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“30 Anos de Mau Futebol” – João Pombeiro, com ilustrações de Pedro Vieira

20/12/2009 · Deixe um Comentário

30 Anos de Mau Futebol, de João Pombeiro (com ilustrações de Pedro Vieira e editado pela Quetzal) é sem dúvida um livro extremamente útil para quem quiser compreender o futebol português. Apesar de se chegar a esse entendimento (pelo menos parcial) através de diversão, mesmo a brincar, a brincar dá para vislumbrar muita coisa séria lendo estas 150 páginas organizadas perlo jornalista João Pombeiro. Mas o melhor é orientar mesmo a leitura para a diversão e deixar de pensar que com protagonistas como os aqui presentes realmente seria difícil ao futebol português estar numa situação melhor.
Convém esclarecer que este livro de João Pombeiro não se limita a reproduzir aquelas frases ditas a quente por jogadores e treinadores e que muita gente já sabe de cor, dado que são exibidas frequentemente, por exemplo na Internet. O que João Pombeiro fez foi analisar e estudar trinta anos de jornais (essencialmente) e para de lá extrair citações, pensamento, previsões, promessas acusações, etc., proferidas por futebolistas, treinadores, dirigentes, adeptos, etc., relativas ao mundo do futebol. O autor faz o devido enquadramento das citações reproduzidas, permitindo ao leitor fazer uma leitura mais abrangente das mesmas. Dividiu o livro em doze capítulos temáticos, apresentando uma nota introdutória em cada um deles. São notas inteligentes e divertidas, com um sentido de humor implacável, que foi também aplicado nos comentários elaborados para todas as citações dos maiorais do nosso futebol.
30 Anos de Mau Futebol é portanto um livro de leitura muito agradável, uma excelente prenda para quem gosta de futebol, para apreciar sem clubismo ou clubites – aqui são todos tratados de forma igual pois no que toca a disparates há um equilíbrio muito grande no futebol nacional.
Na apresentação do livro que decorreu na Fnac do Norteshopping (Matosinhos) em meados de Dezembro de 2009, o comentador Luís Freitas Lobo alertou que o conteúdo de 30 Anos de Mau Futebol pode parecer relativo a um “freak-show”, mas, entende, «pode levar a ver o futebol de uma maneira diferente». Realçou que a constante «exposição pública» dos agentes do futebol leva a que se «corra o risco de dizer algo menos interessante». Aliás, o próprio Luís Freitas Lobo, analisando com muito humor a obra, confessou que a leu com «perplexidade, interesse e perturbação.» «No final quase fiquei deprimido porque não tinha uma única frase minha. Tenho-me esforçado», fez notar.
Justificou ainda o facto de o futebol gerar tantas paixões por, em seu entender, ser como um filme: «Em 90 minutos, há medo e coragem, alegria e tristeza.»

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Porta-Livros comemora primeiro aniversário a 15 de Dezembro

15/12/2009 · 4 Comentários

O Porta-Livros assinala hoje (15 de Dezembro de 2009) o seu primeiro aniversário e, portanto, como manda a tradição, é hora de balanços, estatísticas e agradecimentos.
Antes de mais, os agradecimentos, começando, naturalmente, por todos aqueles que já visitaram o blog, uma ou mais vezes. Espero que tenham gostado de cá vir e voltem sempre! Uma palavra especial para os mais de 1150 amigos que seguem o Porta-Livros no facebook.
Agradeço também às editoras sempre prontas a colaborar, quer através do envio de livros, quer cooperando na organização de passatempos, quer facilitando o contacto com os autores para a realização de entrevistas. Aqui, claro, tenho de agradecer aos próprios autores que se disponibilizaram para conversar com o Porta-Livros. 
Devo também agradecer aos blogs/sites “concorrentes”/colegas toda a divulgação que têm dado ao Porta-Livros.

Rui Azeredo

E agora, vamos aos números! 

Posts publicados – 785
Total de visitas – 127 834
Média semanal – 2 458
Média diária – 350
Dia com mais visitas – 12 de Novembro 2008 – 2 045

Mês com mais visitas – Novembro 2008 – 19 964 

Top 5 Posts mais visitados
1.º - “Nómada” – Stephenie Meyer (crítica)
2.º - Margarida Rebelo Pinto apresenta “O Dia em que te Esqueci” a 25 de Novembro (notícia)
3.º - “No teu Deserto” – Miguel Sousa Tavares (crítica)
4.º - “No teu Deserto”, o quase romance de Miguel Sousa Tavares, sai a 7 de Julho (notícia)
5.º - Júlia Pinheiro apresenta romance “Não sei Nada sobre o Amor” a 16 de Abril em Lisboa (notícia) 

Entrevistas mais visitadas
1.º -
Pedro Pinto, autor de “O Último Bandeirante”
2.º - Ana Sofia Fonseca, autora de “Angola, Terra Prometida”
3.º - Pedro Sena-Lino, criador do blog Escrita Criativa
4.º - Luís Miguel Rocha, autor de “A Virgem”
5.º - Rosa Montero, autora de “A Louca da Casa” 

Críticas mais visitadas
1.º - “Nómada” – Stephenie Meyer
2.º - “No teu Deserto” – Miguel Sousa Tavares
3.º - “O Mágico – Os segredos do Imortal Nicholas Flamel” – Michael Scott
4.º - “O Planalto e a Estepe” – Pepetela
5.º - “Justine” – Lawrence Durell

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“A Cabana”, um candidato assumido a best-seller que nasceu numa edição familiar

30/09/2009 · 1 Comentário

pe-cabasup“A Cabana”, romance do canadiano Wm. Paul Young que será posto à venda pela Porto Editora em Portugal a 2 de Outubro, tem tudo para ser um best-seller e se não o for é que será de estranhar. O livro só nos Estados Unidos vendeu mais de sete milhões de exemplares, enquanto no Brasil atingiu a marca de um milhão. A ter em consideração as 500 encomendas registadas nas primeiras vinte e quatro horas em que esteve em pré-venda na livraria on-line Wook nada de estranho irá acontecer: será mesmo um best-seller.
E a Porto Editora tem-se esforçado para que o objectivo seja alcançado. Foi criado um sítio oficial na internet – www.acabana.pt – e um perfil no Facebook (já com perto de mil “amigos” em 30 de Setembro) –www.facebook.com/acabanaportugal –, tendo sido distribuída aos media com a devida antecipação uma edição especial de “A Cabana” (ver imagem mais pequena). Este é um comportamento pouco comum entre as editoras portuguesas mas de extrema utilidade. Os críticos ou opinantes de livros têm assim tempo de conhecer a obra antes de a mesma ser lançada ao público, permitindo que escrevam sobre ela em tempo útil. Com a velocidade a que os livros se devoram uns aos outros nas estantes das livrarias e derivados, quando o crítico/opinante divulga o seu parecer sobre a obra já está perdeu o efeito novidade e o leitor passou para outra.
A táctica parece ter resultado, pelo menos na blogosfera já há vários textos sobre a obra. Pode ler já a seguir alguns deles:

Estante de Livros: http://estante-de-livros.blogspot.com/2009/09/cabana_28.html

Planeta Márcia: http://planetamarcia.blogs.sapo.pt/60562.html

BiblioMigalhas: http://bibliomigalhas.blogspot.com/search?q=Cabana

Marcador de Livros: http://marcadordelivros.blogspot.com/2009/09/cabana-wm-paul-young.html

Bookshelf da Betita: http://betita-bookshelf.blogspot.com/2009/09/cabana-de-wm-paul-young.html

pe-cabana1O livro, como qualquer boa história de sucesso na vida, nasceu pobre e humilde. O autor, Paul Young (não se assustem, não é o cantor pop que nos atormentou nos anos 80), começou a escrever “A Cabana” em 2005, com o objectivo de explicar aos seus seis filhos como lidou com as tragédias que lhe assolaram vida. Fez algumas cópias (15) e ofereceu a obra a alguns familiares e amigos. Só que algumas pessoas, tocadas pelo conteúdo do romance, começaram a pedir mais cópias para oferecer a mais gente e este “sucesso” levou Paul a pensar que poderia fazer chegar a sua mensagem a maiores públicos. Ajudado por um amigo, criou uma pequena editora, destinada a produzir uma edição de autor de “A Cabana”. Os passos seguintes já deu para perceber quais foram, tendo em conta os milhões de exemplares vendidos.
Quanto ao conteúdo do romance, afinal de contas o essencial, trata-se da descrição de uma sui generis conversa com Deus encetada pelo protagonista (Mack), que, naturalmente, é tudo menos crente, dado que passara recentemente pela provação de perder uma filha ainda criança. Quando passava férias com a família na floresta, no Oregão, a filha mais nova, Missy, foi raptada e brutalmente assassinada, segundo indicaram as provas encontradas numa cabana abandonada. Quatro anos mais, tarde, Mack, eternamente deprimido, recebeu um bizarro bilhete escrito por Deus que o convidava a visitar a tal cabana. Apesar de toda a sua descrença, resolveu aceitar o convite e deslocou-se lá. Aceitou assim participar em dois combates distintos, reviver o desaparecimento da filha e, ao mesmo tempo, tentar dialogar com Deus.
Como seria de esperar, as suas reservas eram infundadas e foi mesmo estabelecido contacto com Deus, mas não da forma que os crentes estão habituados a aceitar. O autor, através dos diálogos de Mack com Deus e Jesus, levanta uma série de questões destinadas a fazer o leitor pensar e a reequacionar a sua relação com as entidades superiores. O livro está escrito de uma forma clara, directa e simples e consegue colocar no papel as dúvidas de cada um na sua relação (ou falta dela) com Deus, sugerindo uma série de respostas que agradarão, sem dúvida, a quem já está aberto a uma mudança na sua vida e sedento de soluções para o incompreensível. Contudo, para ser honesto, tenho de confessar que comigo não resultou. Deus continua a não fazer parte das minhas crenças e nem por um momento “A Cabana” me levou a equacionar fosse o que fosse. Mas cabe a cada um encarar o romance como quiser. Como isso mesmo, um romance, como uma luz, como um abrigo, como um livro a evitar. Mas isso afinal é o que se passa com todos os livros, certo? E, no fim de contas, dá sempre bons motivos para animadas conversas. 

O autor
pe-paulyWm. Paul Young nasceu no Canadá e foi criado pelos pais missionários numa tribo nas montanhas do que era a Nova Guiné. Uns anos mais tarde, as mortes do irmão mais novo e de uma jovem sobrinha deixá-lo-iam completamente destroçado.
Há cerca de ano e meio, Wm. Paul Young tinha três empregos mas hoje em dia a sua vida deu uma enorme reviravolta. Actualmente, vive com a família no estado de Oregão, nos EUA.

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Antóno Lobo Antunes fala de “Eu Hei-de Amar Uma Pedra” (Dom Quixote)

09/07/2009 · Deixe um Comentário

dq-alaAntónio Lobo Antunes esteve numa noite de Novembro de 2004 no Grande Hotel do Porto rodeado de amigos e admiradores para apresentar o seu romance “Eu Hei-de Amar Uma Pedra” (Dom Quixote) e ao mesmo tempo celebrar o 25.º aniversário da sua carreira literária.
“Não posso estar sem escrever, a vida fica sem sentido”, foi uma das frases-chave da noite. Sobre “Eu Hei-de Amar Uma Pedra”, Lobo Antunes revelou tratar-se de uma história de amor. “Não há nada mais difícil de escrever do que uma história de amor”.
Lobo Antunes confessou ter sido a primeira vez que escreveu baseado numa história verdadeira. Num hospital, “estava a fazer um exame e vi passar uma senhora de oitenta e tal anos, muito direita, com os olhos azuis”, contou. “Era uma senhora pobre, uma camponesa, de uma aldeia ao pé de Cantanhede”, completou. Então, o médico que lhe fazia o exame contou a história da idosa. Em resumo, é a que se segue: aos 16 anos apaixonou-se por um rapaz da aldeia, tendo namorado sempre em frente à janela. Depois foi viver para Lisboa, onde ficou à guarda de umas tias velhas – “para tomar conta da virgindade”, apimentou Lobo Antunes –, tal como o rapaz se mudou para a capital. Aos 17 anos a rapariga ficou doente e foi internada em Coimbra, onde recebia cartas do seu apaixonado, mas às quais não respondia com medo de contagiá-lo. Sem resposta, o rapaz (que trabalhava na Rodoviária Nacional e estudava Direito), desistiu dela. Acabou por casar e ter filhos. Dez anos mais tarde reencontram-se. O casal desfeito pelos azares da vida passou a encontrar-se todas as quartas-feiras numa hospedaria de Lisboa entre as três e as seis da tarde – o que sucedeu durante 53 anos! O homem acabou por morrer na hospedaria na companhia do seu amor de sempre, que para evitar escândalos à família do falecido (alto quadro da RN) tudo fez para que o corpo fosse retirado do local discretamente. Não foi ao velório nem ao funeral. Entrou em depressão, foi hospitalizada e um dia passou à frente dos olhos de Lobo Antunes, que ganhou uma ideia para um romance.

“Problemas técnicos”
Falar mais sobre o romance tornou-se uma missão impossível para o autor: “O livro é o que está escrito nele”. Disse apenas que, ao escrever, o único obstáculo que enfrenta “são os problemas técnicos”. “Quando começo um livro não tenho nada, mas depois existe coerência neles, e isso espanta-me”, acrescentou, revelando que “o livro foi-se construindo e estruturando sozinho”.
No final surgiu o título, retirado de uma moda do século XIX que Vitorino costuma cantar.
Neste ponto o autor não resistiu a falar de José Saramago. “Ele diz que começa pelo título. Não entendo”, disse Lobo Antunes, referindo que tal é como dar um nome a uma criança antes de saber se é menino ou menina. Bem-disposto, aproveitou ainda para falar dos grandes escritores com ironia: “Os escritores, sobre os clássicos, nunca dizem: ‘estou a ler’, dizem ‘Estou a reler’”, enfatizando a frase com voz grave.
Por fim falou das suas influências literárias, recordando os tempos em que lia, com o pai, a página de necrologia do Diário de Notícias, assim como livros do Mandrake, Flash Gordon e Júlio Verne.

Horror na guerra colonial
Aproveitando a presença de dois amigos do tempo da guerra em Angola, quis recordar algo que muitos negam hoje em dia: os bombardeamentos  com Napalm, as lavras envenenadas e o facto de exército ter Anthrax. “Um dia talvez se deva fazer a história dessa coisas terríveis”.

MINI-ENTREVISTA

dq-eu hei-deAntónio Lobo Antunes, após a apresentação no Porto de “Eu Hei-de Amar Uma Pedra”, acedeu a conversar uns minutos. Falou essencialmente sobre o que significa para si o acto de escrever, a dificuldade que tem em escrever e a relação que mantém com as suas obras, as quais considera fáceis de ler. Lobo Antunes aproveitou para agradecer aos leitores portugueses: “Têm sido muito generosos”.

Arnaldo Saraiva disse na apresentação que os seus livros não podem ser lidos de uma forma leviana, são complexos. Como explica o seu sucesso com os baixo níveis de leitura em Portugal?
Eu não sei o que ele entende, que acepção tinha da palavra na altura em que estava a falar.

Mas concorda que os seus livros não são fáceis de ler?…
Não, não concordo. Para mim são tão claros que me faz confusão que as pessoas não o achem. Por exemplo, em países da América Latina às vezes dizem que os livros são difíceis. Não percebo que sejam difíceis, não me parece que sejam difíceis.

E como se sente ao ter tanto sucesso em Portugal (e não só) ao fim de 25 anos de carreira literária?
Isso não sei. As pessoas têm sido muito generosas para mim, as pessoas do meu país, e estou-lhes muito grato por isso.

Ao escrever um livro pensa que é só para si, que é para entreter quem o lê ou pretende deixar uma marca?
Quando estou a escrever um livro não estou a pensar em nada. Só a pensar em como resolver os problemas que a cada passo o livro põe. Não sei como se passa com os outros.

Quando escreveu o seu primeiro livro –  “Memória de Elefante” – já era assim?
Na altura eu era outra pessoa e a nível da literatura era outra também, portanto é difícil falar de um livro que foi escrito quando tinha 36 anos. Sei que demorou muito tempo a escrever.

Agora é mais fácil do que nessa época?
Não, o tempo é o mesmo, levo dois, três anos para fazer um livro. Para mim é muito difícil escrever. Eu penso que é muito difícil escrever, de qualquer maneira.

Quando sentiu que estava preparado para ser um escritor?
Bom, sabe, havia um grande pintor japonês que com 80 anos disse: “Se Deus me tivesse dado mais cinco anos de vida eu tinha-me tornado um pintor”. Julgo que é a única resposta possível. Uma coisa é ser escritor, outra coisa é escrever livros. São duas coisas distintas.

Está satisfeito com a sua carreira até agora?
Não, se estivesse satisfeito já tinha parado. Sabe, a cada livro uma pessoa tenta ir mais longe naquilo que penso que deve ser um romance. De qualquer forma por muito bem aceite que o nosso trabalho seja nunca atingimos aquilo que queremos.

O que sente quando acaba de escrever um livro? Sente que perde um amigo?
Não, porque nessa altura já não somos amigos. Normalmente aquilo que penso é: Será que terá sido este o último ou serei ainda capaz de escrever outro? Porque nunca sei se sou vou ser capaz de voltar a escrever outro.

Mas já está a escrever um novo?
Estou, mas preciso ainda de muito trabalho ainda, mais dois anos de trabalho.

 (Artigo e entrevista realizados em 2004)

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“Lucky Luke no Quebeque”, um virar de página

27/06/2009 · Deixe um Comentário

asa-quebeque“Lucky Luke no Quebeque” vai, inevitavelmente, marcar a vida de um dos mais prestigiados e clássicos heróis da banda desenhada internacional: Lucky Luke.
Perto de completar cinquenta anos – e já no 72º álbum –, o cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra aparece renascido neste álbum depois de alguns anos de estagnação, correspondentes à última fase da vida do seu criador, Morris.
Chegou agora a Portugal (através das Edições ASA) o primeiro resultado da nova aposta da editora francesa Dargaud para dar vida ao dono de Jolly Jumper, “Lucky Luke no Quebeque”, no original “La Belle Province” – trata-se de um trocadilho, já que tanto identifica a província francófona do Canadá como a égua (Province) pela qual Jolly Jumper se apaixona.
A 25 de Outubro de 2004, quase na hora do regresso a França após uma breve passagem por Portugal, os autores do “novo” Lucky Luke, Laurent Gerra (argumento) e Achdé (desenho) conversaram comigo (via telefone e em trânsito para o aeroporto) sobre a experiência de trabalhar uma aventura de tão notável personalidade da BD.
Gerra – mais conhecido em França pela sua condição de humorista de TV e rádio – revelou que a princípio “disse não” ao convite: “O meu ‘métier’ não era esse”. Contudo, depois de pensar melhor, achou que se fosse formada uma “boa equipa” o caso poderia mudar de figura. Finalmente, aceitou o desafio “porque havia uma boa ideia”, disse, reportando-se à pretensão de situar a história no Quebeque (província francófona do Canadá), fazendo um paralelo com a história dos irredutíveis gauleses de Astérix.
“Conhecia uma pessoa na Dargaud e acabou por convencer-me. Assim, em vez de fazer o que seria habitual como passo seguinte, o cinema, fui para a banda desenhada”, explicou.
Gerra mostrou-se satisfeito também com a parceria com Achdé: “Ele faz uns desenhos dinâmicos, com cenários ricos”, reconhecendo aqui, implicitamente, que os últimos anos do herói andavam longe do seu auge.
O entendimento entre ambos foi fácil: “Fui ajudado pelo meu desenhador preferido, não foi preciso andar a golpes de pistola” (risos).
Gerra entende que Lucky Luke é um herói com um grande futuro à sua frente, que terá um sucesso não apenas sustentado nos fãs do passado mas também nas novas gerações.
Quanto a “Lucky Luke no Quebeque” ficou “contente” com o resultado final, embora reconheça que há coisas a melhorar. “Mas aí também é o público que tem de dar uma resposta”, elucidou.
Já o desenhador Achdé reconheceu a dificuldade de “suceder a um mestre da BD como Morris, que já tinha inventado tudo”. Mas explicou que não podia recusar o desafio porque “antes de ser desenhador já era um admirador”.
“Era uma grande responsabilidade”, reconheceu, mas ao mesmo tempo “um sonho de criança”. E adiantou que era “um desafio, um exercício difícil, mas acima de tudo, um prazer”.
Achdé não se sentiu limitado por ter de desenhar uma personagem já existente e tão carismática e considera mesmo que lhe abriu “novos horizontes”.
“Onde é que eu iria desenhar um cavalo?”, questionou ironicamente.
Paralelamente, deu-lhe um prazer imenso constatar “a reacção do público, como aconteceu aqui em Portugal, no Canadá, na Escandinávia, em França”.
Achdé pretende dar um cunho próprio à personagem, mas sabe que não pode mexer muito na tradição. No entanto, admite que haja “pequenas modificações, tal como fazia Morris ao longo dos anos”. As suas maiores alterações serão a nível de “enquadramento, como no cinema, com câmaras e planos mais ousados”. Uma coisa garantiu: “Tudo farei para continuar a dar prazer ao público”.
Um dos objectivos será devolver a Lucky Luke o glamour e fama que já teve nas décadas de 60 e 70 do século XX. A inclusão de novas personagens está também prevista, tais como “índios, mexicanos, personagens reais do Oeste”, mas sem a pretensão de “mudar tudo”.~
Três anos após a morte de Morris e 17 após a de Goscinny, Lucky Luke e companhia estão em excelentes mãos. “Lucky Luke no Quebeque” é apenas a primeira prova.
Trata-se de um álbum com uma boa história base e outras secundárias de grande humor – como a da paixão de Jolly Jumper pela égua Província – ilustrada com vivacidade e movimento, um nível que parecia já perdido na série. Grande aventura de Lucky Luke no Canadá (atrás de um velhaco que pensa que o dinheiro compra tudo), onde aparecem personagens baseadas em personalidades reais como Levy Strauss (inventor dos jeans) e Celine Dion (aqui retratada como uma cantora de “gritos”).

asa-achdeAchdé (Desenhador)
Achdé, o novo desenhador de Lucky Luke, nasceu em 1961 em Lyon (França), tendo por verdadeiro nome Hervé Darmenton. Com apenas três anos desenhou a sua primeira aventura, a de um valente cavaleiro que salva uma dama. Seis anos mais tarde comprou o seu primeiro livro de BD, ”Lucky Luke Contre Phil Defer”.
Aos 14 anos, publicou a sua primeira banda desenhada numa fanzine e é nessa altura que decide que vai tornar-se autor de BD. Problemas na Matemática levam-no a desistir dos estudos e vai trabalhar como manipulador de ecrãs num consultório de radiologia. Depois montou um estúdio de criação e uma agência de publicidade em Nîmes, passando ainda a desenhar para o Midi Libre e outros jornais.
Em 1988, publicou o seu primeiro Destins Croisés e assinou em 1991 o primeiro contrato na Dargaud.
Em 1993 lançou a série humorística CRS=Détresse.

asa-gerraGerra (Argumentista)
Laurent Gerra é o humorista mais popular de França e tem desde jovem uma grande paixão pela banda desenhada.
Nasceu em Bourg-en-Bresse, França, em 1967, onde na casa de família possui uma vasta colecção de BD. Conhecido pelos seus trabalhos humorísticos na rádio e na televisão, aceitou o desafio da banda desenhada e com afinco preparou o seu primeiro argumento: “Lucky Luke no Quebeque”.

 (Artigo concebido em 2004)

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O Nascimento de James Bond – 007

18/01/2009 · 2 Comentários

01f/29/arve/g1942/029casino_royl-1-edicao3James Bond apareceu há 56 anos no mundo literário pela mão de Ian Fleming (foto ao lado). Conta John Pearson, um dos biógrafos de Fleming, que o agente secreto veio ao mundo no dia 15 de Janeiro de 1952. Esse terá sido o dia em que foi criado 007, personagem do livro “Casino Royale”, obra acabada de escrever a 18 de Março desse ano (capa da primeira edição na imagem acima). Quando concebeu esta história Fleming vivia na Jamaica, numa espécie de exílio dourado.

Logo nas primeiras páginas de “Casino Royale” (que só viria a ser oficialmente transposto para o cinema em 2006) surgem os traços de personalidade que haveriam de acompanhar James Bond para o resto da vida: um homem de olhar frio, sempre ao volante de bons carros (no caso um Bentley 4.5, de 1933), amante de champanhe, martini e bons cigarros e portador de uma arma discreta e eficaz. Por fim, um homem sempre acompanhado por mulheres bonitas.

Ian Fleming casou poucos dias depois de criar 007 e mais tarde enviou o manuscrito a um amigo, William Plomer, poeta que trabalhava na editora Jonathan Cape Ltd. Plomer gostou do que leu e a editora comprou os direitos do livro. Fleming não podia estar mais satisfeito, afinal tinha deixado o seu emprego (nos serviços secretos britânicos) para se dedicar a cem por cento à tarefa de escrever a melhor de todas as histórias de espiões, e as coisas estavam a resultar.

Fleming tinha sido também jornalista da Agência Reuters antes da II Guerra Mundial e foi aí que aprendeu a escrever com precisão e concisão, duas características dos livros de 007.

As críticas a “Casino Royale” foram favoráveis e Fleming deu seguimento à série com “Live and Let Die” (“Vive e Deixa Morrer”). A seguir começou a trabalhar como colunista no Sunday Times, função que lhe permitiu somar ideias, novidades e teorias, aptas a serem usadas nas aventuras de 007.

Moonraker” e “Diamonds Are Forever” foram de seguida grandes sucessos de vendas no Reino Unido e nos Estados Unidos. Mas o boom surgiu com “From Russia With Love”, uma obra muito detalhada onde eram descritos pormenorizadamente os métodos de trabalho dos serviços secretos soviéticos. Ao sucesso de vendas aliou-se o sucesso junto da crítica e o escritor pôde contar ainda com a “mãozinha” do presidente norte-americano John F. Kennedy. É que JFK incluiu “From Russia With Love” na sua lista de dez livros preferidos de 1961.

Fleming, que sofreu um ataque de coração em 1961, antes de morrer em 1964, ainda editou “Dr. No” (“Agento Secreto”), “Goldfinger”, “For Your Eyes Only”, “Thunderball”, “The Spy Who Loved Me”, “On Her Majesty’s Secret Service”, “You Only Live Twice”, “The Man With de Golden Gun” e “Octopussy”.

Mas o agente secreto 007 não “morreu” com Fleming e outros autores deram continuidade às aventuras de James Bond. Kingsley Amis, Christopher Wood, John Gardner, Raymond Benson e agora Sebastian Faulks foram escritores que herdaram Bond, embora em alguns casos os romances tenham nascido dos argumentos criados para os filmes.   

Os herdeiros de Fleming

Antes de a Fundação Ian Fleming ter contratado Sebastian Faulks (um autor já consagrado) para escrever “A Essência do Mal”, o escritor ao serviço de James Bond era Raymond Benson, que, nomeadamente, assinou “Morre Noutro Dia”, uma edição das Publicações Europa-América.

A Europa-casino-bico-pena1América foi, aliás, durante largos anos, a responsável pela edição portuguesa das obras de 007, Assim, só de Benson lanço “O Mundo Não Chega”, “O Amanhã Nunca Morre”, “Os Factos da Morte” e “Nome de Código: Filhos do Apocalipse”. Estes dois últimos não foram transpostos para o cinema.

John Gardner é outro dos autores presentes no catálogo da Europa-América através de uma vasta obra composta na sua maioria por livros que não foram feitos a pensar na sétima arte. “De Novo Ordem para Matar”, “Scorpius”, “Vencer Perder Morrer”, “Ice–Breaker”, “Garra Quebrada”, “Nunca Mandem Flores”, “Goldeneye” e “Operação Mar em Chamas” são alguns dos títulos disponíveis.

Ultimamente, a Bico de Pena começou a lançar em Portugal as obras do próprio Ian Fleming e depois de ter arrancado com “Casino Royale” (imagem em cima à esquerda), já editou “Vive e Deixa Morrer” e “O Agente Secreto”.

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