado há pouco tempo a uma universidade portuguesa, questionado quanto às diferenças entre Portugal e Angola, disse: “Isto não é um país diferente, e um planeta diferente.» As diferenças são ainda assim tão grandes?
Essas comparações são utópicas, porque comparamos uma coisa que nasceu com uma que existe há muitos anos, comparamos uma criança com um homem. Angola tem cinco anos de Histórias, é bom não esquecer isso, as pessoas às vezes esquecem-se que 35 anos de guerra não deixam nada mexer-se. Não se construiu, muito pelo contrário destruiu-se. Foi a guerra, aquilo é livre há cinco anos e está a provar que tem capacidade para crescer. 

Como encara este regresso de portugueses a Angola?
Isto é um bocado o filho e o pai. O pai cria o filho, educa-o, dá-lhe ensino, e depois, mais tarde, precisa dele para viver. Já vive de reforma, ganha pouco, e é um bocado como Portugal e Angola. Portugal neste momento tem mais carências do que Angola, já é um país “velho”, já tem poucas saídas. É bom para Portugal e Angola continuar este relacionamento. 

Acredita que esta parceria vai resultar bem?
A perspectiva do português em Angola não é a mesma. antes qualquer português era dono, patrão, hoje é um cidadão, imigrante, estrangeiro.

Do que conhece, como classifica a integração dos portugueses em Angola?
É boa, os portugueses que lá estão que conheço estão bastante bem. Há dificuldades, é normal, mas temos um relacionamento muito bom com os portugueses, como com qualquer estrangeiro que respeite o país onde vive. 

Com que regularidade vai a Angola?
Tenho ido de três em três meses e fico lá um mês ou dois meses. 

Não se sente dividido?
Neste momento vou “usando” Angola como um lugar maravilhoso para férias, tenho lá a família quase toda. 

Os seus dois livros abrem uma nova colecção da Porto Editora, Literatura Plural. O que podem dar aos portugueses os autores angolanos?
É bom para se mostrar ao mundo que ao contrário do que muita gente pensa os africanos também sabem escrever. Há escritores africanos bons, mas também já ouvi escritores africanos não-negros dizerem que os únicos escritores africanos que escrevem são os brancos. Pessoas dessas vão desaparecendo, já não fazem falta. 

Como é hoje em dia o panorama literário em Angola?
A dificuldade até agora foi a guerra, Não há editoras, não há livrarias, agora tudo está a modificar-se, está a ficar um país normal, como os outros, e tudo começa a acontecer: as editoras começam a colocar-se lá, as gráficas, tudo vai fluindo. Antes, os escritores que mais se destacavam de lá faziam-no cá: Luandino Vieira, Pepetela, Agualusa. Agora, as editoras estão a regressar e com elas a partir para o mundo, e acredito que mais apreçam.

Que papel podem ter os escritores neste fase de desenvolvimento de Angola?
Têm sempre um impacto de evolução nas populações, os estudantes estão empenhados, lêem bastante, procuram, querem conhecer novos autores, há um interesse muito, muito grande em adquirir conhecimentos novos. 

O que podem esperara de si os seus leitores nos próximos tempos.
Tenho muitas coisas feitas, que a seu tempo irão saindo, mas para o próximo anos estamos a tentar lançar uma história relacionada com estas fases da Angola de hoje: a fase anterior à guerra, a fase da guerra e a fase actual.

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Giovanni Chiara – Entrevista a propósito de “Solo Siciliano”

03/11/2009 · Deixe um Comentário

cf-chiaracaraGiovanni Chiara, escritor nascido em Milão em 1946, passou em finais de 2004 por Portugal para apresentar Solo Siciliano (o seu romance de estreia, editado pela Cavalo de Ferro), obra sobre um homem só (D. Gaetano), que vive atormentado desde a morte do filho numa Sícilia “ensombrada” pela Máfia. Enquanto busca uma morte honrada, o velho D. Gaetano “mostra-nos” a Sicília profunda, dura e hostil.

“Na Sicília, os ódios nascem do nada e dão origem a inimizades eternas” (início do Capítulo 21). Esta é a frase que melhor resume a sua obra?
Podia certamente ser. As paixões fortes são intrínsecas à alma siciliana e esta característica é, até certo ponto, independente do facto de estarmos a falar de uma pequena sociedade agrícola, onde o extremar dos sentimentos é mais fácil do que nos grandes centros urbanos.

A Sicília parece ser retratada como um mundo à parte da realidade italiana. Poderia pertencer a um outro país ou ser independente?
A Sicília representa uma realidade única. É uma terra que carrega às costas uma história acidentada e dolorosa, plena de ocupações estrangeiras. A sua população é de índole muito generosa e conhece, como poucas, o sentimento da hospitalidade, defendeu-se fechando-se sobre si própria e desconfiando de qualquer coisa que viesse do exterior.

A Máfia está presente na obra sem quase se ver um mafioso. É este o ambiente que se vive na Sicília, paira como uma sombra?
Sim. A Máfia (palavra que não menciono no romance) é uma realidade impálpavel, não evidente. Pode ficar-se bastante tempo na Sicília, vindo do exterior e enquanto estrangeiro, sem nunca nos apercebermos da sua existência. A sua presença no território e na vida das gentes é, contudo, fortíssima.

A Sicília é indissociável da Máfia? Poderia existir sem ela, e seria muito diferente?
A Máfia não existiria se não tivesse fortes ligações com vários sectores da sociedade. O mafioso é uma pessoa de estrato humilde, sem cultura, em tudo similar ao brigante, ao bandido, que, no passado sobrevivia tendo contudo o seu destino já traçado. Todos os estados perseguiram e eliminaram o brigante, inclusivé o estado italiano, após a unificação na segunda metade do Século XIX. O mafioso, no entanto, à diferença do brigante, vive no meio da população, apoia-se no poder político, vota e faz votar, obtém cumplicidades escandalosas e evidentes, mas quase impossíveis de provar em processo legal. Daqui surge a segurança da Máfia em poder perder alguns dos seus homens, mas continuar, enquanto organização, substancialmente invulnerável. Face a isto, temo que a Máfia e a Sicília ficarão correlacionadas por muito tempo ainda.

D. Gaetano é um progressista preso numa terra parada?
Não. D. Gaetano viveu sempre na sua terra respeitando as regras vigentes, não é um progressista. A sua rebelião face à última prepotência que sofreu deriva do facto de, ao perder o filho, não se sentir mais ligado à vida, e portanto de se ter tornado um homem que não tem nada a perder, logo um homem muito perigoso.

D. Gaetano é inteligente, mas resignado. O que o impediu de mudar de vida?
A resignação de D. Gaetano é típica da alma siciliana. O siciliano é fatalista por natureza. Para um homem da sua idade mudar de vida seria impossível. A única liberdade que lhe resta é como afrontar a própria morte, e ele afronta-a no modo mais elevado possível: com dignidade, que, no meu entender, é a coisa mais preciosa que uma pessoa possa ter.

cf-solosicilianoQuem foge da vulgaridade, do comum, como Corrado ou D. Gaetano, tem o destino traçado?
Infelizmente sim, e não apenas na Sicília. O “grupo” tende sempre a marginalizar o “diferente”. Isto acontece com frequência de uma forma muito triste e atroz entre as crianças, e continua no mundo dos adultos: é um comportamente normal em todas as comunidades de animais ou sociais, mas nós deveríamos ser Homens…

O que o levou a escrever Solo Siciliano? Quis falar de um local, de uma relação (pai-filho), de uma situação?
Não tinha um projecto inicial preciso, comecei a escrever tendo apenas em mente o final, isto é, a morte de Don Gaetano. É típico dos escritores afirmarem que um romance tem uma vida própria e independente, e o meu não é excepção.

É um livro com uma escrita árida e dura, tem que ver com o conteúdo ou é o seu estilo?
É o meu próprio estilo que é assim, mesmo que o adapte ao tipo de romance que estou no momento a escrever. Todos os romances que escrevi (uma dezena) são fundamentalmente diversos um do outro, e o meu modo de escrever seco e árido é, em cada uma das vezes, adequado às novas situações com que me deparo.

É uma obra de silêncios, vive muito do interior de D. Gaetano. Como é se constrói uma personagem assim tão forte da qual se fica tão íntima? Baseou-se em alguém que já conhecia ou é tudo imaginação?
É verdade, trata-se de um romance “interior”. Don Gaetano carrega consigo as contradições e as fraquezas que são típicas das pessoas de carácter, no entanto não tive necessidade de recorrer a um modelo real: é um homem no sentido mais nobre do termo. Teria gostado de o ter tido como pai, gostaria de ser como ele.

(Entrevista realizada em 2004)

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Richard Zimler – Entrevista a propósito de “Os Anagramas de Varsóvia”

20/10/2009 · 4 Comentários

zimRichard Zimler, escritor norte-americano residente há duas décadas no Porto, lançou recentemente mais um romance, “Os Anagramas de Varsóvia” (edição Oceanos), uma poderosa obra cuja acção decorre em 1940/41 no gueto de Varsóvia durante a ocupação nazi e que, afinal, é um policial. Erik, um idoso já morto e fantasma, é o herói improvável que não descansa enquanto não descobre o responsável pela macabra morte do seu sobrinho-neto, Adam. Como Zimler nos explica nesta entrevista, trata-se de uma história sobre heroísmo e coragem, mas a conversa com o Porta-Livros levou também a outros caminhos, nomeadamente de ida e volta até à América. 

Como lhe surgiu a ideia deste livro, “Os Anagramas de Varsóvia”? Pretendia escrever um policial ou pretendia escrever sobre o gueto de Varsóvia e daí foi parar ao policial?
Foi um pouco dos dois. Porquê o gueto de Varsóvia? Eu sempre achei que devia saber mais sobre aquele aspecto do holocausto. Não conhecia a vida quotidiana das pessoas internadas nos guetos da Polónia e de outros países. Como é que elas viviam, se havia escolas, hospitais… Comecei simplesmente a fazer pesquisa e li vários livros, não só sobre Varsóvia mas também sobre cidades polacas como Lodz, que curiosamente era a cidade onde o lado materno da minha família vivia. E ao fazer a pesquisa surgiu a ideia de fazer um policial, porque havia um mercado negro muito grande e muito dinâmico em Varsóvia. As pessoas lá, principalmente, mas não só, as crianças, aproveitavam, para passar de um lado ao outro, os túneis, os esgotos e até os prédios que foram interligados (era uma situação muito curiosa, porque eles fizeram um muro entre os dois lados arbitrariamente e às vezes cortavam um prédio ao meio e então era possível entrar nas duas zonas, a cristã e o gueto). Só para dizer que o mercado negro, por ter uma atmosfera muito sombria, clandestina, em que utilizavam uma espécie de código para referir nomes de pessoas, deu-me a ideia para um policial. 

Porque optou por colocar como narrador uma pessoa que já morreu?
Também não foi planeado. A ideia original era escrever um romance do ponto de vista de um homem já velho porque queria explorar a mentalidade de uma pessoa perto da morte, que já tinha perdido tudo, como é que conseguiu continuar e encontrar um significado de vida depois de perder, neste caso, a sobrinha e o sobrinho-neto, etc. Então, a ideia inicial é que ele regressava de um campo para a sua cidade, Varsóvia. Comecei a escrever a primeira página e o narrador disse: «Eu sou um homem morto.» E ele estava a falar de maneira metafórica. «Tudo o que tinha na vida já não existe, não faz sentido continuar, sou um homem morto.» Mas, de repente, surgiu-me uma revelação: ele está realmente morto, está a voltar como fantasma. (Não gosto muito da palavra fantasma porque soa a sobrenatural, àqueles programa pirosos de televisão.) Mas ele era um fantasma a voltar e eu não sei porquê mas logo a seguir tive a ideia de uma única pessoa, um visionário com capacidades além do normal, poder ouvir e ver este fantasma. E pensei: que ideia gira, um fantasma a falar com a única pessoa que o consegue ver. Porque isso implicava uma responsabilidade mútua, do fantasma a contar a história verídica e da pessoa a receber essa história e a transmitir os temas e as mensagens do fantasma de uma maneira fiel. Achei que era uma maneira interessante de organizar o romance. 

oce.Os Anagramas de VarsóviaEntre tantas mortes gratuitas ocorridas no gueto de Varsóvia, havia razões para uma pessoa procura saber a origem de uma morte em particular?
Não podemos apreciar e compreender um crime contra a humanidade como o holocausto, ou o Ruanda, ou a situação de Israel, falando apenas em estatísticas. O que é que isso quer dizer? Nada! É importante mas não nos afecta emocionalmente, portanto a única maneira de conseguir emocionar o leitor é através de um indivíduo, daí uma das ideias principais do romance ser a perda do sobrinho-neto e de como isso afecta o seu tio-avô. Acho que Erik, o narrador, ficou obcecado com isso porque primeiro o Adam representava o futuro para ele e o futuro do povo judaico. A segunda razão, é que há uma cena no romance em que o rapaz está a cantar com o seu coro, composições de Bach, e o Erik percebe, outra vez como uma revelação, que o mais importante para ele no gueto é proteger o seu sobrinho-neto. Ele já é velho, não tem muito futuro, e então a única coisa que pode fazer é proteger este rapaz, que tem talento, que é interessante, simpático, está cheio de vida. E ele não consegue, o miúdo morre. Se eu estivesse naquela situação, não podia viver sem vingar a morte desta criança. É esse um dos significados para Erik. 

Usou histórias reais neste romance, para além da generalidade do que aconteceu no gueto?
Acho que não. Li muito, diários, relatos, um livro muito bom que se chama “Crónicas do Gueto de Varsóvia”, de Emanuel Ringelblum, que formou um grupo de historiadores e voluntários para tomar notas e escrever sobre todos os aspectos do gueto e também para recolher bilhetes de eléctrico, cartazes, tudo, para criar um espólio da experiência do gueto. Eles, sabendo que iam morrer, enterraram aquilo em caixotes de leite que só foram descobertos depois da libertação do gueto. Parece outra vez um policial. Estas crónicas foram uma ajuda importante, mas acho que os meus personagens não são baseados, que eu saiba, em ninguém particular. Não me sinto confortável a “roubar” a vida de uma pessoa real. As situações são reais, os pormenores precisos e correctos, mas as pessoas são inventadas.

Ao fazer as suas investigações ainda se surpreende com o que encontra, nomeadamente no que respeita ao mal que era feito na época dos nazis?
Curiosamente não é a maldade que me surpreende, mas a coragem das pessoas. Por exemplo, morreu recentemente o último líder de uma milícia judaica que participou na insurreição do gueto de Varsóvia. Estava a viver na Polónia, participou na fundação do Solidariedade… A coragem daquela gente de enfrentar o exército alemão com armas caseiras e pistolas sabendo que iam morrer, isso surpreende-me sempre. 

O ambiente deste livro é pesado, sombrio, triste. Quando escreve sente que isso se reflecte em si? Sente-se aliviado quando o termina? 
Curiosamente, eu primeiro queria evitar escrever um livro deprimente. Isso não ajuda, não acho útil para o mundo escrever um livro que vai dizer ao leitor: não há esperança, é tudo uma merda, um sofrimento… eu evito isso. Para mim este romance é realmente um romance de heroísmo, de Erik e Izzy, e das outras pessoas, que estão a lutar apesar de todas as dificuldades, todos os traumas, todas as impossibilidades. E lutam com sentido de humor, e com força, e com paixão e amor e solidariedade. Então, para mim, não é um livro deprimente ao escrever. Evidentemente, às vezes fico perturbado. Acho que a cena que mais me perturbou é quando Erik faz uma descrição de uma senhora já de uma certa idade que morreu de fome, e ele descreve muito pormenorizadamente o corpo dela, utilizando linguagem poética. A segunda cena que me inquietou foi perto do fim, quando o Erik faz um sacrifício para salvar o seu grande amigo de infância, que é o Izzy. Pensei, bom, isto significa que o Erik vai morrer, mas ele tinha de morrer porque começou o romance como fantasma. Mas, mesmo assim, não queria que ele morresse.

Não o incomoda por vezes ser catalogado como o escritor que escreve sobre judeus? Por vezes não quer tentar outras áreas, ou tudo surge naturalmente?
Primeiro surge naturalmente. Eu já escrevi sobre outros assuntos. No “Goa ou o Guardião da Aurora” escrevi sobre como a Inquisição afectou a Índia, os ex-hindus (os hindus convertidos à força) em Goa. Eles vão pôr-me um rótulo sejam quais forem os temas dos meus livros, os livreiros, os jornalistas, fazem isso. Então, se não fosse escritor judeu, americano, inventavam outra coisa. Não sei… acabei um romance agora sobre uma jovem luso-americana que vive em Nova Iorque. Os pais mudaram de Lisboa para Nova Iorque, está lá a viver há um ano, muito desorientada porque não consegue lidar com a cultura americana e com a língua inglesa, e o livro não tem nada que ver com judaísmo.
Eu tive uma ideia para um romance que poderia fazer a fronteira entre o romance adulto e o romance de jovens. E então é sobre uma jovem luso-americana de quinze anos, muito gira, com grande sentido de humor, mas muito desnorteada. 

DSC_0475E o Porto, não pode aspirar a ser protagonista de um dos seus romances?
O Porto entrou no “Meia-Noite ou o Princípio do Mundo”. Esse é o meu livro de homenagem ao Porto. Se calhar vou escrever sobre o Porto no futuro. Também entra no “À Procura de Sana”

Tem medo de ser mal compreendido se escrever uma história totalmente a decorrer no Porto?
Não, não, de maneira nenhuma. Quando escrevi “Meia-Noite ou o Princípio do Mundo”, e as primeiras cem páginas decorrem no Porto, um dos meus objectivos era recriar a cidade do princípio do século XIX. E gostei de fazer pesquisa, e ter mapas em casa, de ler livros sobre as invasões francesas. Se calhar no futuro seria giro escrever sobre o Porto actual, tenho de pensar nisso. 

Tem noção que o seu trajecto é o oposto de muita gente que tem o sonho de ir para a América. Não há quem lhe transmita que acha estranho que alguém que teve a sorte de estar na América venha para Portugal?
Não, porque acho que tenho muita sorte em estar em Portugal. Eu gosto de viver cá, a qualidade de vida no Porto, pelo menos para alguém que tem algum dinheiro, é muito alta. Quando as pessoas fantasiam sobre os Estados Unidos esquecem-se que também lá há muitas dificuldades. Só para dar um exemplo, a competição nos Estados Unidos é brutal, o português não imagina a competição que há para conseguir qualquer sucesso, quer seja como escritor arquitecto, jornalista. Os Estados Unidos realmente têm aspectos que são muito mais positivos, é uma sociedade muito mais dinâmica que a portuguesa, isso é verdade, é uma sociedade mais aberta, mas também tem um lado de grandes dificuldades, e agora há um desemprego brutal. Eu gosto de passar férias nos Estados Unidos, mas não sei se queria viver lá. 

Nunca pensou, portanto, em regressar?
Em Maio fizemos férias perto do Grand Canyon, naquela zona enorme do deserto norte-americano, os parques naturais. Adorei lá estar, tão bonito, inimaginável, tem uma dimensão que não há na Europa. E as pessoas tão abertas e simpáticas, a comida é excelente, o tempo maravilhoso, e pensei que seria interessante lá viver um ano, numa pequena cidade ao lado de um parque natural americano, porque é realmente um outro planeta. Mas tenho compromissos cá e se calhar não vou poder viver essa fantasia. Mas já vivi tantas fantasias que não preciso de explorar muitas mais. 

Os Estados Unidos nos últimos perderam uma boa parte da boa imagem que tinham. Acha que agora com o novo presidente, Barack Obama, isso pode ser recuperado?
Penso que sim. Ele acabou de ganhar o Nobel da Paz, o que por um lado é bom e, por outro, um bocado absurdo. Mas acho que Barack Obama é de facto um grande salto numa direcção positiva para os Estados Unidos e para o mundo, porque tudo o que os Estados Unidos fazem, para o melhor e para o pior, afecta muito os outros países. Espero sobretudo que na área da política externa possam ter uma acção mais sensata, porque por exemplo a guerra no Iraque, na minha opinião, foi um grande erro. Espero que haja uma política externa e doméstica muito mais sensata e acho que todo o mundo tem essa esperança. 

Mas Barack Obama representa um grande salto porque o que estava antes era muito mau, ou ele realmente está acima da média?
As duas coisas. O panorama realmente estava muito mau a nível de economia, política externa, e qualquer pessoa de uma inteligência razoável já seria um salto. Mas eu acho que ele é realmente muito inteligente, o discurso dele em inglês e a maneira como utiliza as palavras e as expressa, o seu ritmo de fala, evidencia uma grande capacidade intelectual. Não tivemos um presidente que falasse tão bem durante toda a minha vida, nem o Clinton, que também era muito inteligente. Mas o Obama está a anos-luz dele em termos de capacidade de orador. Pode dizer-se que isso não é assim tão importante, mas revela uma faceta dele diferente. Outro aspecto muito importante, na minha opinião, é que ele tem muito mais experiência do estrangeiro do qualquer outro presidente do século XX ou XXI. Ele já viveu na Indonésia, tem um lado da família africano, acho isso super importante. Uma lacuna e um defeito na mentalidade dos americanos é a falta de conhecimento do mundo exterior. Só um povo que não tem a menor ideia do resto do mundo poderia fazer a guerra do Vietname ou do Iraque, ou Guantánamo. Espero bem que com ele se possa evitar esse tipo de erros de política externa. 

DSC_0469O que leva a que o povo americano tenha esse desconhecimento?
Porque não viaja. Recentemente, li uma estatística que revela que só sete por cento dos americanos tem passaporte. E desses sete por cento, só dez por cento é que viaja anualmente para o estrangeiro; é uma percentagem mínima que conhece o estrangeiro. Quando se está nos Estados Unidos é como se o resto do mundo não existisse. É tão grande e variado que uma pessoa pode viver lá toda a vida sem sair. E a cultura norte-americana é tão dinâmica e forte que é possível passar toda a vida a ler livros de romancistas americanos e a ver só filmes americanos. 

Mas como é que os americanos, não saindo eles próprios do seu país, conseguem exportar a sua cultura?
Isso é de facto um mistério. Acho que a cultura americana é muito forte, mas não sei bem porquê ou como. Talvez seja a informalidade misturada com um dinamismo comercial muito desenvolvido e muito forte. Um exemplo de um dos mistérios mais importantes para a Europa é este: os imigrantes de Portugal, França, América do sul, Cambodja, China que vivem e trabalham nos Estados Unidos e conseguem a cidadania norte-americana são tão americanos como uma pessoa cuja família viva lá há dois séculos. E ele quer ser americano, independentemente da sua etnia ou religião, tem orgulho de ser americano. Na Europa, isso às vezes não acontece. Por exemplo, ainda há muçulmanos árabes em França que estão lá há trinta anos e que não se consideram franceses, não têm orgulho nisso. É difícil para um americano perceber isso, é um mistério que a Europa não consiga fazer isso e a América consiga.

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Montserrat Rico Góngora – Entrevista a propósito de “Passageiros da Neblina”

29/09/2009 · 1 Comentário

pla-foto_Monserrat_pequenoMontserrat Rico Góngora, escritora espanhola autora de “Passageiros da Neblina” (Planeta) - obra de ficção que tem como ponto de partida o encontro entre Fernando Pessoa e o mago e satanista Aleister Crowley -, deu uma entrevista ao Porta-Livros sobre este romance onde o mistério está presente em todas as páginas. Mas falou também de si enquanto escritora, dos seus métodos de investigação e de criação e da sua relação com as personagens.  

O que a levou a inspirar-se neste episódio (o encontro entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley) como ponto de partida para o seu romance?
Para ser sincera, devo dizer que fui a Portugal no Verão de 2005, pela primeira vez, à procura de um tema português para transportar para os meus livros. Mudar de cenários e época para não prejudicar o esforço literário trata-se apenas de um esforço pessoal. Se assim não fosse, teria a sensação de que escrevia sempre a mesma história. Foi uma coincidência ter escolhido esse encontro, do qual soube quando por acaso fui à Boca do Inferno. Uma vez que me cativava abordar de novo o século XIX e que o cenário de Sintra se prestava a isso, optei por uma história de uma saga familiar, porque o episódio em questão tinha ocorrido em 1930 e fica muito distante da época que queria abordar.  

Nota-se que fez uma profunda investigação histórica, e de ambientes e costumes das épocas retratadas na obra, assim como das próprias terras (nomeadamente Sintra). Como se processou essa investigação?
Convém salientar que esta não é a história de Crowley, nem tão pouco a de Pessoa. Uma espanhola não pode ter a pretensão de explicar nada aos portugueses sobre uma das suas mais importantes personagens. Só encadeei a um pequeno capítulo das suas vidas uma história, uma ilusão literária, com o direito lícito que todos os escritores têm de criar mundos fantásticos. Note-se, contudo, que mesmo o exercício da inspiração exige técnica e credibilidade, e isso obtém-se com anos de esforço e investigação.

Apesar de esta ser uma obra de ficção, há nela personagens reais. Como se sente ao ficcionar sobre pessoas que existiram mesmo? Não sente por vezes que se está a intrometer nas vidas delas?
É preciso que apareçam pontos de referência reais para dar credibilidade a uma obra deste género, mas sempre tive particular cuidado em referi-los. Acho que fazer alusões divulgativas a Darwin, Everets ou Fernando II não colocam em perigo a sua moral após tantos anos. É certo que quanto a Crowley e Pessoa a implicação é maior, mas no fundo quem opina são também personagens fictícias, e as suas considerações não se podem extrapolar à autora. Se o mundo fosse, no exercício da “Criação”, tão pudico, não existiria a Capela Sistina, teríamos queimado as obras de Maquiavel, Platão teria sido condenado como sendo uma espécie de Deus pagão e a Humanidade teria desaparecido na mais terrível das ignorâncias. 

Nas personagens fictícias dos seus romances coloca muito de si mesma ou evita revelar-se?
Não sei como fazem os outros, mas eu deixo lá tudo, embora de uma forma muito dispersa para não ser uma imitação, uma cópia. Quando escrevemos e damos vida aos protagonistas fazemo-lo por atracção ou repulsa, o que implica que nos revelemos um pouco, se bem que a função também exija que sejamos objectivos. 

Aceitaria de bom grado que alguém escrevesse um romance onde você fosse personagem?
Sim, se nesse capítulo isolado nada distorcesse a minha vida real. Quem sabe alguém daqui a meio século me permita conviver nesses romances com o presidente dos Estados Unidos, Obama, que não conheço e que, creio, nunca irei conhecer pessoalmente, pelo que se o objectivo dessa criação é entreter e fazer-me repensar coisas muito mais transcendentes, de certeza que o iria entender. No entanto, há que não esquecer que um romance não é um ensaio histórico, onde não há margem de manobra para a inspiração.

pla-passaA astrologia, o esoterismo, a maçonaria, eram já temas que lhe interessavam antes de se envolver neste “Passageiros da Neblina”?
Já conhecia alguma coisa desses assuntos porque ao escrever o meu anterior romance, “La Abadía profanada”, tive de os investigar, já que mo exigiu o argumento mais desastroso da história do século XX: os delírios dos superiores nazis que, ébrios de poder, ameaçaram o mundo. Confesso que também gosto de escrever romances mais ligeiros, daqueles em que no Sol e na Lua não vemos mais mistérios do que o de iluminar com certa intensidade as nossas vidas. 

Durante as suas investigações encontrou algo de surpreendente sobre Crowley e Pessoa?
Sim, algo que os portugueses se calhar também não sabem sobre o satanista. É preciso admitir que Crowley era um perturbador e que os lugares por onde passou tinham uma aura de maldade. Durante a Primeira Guerra Mundial, Crowley vivia nos Estados Unidos. Por acaso, no Edifício Dakota, o mesmo onde anos mais tarde Roman Polanski filmou “A Semente do Diablo” e onde foi assassinado John Lennon. 

Já esteve em Portugal a promover “Passageiros da Neblina”. Como acha que os portugueses encaram o facto de “pegar” num dos seus grandes vultos da literatura, Fernando Pessoa, para participar num romance?
Alguns portugueses acham bem, outros mal, calculo. De qualquer forma, nesse capítulo do encontro entre Crowley e Pessoa não escrevi nada que não seja correcto em relação à investigação policial que foi feita. A Scotland Yard foi até Portugal. Não foi Samuel Olín, mas o que aconteceu, em traços gerais, foi isso. Talvez Pessoa fosse mais indulgente comigo a julgar-me e entenderia que estranhos caminhos labirintos nos levam aqui e ali durante a criação. Humildemente, acho que não insultei a figura de Pessoa. Se um português escrevesse sobre Cervantes, sobre o nosso insigne e maltratado Lorca ou sobre qualquer das figuras em que reconhecemos a nossa essência cultural, não teríamos de ficar ofendidos. Mais do que isso, diria que teríamos de mostrar gratidão pelo interesse que a nossa história e o nosso acontecer literário pode despertar nos outros. Um escritor espanhol, Pio Baroja, na época do integrismo conservador do século XIX disse que “o carlismo curava-se viajando”. Creio que os receios e os malentendidos com os nossos vizinhos, com o que em geral está próximo, também se tratam assim: conhecendo-se uns aos outros. O que de toda a obra há-de ficar, no fundo, é uma visão do transcendental, daquilo que passa a acervo do espírito humano. Tudo o que resta são desejos de alimentar disputas desnecessárias e de não querer ver os verdadeiros problemas. Não tenho receio do público português, mas antes muito respeito, porque isso nunca deve perder-se. 

O que a atrai no romance histórico. Pensa tentar outros géneros literários?
Tenho já escrito algo inédito, que apesar de ter uma boa envolvência histórica na França e na Itália do século XIX, é mais uma divertida trama psicológica das suas personagens, quase uma espécie de vaudeville

Sei que deixou muito material de fora relativo a Aleister Crowley, uma personagem extremamente rica. Tenciona voltar a esta personagem num dos seus próximos romances?
Não, nunca passo duas vezes pelos mesmos caminhos literários. Disse o mesmo quando me envolvi no romance sobre o Santo Graal. Para mim é muito mais difícil apagar tudo e recomeçar do zero, mas é uma questão de princípio. 

Que projectos literários tem em mente?
Editar um par de romances inéditos e desencantar uns meses de sossego para regressar literariamente a Itália. É um país que me fascina. 

Quando percebeu que ia ser escritora?
Embora possa parecer estranho, quando tinha oito anos. Percebi-o quando me chegaram às mãos os poemas de Antonio Machado.  

Quais são as suas referências literárias, actualmente?
Gosto de muitos autores. Sou das que pensam que se aprende com todos. Nada é demasiado mau, porque escrever é um exercício de reflexão e quando lemos também nos faz reflectir. E é então que o mundo pode ser reinterpretado por nós. 

Também escreve poesia. Qual dos dois géneros prefere?
Os dois: cada um a seu tempo. A prosa, apanho-a eu, vou à sua procura. A poesia vem ter comigo, como um namorado desconfiado, passa de repente ao meu lado, inspira-me e parte. Tenho de admitir que a poesia me ensinou muito para a prosa, sobretudo a capacidade de concretizar as ideias. 

Li uma entrevista sua onde refere que ainda escreve à mão. Ainda mantém essa opção, ou já se deixou tentar pelos computadores?
Não, de maneira nenhuma, os computadores não me dizem nada. Continuo a escrever à mão. É como se não existisse o cordão umbilical que vai desde o sentimento até ao ecrã. Essa seiva tem de sair de um órgão vivo. De qualquer forma reconheço que o computador é um grande invento e esforço-me porque se não posso acabar transformada numa analfabeta funcional.

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Juan Marsé – Entrevista a propósito de “O Feitiço de Xangai” e “Rabos de Lagartixa”

28/09/2009 · Deixe um Comentário

cl-marseO escritor catalão Juan Marsé passou em 2004 pelo Porto e falou-nos da sua obra. Apesar de extensa e recheada de prémios, até então só dois romances tiveram direito a edição em Portugal (pela mão da Campo das Letras), “O Feitiço de Xangai” (1995) e “Rabos de Lagartixa” (2000). Comum aos dois, assim como ao resto da obra de Marsé, a presença de Barcelona, no fundo a personagem principal deste autor que não nega a influência do cinema na sua forma de escrever.

Tem uma série de personagens muito distintas umas das outras em romances como “Rabos de Lagartixa” ou “O Feitiço de Xangai”, os dois editados em Portugal. O essencial de um romance são as personagens ou a própria acção?
Bem, não saberia desligar uma coisa da outra. Num romance conta-se o que ocorre, o enredo, mas é desenvolvido pelas personagens, que têm de estar muito ajustadas ao enredo.

Mas são personagens muito fortes, não há o risco de superarem a própria acção?
Elas são muitos importantes porque dou grande importância às emoções e aos sentimentos num romance. Assim, a sua dimensão humana é fundamental.

Constrói as personagens antes de escrever ou elas vão-se desenvolvendo com o desenrolar do romance?
É um trabalho conjunto. Não se pode contar uma história e ao mesmo tempo já ter as personagens formadas. Eu trabalho sobre imagens e não sobre ideias. Eu nunca disse: “Gostaria de escrever um romance para demonstrar que certas coisas são erradas”. Tenho umas imagens que são vivências pessoais ou coisas que me contaram e que me sugerem a possibilidade de uma história que tem que ver com essa tema. Mas não ao contrário, não parto de uma ideia, mas sim de uma imagem.

Que tipo de mensagens que pretende passar nas sua obras?
As mensagens têm de estar implícitas no enredo, porque se estão demasiado explícitas já não é um romance com personagens cheias de humanidade, mas um ensaio sobre sociologia, etc. É por isso que escrevo um romance, tenho o trabalho de inventar personagens e torná-las credíveis, senão escrevia um tratado.

Onde se inspira para criar as suas personagens?
É uma mistura de experiências pessoais e de histórias que ouvi contar com a imaginação. A literatura de ficção é isso, é uma mentira. Os romances são todos uma mentira, mas de alguma forma têm de estar ligados ao mundo real.

Coloca factos reais nos seus livros?
Há um componente real, ao qual podemos chamar crónica urbana de Barcelona através dos anos, sobretudo desde os primeiros anos da ditadura franquista até aos últimos. Tem que ver com a minha casa, a minha adolescência, a minha família, mas não estão aí de um forma explícita, estão mascaradas num contexto de pura ficção.

Viveu sempre em Barcelona?
Nasci, cresci e vivi sempre em Barcelona, portanto nos meus romances a cidade é o cenário habitual. Mas há cenas que decorrem noutras cidades, desde Paris até Xangai.

cl-xangaiSempre que escreve já tem a ideia que a acção decorrerá em Barcelona?
Não o penso, a história que estou a contar é que se situa automaticamente e inconscientemente em Barcelona, porque é a cidade que conheço. Que necessidade tenho de mudar de cidade se este é o meu elemento natural? Se o argumento o exige, naturalmente, faço viajar as personagens. Em “O Feitiço de Xangai” grande parte da acção decorre em Xangai, mas é uma cidade onde nunca estive. É uma cidade que conheci através de artigos de jornais, crónicas, histórias que me contaram e da minha fantasia.

cl-rabosMesmo em Barcelona recorre muito à fantasia para descrever o que decorre na cidade?
Há alguns acontecimentos que são históricos. Por exemplo, em “Rabos de Lagartixa” há uma referência a uma greve dos cidadãos de Barcelona aos transportes públicos, que tinham subido de preço. Foi a primeira vez desde a guerra civil espanhola que houve uma greve contra o regime, em que operários e estudantes se uniram. Foi um feito histórico que está documentado.

Nunca colocou personagens reais nos seus romances?
Personagens com o seu nome e apelido não. Aparecem alguns, desde actores de cinema, filmes, ruas. A cenografia é real, mas os bonecos são falsos.

A sua obra completa pode ser considerada uma espécie de guia de Barcelona?
Não, porque entre outras coisas o tempo decorrido modificou de tal forma a cidade que muitas coisas já não existem. A Barcelona dos meus romances é uma cidade mental, vive na minha memória.

As suas personagens têm algo de autobiográfico?
Há elementos que correspondem à minha vida pessoal, familiar, ao meu bairro, às minhas memórias, que têm que ver com o meu passado. Todos temos um passado e mantemos uma relação com ele. Eu faço-o através da literatura. Mas não na medida em que se possa dizer que os meus romances são autobiográficos.

O facto de ser um autor muito premiado é importante para si?
Os prémios literários não tem nada que ver com a literatura, têm que ver com a venda e promoção de livros, e nesse sentido parece-me bem tudo o que se faça pela promoção do livro. Os prémios ajudam a isso, mas a relação directa entre prémio e literatura não existe. O livro se é bom sobrevive ao tempo, tenha sido premiado ou não.

Quando começou a escrever?
Comecei muito jovem, contos e poemas, mas de forma consciente foi aos 17 anos, já com algumas pretensões.

Quais as suas influências?
O cinema e a literatura de quiosque influenciaram-me muito, assim como o romance do século XIX, como Tolstoi. Nunca mais ninguém escreveu nada como “Guerra e Paz”

O autor
Juan Marsé nasceu em Tarragona, na Catalunha, em 1933, e antes de se dedicar à escrita trabalhou em Paris num laboratório e como joalheiro já em Barcelona. Aos 27 anos publicou o seu primeiro romance, “Encerrados com un solo juguete”, a que se seguiram “Esta cara de la luna” (1962) e “Ultima tarde com Teresa” (1965). Tornou-se, entretanto, um autor bastante premiado, mas que só em 1995 foi dado a conhecer aos portugueses graças à editora portuense Campo das Letras. Nesse ano chegou a Portugal “O Feitiço de Xangai”, que em 1993 havia ganho o Prémio Nacional da Crítica em Espanha, e em 1994 o prémio Europa de Literatura. Em 2000 o catalão Juan Marsé lançou “Rabos de Lagartixa”, que teve edição portuguesa apenas em 2003. Esta obra ganhou em Espanha o Prémio Nacional de Narrativa. Em 2008 conquistou o Prémio Cervantes.

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Sofia Marrecas Ferreira – Entrevista a propósito de “O Sangue da Terra”

21/09/2009 · Deixe um Comentário

sofiaSofia Marrecas Ferreira lançou recentemente “O Sangue da Terra” (uma edição Porto Editora), romance que tem o mundo feminino no centro, embora a autora entenda que este não é um livro exclusivamente para mulheres, podendo também agradar aos homens. “Os nossos mundos são complementares”, explicou nesta entrevista ao Porta-Livros. As mulheres são o motor deste romance, nomeadamente a sua luta incansável pelo amor, mas há outros protagonistas de peso: os locais. Acima de tudo, o Alentejo, “personificado” por Lugar-do-Pé-da-Serra, mas também a Rua de Antero de Quental, em Lisboa, e uma pequena rua em Paris.  Com personagens fortes, locais e ambientes viva e pormenorizadamente descritos e, não menos importante, bem escrito, “O Sangue da Terra” é um livro a ler com atenção. Nesta entrevista, Sofia Marrecas Ferreira dá algumas pistas sobre a obra e sobre si própria, e como as duas coisas se misturam.

“O Sangue da Terra” é apresentado como “um hino às mulheres, à força com que se entregam ao amor e às suas paixões, à coragem com que assumem as suas escolhas e a sua liberdade.” Contudo, Tomasa, uma das protagonistas, parece-me tudo menos livre, já que vive aprisionada a um amor que a destrói aos poucos, eternamente à espera de algo que nunca sucede. Catarina, filha de Tomasa e outra das protagonistas, aparentemente necessitou de ir a Paris para abrir os olhos quanto à sua relação “proibida”. Vivendo em Portugal, ou na sociedade portuguesa, tal não seria possível, mesmo tendo em conta o que a mãe sofrera ao estar envolvida numa situação semelhante?
Enquanto Tomasa e Catarina vivem a sua paixão num universo mais ou menos fechado, desfrutando assim de pouca liberdade, o seu amor é possível e estão efectivamente  presas aos homens que amam. No entanto, ao serem confrontadas com o mundo onde há regras sociais e códigos de comportamento, elas vão ter de enfrentar a sua verdade e os seus actos, e a sua coragem consiste em reconquistar a sua liberdade sem álibis, remorsos ou justificações. Encaram a sua realidade e procuram existir por si próprias, independentemente das suas paixões. Nesse sentido, a partir do momento em que exercem a sua vontade sobre o mundo, com o seu altruísmo ou o seu talento, tornam-se livres e escolhem o seu caminho. Catarina não “necessitou” de ir a Paris: foi, porque acreditou em si e na sua arte, assim como Tomasa, que encontrou o seu propósito na vida, ajudando a comunidade do Lugar-do Pé-da-Serra.  

O carácter dos homens não fica muito bem visto neste seu romance. É mesmo esse o seu sentimento, ou serve apenas para ilustrar esta história específica?  
É verdade que neste romance os homens não são muito corajosos nem destemidos mas também são importantes. Além de desencadearem paixões – pouco assumidas – eles têm o seu papel. Afinal, é Octávio que ajuda a filha a descobrir o seu talento, Álvaro que acompanha Rafaela nas suas digressões musicais e António que, mal ou bem, acaba por assumir uma posição quando vai ao encontro de Catarina. Mas tem razão: dei mais ênfase às mulheres e à capacidade que elas têm de se adaptar a situações difíceis que, muitas vezes, parecem votadas ao fracasso. O que não significa que todas as mulheres sejam assim. Estas são. 

As protagonistas foram baseadas em casos reais ou é tudo fruto da sua imaginação? 
As personagens são fruto da minha imaginação. 

Os locais têm uma presença marcante no romance, tão importante como as personagens. Esta história poderia decorrer em outros locais que não os escolhidos por si?  
É uma boa pergunta. Não, não poderia ter escrito esta história se não tivesse como pano de fundo um andar num prédio da Rua Antero de Quental, ou uma vila em Serra d’Ossa, nem sequer talvez uma pequena rua em Paris. São espaços restritos, pequenos, que proporcionam uma escrita em que os cheiros, os ruídos, as formas e as cores adquirem mais relevo e força, evidenciando a lentidão do tempo (na taberna da Quitéria, por exemplo), a solidão, o pensamento dos personagens, a própria acção.

Vive em Londres e escreve um romance cuja acção decorre em Lisboa, Alentejo e Paris. O que significa isso, uma vontade incontrolável de viajar?
Na realidade viajei muito e vivi em vários lugares, o que faz com que as minhas viagens apareçam de vez em quando nos meus livros. Digamos que fazem parte da fisicalidade do texto. 

pe-sangueDescreve muito bem os pequenos ambientes (o bairro e a rua em Lisboa, Lugar-do-Pé-da-Serra no Alentejo). É o seu ambiente natural?
Como bem reparou, gosto de me concentrar em lugares pequenos porque é deles que tudo parte e acontece, é neles que tudo adquire destaque e projecção. São ambientes que conheço ou observo, e é aí que as pessoas vivem, respiram, se zangam, se apaixonam, contam as suas histórias, vêem televisão, comem, ou permanecem sós com os seus fantasmas, os seus sonhos e todas as vidas que talvez gostariam de viver.
 
O Alentejo surge descrito com grande pormenor e paixão. Era onde gostaria de viver e assim fá-lo através das suas personagens?
O Alentejo é  uma região que conheço bastante bem e onde nunca deixei de ir ou de estar. Há no Alentejo uma força, uma resistência e uma solidez que nunca encontrei em parte nenhuma, e que me fascina. Por isso, talvez empreste aos meus personagens um pouco daquilo que sinto, sem falar das pessoas que vou cruzando no meu caminho. E, um dia, quem sabe, talvez acabe por viver mesmo num cantinho de seara?      

Os seus livros são muito dirigidos ao público feminino, fá-lo conscientemente ou surge naturalmente? E já agora, o que poderá  haver nos seus romances que cative o público masculino?
Não escrevo a pensar num público feminino. Escrevo mais sobre mulheres  porque sou mulher e tento falar do que sei. De resto, o que pode cativar um homem nos meus livros? Acho que as histórias de amor, e não só, também interessam os homens. Afinal, os nossos mundos são complementares. E são-no cada vez mais. 

“O Sangue da Terra” é um romance muito intenso, com muito sentimento, muita paixão, personagens fortes, etc. Quando terminou a sua escrita sentiu a falta da companhia daquelas personagens, ou pelo menos de algumas delas?
Não sinto falta das minhas personagens porque durante o processo de escrita elas esgotam-me. Mas levo-as comigo como se fossem pessoas por quem tenho muito carinho e que, a certa altura, entraram na minha vida passando a fazer parte de mim.

Vive muito intensamente o período de escrita dos seus romances ou encara esse processo com um “mero” ofício do qual se desliga quando termina o expediente? 
Penso viver muito intensamente os meus períodos de escrita e para mim não há hora de “expediente”. Mas, quando termino um livro, confesso que me sinto aliviada e feliz não só pelo trabalho concluído mas também porque posso começar a pensar noutra história.

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José Riço Direitinho – Entrevista a propósito de “Um Sorriso Inesperado”

20/09/2009 · Deixe um Comentário

asa-jrdJosé Riço Direitinho, nascido em Lisboa em 1965, engenheiro agrónomo e escritor com obras traduzidas em alemão, holandês, castelhano, francês e inglês, editou pelas Edições Asa, “Um Sorriso Inesperado”, livro de contos sobre o mundo rural, onde a Galiza tem papel preponderante. Nesta entrevista falou da sua obra, da sua relação com a escrita e com a imaginação e opinou sobre o estado da literatura em Portugal. 

Este livro contém histórias que decorrem num meio rural, mas que foram escritas em Nova Iorque numa residência para escritores. Como se conjugam esses dois mundos?
Eram histórias das quais de algumas já tinha pelo menos uma página ou duas. Nova Iorque foi uma questão de tempo, de ter disponibilidade para escrever. Estive lá durante um mês onde só escrevia quando me apetecia. Era numa quinta em que se está lá apenas para escrever. Eu queria-me ver livre das histórias, queria despachá-las. 

Estar num local desses, como já esteve em Berlim, com uma bolsa, não provoca uma pressão interna do tipo: “Tenho de escrever já que estou aqui”?
Tive receio disso quando fui para Berlim durante ano e meio. Achei que se calhar só ia começar a escrever ao fim de dois meses. Mas aconteceu ao fim de 15 dias. Depende de como nos ambientamos ao sítio. Felizmente fui viver para uma casa que me ajudou a escrever. Eu tenho problemas para escrever com determinados tipos de luz, por exemplo. Nova Iorque foi mais difícil. Durante a primeira semana não consegui. Apesar de estar o tempo todo no quarto não conseguia. Essa pressão existe mas temos de tentar fazer alguma coisa para tentar escrever, nem que sejam coisas que sabemos que vamos deitar fora daí a dois dias.

Mas não prefere escrever num ambiente seu?
Sim, claro, prefiro escrever em casa, onde fiz os três primeiros livros. A questão de Berlim e Nova Iorque teve que ver com a disponibilidade de tempo da minha vida profissional.

Como faz para combinar duas actividades tão distintas?
Sim, são. Até há seis anos trabalhava do meio-dia às onze da noite. Chegava à casa e estava a escrever até às três, quatro da manhã. Aconteceu com os romances e escrevia quase todos os dias e aguentava-me bem. A partir de determinada altura passou a ser demasiado cansativo. Agora procuro que o trabalho me dê algum tempo. Fica sempre alguma coisa a perder, ou o trabalho ou os livros, mas é uma questão de gestão. Em termos de matéria, o trabalho que eu faço de engenheiro agrónomo ajuda. Proporciona muito contacto com as pessoas, com o meio rural, com as histórias. 

É nesse contacto que faz a recolha de ideias?
Não, a parte do rural nos meus livros é uma coisa estranha para mim porque nunca vivi no campo, vivi em Lisboa. Mas apareceu sempre. Mesmo que escrevesse sobre uma cidade havia sempre uma coisa qualquer, começavam a aparecer árvores, passarinhos e osgas e tal… Não sei explicar, mas as ideias surgem e depois é quando trabalho em algumas zonas de Portugal que há a preocupação de apanhar determinados ambientes.

Ao ler as histórias dá ideia que foram escritas por alguém que conhece bem estes ambientes.
Há uma preocupação em apanhar o ambiente, as pessoas, mas em termos de cenários.

 Em “Um Sorriso Inesperado” não há nada de verídico?
Não, que me lembre não. Aliás, há uma história que é a versão feminina de um outro conto do meu primeiro livro.

 O que pode prometer a quem ler “Um Sorriso Inesperado”?
É um livro sobre a vida, sobre a quase impossibilidade de se viver sempre feliz. Deixa-nos algum espaço com o fantástico e com a magia que nós precisamos para continuarmos vivos. É um livro muito calmo.

 O que pensa do actual panorama da literatura portuguesa?
Há algumas coisas interessantes mas há um grande folclore à volta da literatura. Acho que muita gente se leva a sério e isso prejudica. Os escritores não são pessoas para serem levadas a sério. São pessoas normais que escrevem livros porque não são jogadores de futebol. Se conseguisse jogar bem futebol de certeza que não escrevia livros.

 Quando é que pensou: “Eu sou escritor”?
Ahhhh… ainda não. Quando uma pessoa em termos de literatura se começa a levar muito a sério acho que acaba por ali. Eu não publico um livro todos os anos. O último foi há quatro anos, e este é relativamente pequeno. Acho que se perde um bocado ao fazer da literatura uma actividade avençada.

Não tem a pretensão de ser exclusivamente escritor?
Eu gostaria, até porque como sou preguiçoso ajudar-me-ia. Não tinha de trabalhar noutras coisas em que tenho a obrigação de fazer. Mas penso que não funcionaria tão bem. Tive a experiência de Berlim, em que estive um ano só a escrever. Ao fim desse tempo o livro acabou e eu estava farto de escrever. 

Dá muita atenção à crítica dos seus livros?
Os críticos descobrem sempre mais coisas do que aquelas coisas em que pensei quando escrevia, o que não é mau nem estranho.

Não fica saturado quando está a escrever?
A escrita não me dá prazer nenhum. O que me dá prazer é ler-me a mim próprio, é um acto narcísico. Se eu pudesse não escrevia. É uma realização pessoal, não no acto da escrita, mas no acto de ler o que escrevo.

As experiências que teve no estrangeiro dão-lhe ideias para novas histórias?
Escrevi o “Histórias com Cidades” em relação a cidades europeias que visitei, muito especialmente no Norte da Europa. Mas as coisas aparecem ao fim de alguns anos e não quando nós queremos. Se me pusesse agora a escrever sobre Nova Iorque se calhar não conseguia. A escrita é aquilo que nós pensamos que vemos, é o que a nossa cabeça torce, é um erro de visão, é a realidade distorcida. 

O livro
asa-sorriso“Um Sorriso Inesperado” (Edições Asa, 112 páginas) pode mesmo proporcionar sorrisos inesperados. Histórias rurais a decorrer entre o Norte de Portugal e a Galiza têm bem presentes o elemento fantástico, algo constante na ruralidade portuguesa, por vezes difícil de entender pelo que de mais urbano há em nós. Mas, inevitavelmente, em cada um há sempre uma ligação à terra, nem que seja por um avô distante que se visitava na férias ou um vizinho migrante que de lá veio. Ambos tinham sempre histórias curiosas para contar. José Riço Direitinho também tem, e das boas, parecendo ele próprio alguém “lá da terra”. Só que nasceu e viveu sempre em Lisboa, mas soube sorver a nossa realidade e vertê-la pela escrita, contando-nos histórias saborosas, com destaque para uma onde entra um louco fidalgo.
Um pequeno livro para nos ligar à terra.

(Entrevista realizada em 2005)

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Sveva Casati Modignani – Entrevista a propósito de “6 de Abril’96″

30/08/2009 · 1 Comentário

asa-sveva2A escritora italiana Sveva Casati Modignani é um fenómeno de vendas em Portugal e no Mundo. Em Julho de 2004, por ocasião do lançamento de “6 de Abril ‘96” (Edições ASA), a autora passou por Portugal, onde se disponibilizou, como sempre faz nestas ocasiões, para contactar com os seus leitores. Na sessão de autógrafos que deu na altura na Feira do Livro do Porto os admiradores esperaram horas por uma dedicatória sempre com direito a uma palavra especial e única para cada um. Nada de mecanismos, tudo natural, de quem gosta do que faz e dos que gostam do que faz. A própria Sveva (de verdadeiro nome Bice Cairati) pode ser considerada uma personagem, mas tão bem fabricada que se torna real como qualquer escritor. E depois escreve de forma simples, mas correcta, sobre o que preocupa as mulheres, desde o amor ao trabalho, pelo que há uma perfeita identificação entre autora e leitora.

 Alguma vez pensou que iria ter o sucesso que tem actualmente?
Claro que não. Quando faço um novo romance tenho a certeza que não vai vender. Agrada-me, mas encontro muitos erros, não de escrita, mas no enredo, nas situações e digo… este livro não vai vender. Mas, de livro para livro, os leitores aumentam.

Tem medo de um fracasso?
Sim. Mas o que me espanta é como os leitores se podem identificar tanto com a história que, no fundo, escrevo para mim. Escrevo uma história que me agrada e espanta-me que depois agrade aos outros. É sempre uma surpresa.

Então não consegue explicar seu próprio sucesso?
Só posso dizer que estou abençoada, não sei.

Não pensa no público quando escreve, só pensa em si?
Sim, porque desejo, dado que não gosto de mim, tentar inventar personagens que não sou eu e à volta das quais fantasio para mim. Assim, ao fim de tantos anos, não sei se estou a viver a minha vida ou a das mulheres que conto.

Então vive o sonho dos sonhos de muitas pessoas?
Gostaria que a vida de cada um nós fosse como o conteúdo dos livros, onde é possível intervir e corrigir, cancelar as coisas, mas como isto não se pode fazer inventei o jogo de contar histórias para o poder fazer.

Fiquei surpreendido com a recepção que teve na Feira do Livro do Porto. É sempre assim?
Sinto que à minha volta há leitores que me amam. Quantas vezes acontece haver um grande escritor que é dificilmente interpretável para quem lê? O leitor sente que não compreende. A minha escrita é plana que qualquer um, rapaz ou rapariga, a pode perceber, mesmo as pessoas com menos cultura.

“6 de Abril ‘96″ é um livro essencialmente vocacionado para um público feminino?
De início, quando há 23 anos comecei a publicar, tinha principalmente leitoras, mas com o passar dos anos descobri que tinha muitos leitores masculinos.

Mas a sua intenção é escrever para mulheres ou homens?
Para mim.

Então é para mulheres?!
Sim… (hesitação), mas para mim.

Pretende fazer passar alguma mensagem nos seus livros?
Não. Eu, sim, estou à espera de mensagens e de quem mas dê. Cada livro é um confronto com o mundo feminino, o que sucede à minha volta, o que acontece à volta das mulheres. Agrada-me imaginar que no sentido dos homens as mulheres são muito difíceis de interpretar e os homens nem sempre as entendem. Gosto de pensar que há leitores curiosos que se deixam fascinar por estes mistérios do universo feminino.

No livro há uma bela história, mas com muito sofrimento pelo meio.
Sim, porque a vida das mulheres não é nada fácil. Desde o início da História sempre foram consideradas seres humanos de segunda classe. Na civilização grega, os gregos descobriram tudo, inventaram a democracia. Estas pessoas tão evoluídas intelectualmente inventaram uma divisão da casa para onde relegavam as mulheres, que não podiam de forma alguma intervir na vida social. Os homens serviam-se delas unicamente para preservar a espécie. Se queriam fazer amor, não precisavam das mulheres. Na civilização romana, quando numa família nascia uma menina, esta era posta aos pés do pai. Se o pai a recolhesse, era aceite, mas se a deixasse era rejeitada. Desde sempre foram ofendidas e humilhadas e carregaram sobre os ombros o peso da família e da sociedade. Sempre fizeram duplo trabalho, em casa e fora. Sinto que teria matéria suficiente para continuar a falar desta grande injustiça do mundo das mulheres. Hoje há uma guerra terrível que afecta todo o mundo. Não é estranho que todas estas decisões sejam tomadas exclusivamente por homens? Não será que o poder do mundo poderia ser partilhado entre homem e mulher? Há 2000 anos houve um milagre e nasceu na Terra uma pessoa chamado Jesus. Pela primeira vez na História do Mundo Jesus pregou uma religião feminista. Rodeou-se de mulheres e que melhor novidade poderia trazer do que a palavra perdão, que no mundo antigo era desconhecida? Ora o perdão é uma prerrogativa exclusiva das mulheres. Tanto assim que quem acolhe o verbo e a doutrina cristã foram principalmente as mulheres. E foram elas a converter o Homem ao cristianismo. Quando é que o cristianismo se tornou numa religião machista? Quando o Homem percebeu que disso podia fazer negócio. Em nome de Cristo, levando a cruz ao Mundo, começaram a fazer as coisas mais assustadoras. Começaram com as Cruzadas, onde massacraram muita gente. Entretanto, enquanto iam combater, deixavam as cidades, as aldeias e os campos nas mãos das mulheres e viveram-se momentos de grande serenidade e paz. Os homens, levando a cruz, destruíram a população americana, inventaram a Santa Inquisição.
Parece-me que chegou o momento em que as mulheres poderiam dar-se conta de quão belas e fortes são e encontrem a coragem de dizer estamos aqui e vamos dar uma ajuda. Pode ser que as coisas corram melhor.

Acha que essas mudanças podem acontecer num curto espaço de tempo?
Oh, não! Porque as primeiras a não ter confiança são as próprias mulheres. Não se apercebem das suas potencialidades.

Porque acontece dessa forma?
Houve sempre uma grande discriminação, as mulheres têm ainda um grande caminho a percorrer porque na verdade não têm os mesmos direitos do homem. Em Itália, num emprego uma mulher ganha sempre menos do que um homem. Nas multinacionais, quando há uma promoção entre uma mulher muito cotada e um homem, é sempre este o promovido.

Um livro como o seu é um pequeno empurrão para fomentar essas alterações?
Gostaria de acreditar nisso, mas não penso que seja assim. As coisas que eu conto são as que eu gosto de pensar e raciocinar. As mulheres que as lêem, entendem-nas com tanto coração, com tanto envolvimento, com tanta paixão, mas o homem, afinal, teme as nossas qualidades, as nossas inteligência e faz de tudo para nos manter na cozinha.

Tem milhões de leitores, o que é uma grande responsabilidade. Tem medo dessa responsabilidade?
Não, porque como já disse escrevo para mim.

Tem muito sucesso junto do público. Como funcionam as coisas junto da crítica literária?
Não conheço um crítico que possa falar mal das minhas histórias. Acho que têm muito respeito por este romance, no sentido em que do ponto de vista linguístico sou absolutamente correcta e do ponto de vista do enredo narrativo não há outro autor em Itália que arrisque a escrever uma história com um mosaico tão bem urdido. Esta Sveva é uma autora outsider, absolutamente exterior à actual corrente literária, pelo que me respeitam muito.

Mas ao mesmo tempo algumas pessoas podem invejar o seu sucesso?
Se a inveja existe eu não a vejo. Isso não é importante. O que é belo e surpreendente é encontrar leitores que me dizem: obrigado por ter escrito uma história que me faz companhia, que me faz pensar, que me faz descobrir o mundo. Isto é muito gratificante.

(Entrevista realizada em 2004)

asa-6abrilSinopse de “6 de abril’96″
«Numa manhã de Verão, na igreja milanesa de San Marco, uma jovem e belíssima mulher é brutalmente atacada. Quando desperta da delicada cirurgia a que foi entretanto submetida tem perante si a difícil tarefa de recuperar a sua própria identidade, já que a violência de que foi vítima lhe provocou a perda da memória. As recordações avivam-se pouco a pouco e é penosamente que ela recompõe a sua história e a da sua família. Mas é um processo doloroso, pois Irene Cordero – é este o seu nome – carrega consigo uma pesada herança. Já a mãe e a avó haviam pago caro as tentativas de seguir os ditames do seu coração, violando a moral, as convenções e a cultura de um mundo rural que as obrigava à submissão e à obediência; um doloroso estigma que tão-pouco poupa Irene que, com apenas dezoito anos, abandona o campo e parte em busca do seu próprio caminho. Porém, não obstante o sucesso profissional e o bem-estar económico, Irene não consegue encontrar o equilíbrio emocional. Será necessária uma crise profunda para que ela encontre forças para se renovar, para fazer as pazes com o passado e para aguardar o amanhã com serenidade e confiança.»

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