O thriller de espionagem Jogo Duplo, do norte-americano David Ignatius, autor de Corpo de Mentiras e Os Agentes da Inocência (tudo edições da Bertrand), é mais um bom exemplo de obras de ficção de espionagem, este tendo por pano de fundo a conturbada relação entre os Estados Unidos e o Irão. Como seria de esperar tem um final repleto de reviravoltas, com a particularidade de não retirarem credibilidade ao enredo, o que é um ponto fundamental em obras deste género, onde bastas vezes a obrigatoriedade de “baralhar” o leitor leva o autor a criar situações no mínimo ridículas.
O jornalista e romancista David Ignatius, que já dera provas de conhecer bem os meandros das agências secretas do seu país, escolhe para tema deste romance algo que muito diz aos americanos: o temor de que o Irão se dote de armamento nuclear. Só que esse receio pode levar a decisões intempestivas e precipitadas, como aconteceu com o Iraque, e se uns desejam a toda a força declarar guerra ao Irão, outros há que tendem a ser mais cautelosos, não vendo em tudo um pretexto para avançar por essa via. Ignatius joga bem com essa dualidade que se vive dentro do próprio establishment americano e sob o pretexto de uma obra de ficção alerta para os perigos de uma má opção, não deixando de ser muito crítico face a certos sectores fortes do seu país.
O protagonista desta história é o agente da CIA Harry Pappas, que na sua agência recebe uma mensagem de um cientista iraniano anónimo relativa aos avanços do Irão em termos de armamento nuclear.
Ignatius vai intercalando no enredo as duas partes em conflito. De um lado, vê-se o efeito que as mensagens do misterioso “aliado” têm no seio do governo norte-americano, e do outro acompanhamos o dia a dia de um cientista que resolveu passar para o outro lado e que vive atormentado com a possibilidade de ser descoberto antes que os seus novos amigos o resgatem.
Mas a missão de Pappas em resgatar o novo aliado não é fácil, já que a prioridade do seu governo, constata, é arranjar pretextos para atacar o Irão. Pappas, céptico quanto a essa via (até porque perdeu um filho numa guerra que evoluiu de uma situação idêntica, no Iraque) entende que as mensagens secretas permitem verificar que o Irão está no caminho errado e que não constitui um perigo imediato. À margem dos seus governantes, acaba por se aliar aos ingleses, melhor colocados no terreno (Irão) e também eles descrentes na opção bélica.
O objectivo dele é resgatar o “Dr. Ali” – assim ele próprio se nomeou –, para poder provar aos seus superiores que não é necessário à América entrar em mais um conflito potencialmente desastroso.
O livro é bastante descritivo e termos da preparação das operações, algo que, de certa forma, é compensado por uma ponta final verdadeiramente trepidante – parece que Ignatius quis condensar ali toda a emoção. No entanto, o livro talvez ganhasse algum equilíbrio se a dita acção pura e dura arrancasse mais cedo. Contudo, não deixa de ser interessante (e nunca é aborrecido) conhecer os meandros da diplomacia e da política, nomeadamente para tentar perceber como as coisas funcionam – e é de forma bem diferente da realidade que nos é apresentada pela comunicação social. Serve também para nos explicar como funcionam os mundos paralelos ao poder institucional, muitas vezes bem mais poderosos do que estes – pelo menos é aqui que encontramos as personagens mais interessantes de Jogo Duplo.
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