Não é um caso único, não será sequer raro, mas, sem dúvida, que é, pelo menos, pouco comum. Explico melhor: encontrei (ou encontrou-me) um livro-documento muito bem escrito. Por norma, neste tipo de obras a preocupação é relatar uma história verídica, sem que se recorra a uma escrita demasiado elaborada e/ou literária. Os protagonistas não são “obrigados” a ter o dom da escrita, ou quem escreve por eles fá-lo sem o sentimento de quem verte uma história por si vivida ou, mesmo, imaginada – cumpre tão-só uma tarefa.
Tenho por hábito ler as primeiras páginas de livros que, à partida, não mereceriam a minha atenção imediata, só para saber a que “sabem”… e fui “obrigado” a embarcar no Tartan, barco que, como está bom de ver, dá nome a esta obra, Tartan – As Velas da Liberdade. José Eduardo Agualusa tem razão, “lê-se de um só fôlego, como quem lê um bom romance de aventuras”.
A obra, assinada a duas mãos por Nuno Silveira Ramos e Pedro Silveira Ramos e editada pela Albatroz, relata uma viagem de seis jovens que, em 1978, descontentes com a situação instável em Angola, embarcam (a 10 de Novembro) num veleiro de treze metros rumo a Portugal.
À primeira vista, pode não parecer uma coisa de outro mundo, mas, repare-se bem, estávamos em 1978 e não havia GPS – como instrumentos de navegação dispunham apenas de uma bússola, de um mapa rudimentar e de um rádio a pilhas.
Mas o livro não se limita, naturalmente, a relatar a viagem de barco – há descrições vivas (e vividas) do quotidiano de Luanda na época, da realidade da guerra, da transição da guerra colonial para a guerra civil. As dificuldades da vida naquela turbulência surgem obrigatoriamente nestas páginas, pois foi isso que espoletou o desejo de partida, depois de derrotada a esperança que persistia nos que por lá optaram por ficar após 1975.
A primeira parte do livro, depois de feito o enquadramento geográfico e histórico, é dedicada as preparativos, um relato detalhado pois, afinal de contas, dada a precariedade da vida na época, juntar o material e os mantimentos necessários foi um processo que durou meses. Os preparativos materiais são entremeados com o amadurecimento da ideia nas mentes dos seis jovens, que tiveram também de ser muito cuidadosos para que ninguém se apercebesse do seu plano de fuga.
Depois, surge a viagem, um relato cativante, onde não faltam tempestades, encontros (quase imediatos) com enormes navios, comércio com pescadores em pleno mar, golfinhos, tubarões e orcas, avistamentos de costas desconhecidas, uma passagem atribulada por Monróvia, outra mais sossegada por Las Palmas, até à chegada das velas da liberdade a Portimão, a 23 de Janeiro de 1979, após mais de dois meses de travessia do oceano.
O livro está recheado de termos náuticos, mas não em exagero, pelo que não prejudica a fluidez da leitura aos ignorantes na matéria – no final, um breve glossário ajuda os mais leigos.
Em suma, um rico livro de aventuras que, bem trabalhado, daria um excelente filme de aventuras.
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Media Literatura
Estive na apresentação e foi extraordinária! Parabéns!!!! Um boa viagem para ler e sonhar.
Este livro e uma homenagema a todos os refugiados que sofreram e foram humilhados quanda cairam em terras estranhas sem querer.
Conheci pessoalmente os autores e andei com todo o grupo fins de semana sem fim, a “treinar” as saídas do Tartan. Q saudades! Adoraria revê-los a todos. Vou já já já comprar o livro! Espero tenham um enorme sucesso nas vendas. Bem merecem!
Para todos um abraço imenso
Verónica
Q pena ñ ter sabido antes p/ ter ido à apresentação do livro e poder abraçá-los!
Feijão guizado com óleo de palma era o nosso almoço de sábado antes de nos fazermos ao mar.
E invariavelmente era a minha carga ao mar mal chegávamos a mar aberto, depois da sída da baía de Luanda!
Conheço os autores (e protagonistas) a quem já tinha ouvido um ou outro episódio desta aventura que faz lembrar (e é) uma aventura de “outros séculos”.
Assim que passar por perto de uma livraria onde encontre este livro não vou hesitar, entro, leio e compro.
Depois ainda vou ficar com mais saudades destes meus amigos do que aquelas que jé tenho e cvou ter de arranjar tempo para nos encontrarmos!
Abraço
Zé Paulo
Obrigado ao autor deste post que me foi enviado pela Porto Editora. Fico feliz por terem gostado e por encontrar aqui generosos comentários de amigos que partilharam a aventura e a memória do Tartan naqueles quentes dias de Luanda.
Li-o de uma assentada e gostei bastante! Está um relato mto bem conseguido e empolgante, mesmo p quem, como eu, já conhecia a história.
Fico à espera da segunda edição, revista. Tem algumas gralhas… mas o importante está lá! PARABÉNS!