A Cidade do Medo, de Pedro Garcia Rosado e editado pela ASA, marca o início de uma aposta inovadora no mercado português, embora seja algo muito comum lá fora. Uma colecção de thrillers (Não Matarás) sempre com o mesmo protagonista, no caso o inspector Joel Franco, da secção de Homicídios da Polícia Judiciária. É uma série, mas não são histórias em continuação, pois cada uma delas tem princípio, meio e fim.
A primeira coisa que se deve dizer é que o início é prometedor. A Cidade do Medo é um thriller bastante interessante, que aborda temas actuais e mediáticos, uma das premissas da colecção, aliás. Confesso que não esperaria outra coisa, depois de já ter lido obras de Pedro Garcia Rosado como Crimes Solitários e Ulianov e o Diabo. As temáticas da actualidade (tráfico de droga, associação criminosa, os sem-abrigo, os marginalizados, o papel determinante dos media, os políticos) já lá estavam presentes, e assim continuam, reforçando os laços de “intimidade” do leitor com a obra de uma forma diferente do que aconteceria com um thriller estrangeiro.
Em A Cidade do Medo, o protagonista “mau” é um homem que orquestra um elaborado plano de vingança que vai deixar Lisboa em polvorosa, ameaçada que está por um serial-killer que parece não seguir as “regras” dos seus “colegas”, baralhando, dessa forma, as autoridades. O seu plano pretende atingir uns antigos parceiros de negócios que o tramaram no passado, obrigando-o a fugir para o estrangeiro – os negócios estavam relacionados com compra e venda de terrenos na Ota, aproveitando a construção, entretanto cancelada, do novo aeroporto. Ao vingar-se deles, vinga-se também da sociedade, pois eles ocupam a cargos importantes no governo, na cidade e nas autoridades.
Como há pessoas importantes envolvidas na vida do serial-killer, e no seu plano de vingança, a investigação acaba por ser prejudicada por dentro, sendo aí determinante o papel do “homem justo” Joel Franco, assim como da própria comunicação social, curiosamente a mais sensacionalista.
A acção desenrola-se a um ritmo intenso, intercalando o enredo propriamente dito com a “apresentação” das personagens. Aqui, neste último ponto, poderia esperar-se algo mais, pois por vezes a caracterização parece algo superficial, quando seria aconselhável um retrato psicológico mais profundo de algusn dos protagonistas. Mas, pelo menos, o autor evitou (e bem) recorrer ao mais normal nesta situações. Não temos aqui um herói solitário. Joel Franco tem uma mulher na sua vida e (pasme-se!) mantém uma boa relação com ela.
Os capítulos pequenos ajudam a segurar o leitor e os avanços e recuos no tempo são justificados e bem encaixados, permitindo compreender as motivações do serial-killer.
A escrita, simples e sóbria, ajusta-se ao tipo de resultado que se pretende com um thriller. A ideia não é chegar ao Nobel (ou a um Prémio Saramago, se quisermos ser mais “realistas”), mas sim ao público deste tipo de obras. A mim chegou-me e espero que se mantenha o projecto inicial de um livro por ano na Colecção Não Matarás.
Já agora, um aviso: se possível, evitem ler a sinopse divulgada pela editora. Penso que tem informação a mais e só se ganha se houver um pouco mais de mistério durante a leitura do romance.
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