Antóno Lobo Antunes fala de “Eu Hei-de Amar Uma Pedra” (Dom Quixote)

dq-alaAntónio Lobo Antunes esteve numa noite de Novembro de 2004 no Grande Hotel do Porto rodeado de amigos e admiradores para apresentar o seu romance “Eu Hei-de Amar Uma Pedra” (Dom Quixote) e ao mesmo tempo celebrar o 25.º aniversário da sua carreira literária.
“Não posso estar sem escrever, a vida fica sem sentido”, foi uma das frases-chave da noite. Sobre “Eu Hei-de Amar Uma Pedra”, Lobo Antunes revelou tratar-se de uma história de amor. “Não há nada mais difícil de escrever do que uma história de amor”.
Lobo Antunes confessou ter sido a primeira vez que escreveu baseado numa história verdadeira. Num hospital, “estava a fazer um exame e vi passar uma senhora de oitenta e tal anos, muito direita, com os olhos azuis”, contou. “Era uma senhora pobre, uma camponesa, de uma aldeia ao pé de Cantanhede”, completou. Então, o médico que lhe fazia o exame contou a história da idosa. Em resumo, é a que se segue: aos 16 anos apaixonou-se por um rapaz da aldeia, tendo namorado sempre em frente à janela. Depois foi viver para Lisboa, onde ficou à guarda de umas tias velhas – “para tomar conta da virgindade”, apimentou Lobo Antunes –, tal como o rapaz se mudou para a capital. Aos 17 anos a rapariga ficou doente e foi internada em Coimbra, onde recebia cartas do seu apaixonado, mas às quais não respondia com medo de contagiá-lo. Sem resposta, o rapaz (que trabalhava na Rodoviária Nacional e estudava Direito), desistiu dela. Acabou por casar e ter filhos. Dez anos mais tarde reencontram-se. O casal desfeito pelos azares da vida passou a encontrar-se todas as quartas-feiras numa hospedaria de Lisboa entre as três e as seis da tarde – o que sucedeu durante 53 anos! O homem acabou por morrer na hospedaria na companhia do seu amor de sempre, que para evitar escândalos à família do falecido (alto quadro da RN) tudo fez para que o corpo fosse retirado do local discretamente. Não foi ao velório nem ao funeral. Entrou em depressão, foi hospitalizada e um dia passou à frente dos olhos de Lobo Antunes, que ganhou uma ideia para um romance.

“Problemas técnicos”
Falar mais sobre o romance tornou-se uma missão impossível para o autor: “O livro é o que está escrito nele”. Disse apenas que, ao escrever, o único obstáculo que enfrenta “são os problemas técnicos”. “Quando começo um livro não tenho nada, mas depois existe coerência neles, e isso espanta-me”, acrescentou, revelando que “o livro foi-se construindo e estruturando sozinho”.
No final surgiu o título, retirado de uma moda do século XIX que Vitorino costuma cantar.
Neste ponto o autor não resistiu a falar de José Saramago. “Ele diz que começa pelo título. Não entendo”, disse Lobo Antunes, referindo que tal é como dar um nome a uma criança antes de saber se é menino ou menina. Bem-disposto, aproveitou ainda para falar dos grandes escritores com ironia: “Os escritores, sobre os clássicos, nunca dizem: ‘estou a ler’, dizem ‘Estou a reler’”, enfatizando a frase com voz grave.
Por fim falou das suas influências literárias, recordando os tempos em que lia, com o pai, a página de necrologia do Diário de Notícias, assim como livros do Mandrake, Flash Gordon e Júlio Verne.

Horror na guerra colonial
Aproveitando a presença de dois amigos do tempo da guerra em Angola, quis recordar algo que muitos negam hoje em dia: os bombardeamentos  com Napalm, as lavras envenenadas e o facto de exército ter Anthrax. “Um dia talvez se deva fazer a história dessa coisas terríveis”.

MINI-ENTREVISTA

dq-eu hei-deAntónio Lobo Antunes, após a apresentação no Porto de “Eu Hei-de Amar Uma Pedra”, acedeu a conversar uns minutos. Falou essencialmente sobre o que significa para si o acto de escrever, a dificuldade que tem em escrever e a relação que mantém com as suas obras, as quais considera fáceis de ler. Lobo Antunes aproveitou para agradecer aos leitores portugueses: “Têm sido muito generosos”.

Arnaldo Saraiva disse na apresentação que os seus livros não podem ser lidos de uma forma leviana, são complexos. Como explica o seu sucesso com os baixo níveis de leitura em Portugal?
Eu não sei o que ele entende, que acepção tinha da palavra na altura em que estava a falar.

Mas concorda que os seus livros não são fáceis de ler?…
Não, não concordo. Para mim são tão claros que me faz confusão que as pessoas não o achem. Por exemplo, em países da América Latina às vezes dizem que os livros são difíceis. Não percebo que sejam difíceis, não me parece que sejam difíceis.

E como se sente ao ter tanto sucesso em Portugal (e não só) ao fim de 25 anos de carreira literária?
Isso não sei. As pessoas têm sido muito generosas para mim, as pessoas do meu país, e estou-lhes muito grato por isso.

Ao escrever um livro pensa que é só para si, que é para entreter quem o lê ou pretende deixar uma marca?
Quando estou a escrever um livro não estou a pensar em nada. Só a pensar em como resolver os problemas que a cada passo o livro põe. Não sei como se passa com os outros.

Quando escreveu o seu primeiro livro –  “Memória de Elefante” – já era assim?
Na altura eu era outra pessoa e a nível da literatura era outra também, portanto é difícil falar de um livro que foi escrito quando tinha 36 anos. Sei que demorou muito tempo a escrever.

Agora é mais fácil do que nessa época?
Não, o tempo é o mesmo, levo dois, três anos para fazer um livro. Para mim é muito difícil escrever. Eu penso que é muito difícil escrever, de qualquer maneira.

Quando sentiu que estava preparado para ser um escritor?
Bom, sabe, havia um grande pintor japonês que com 80 anos disse: “Se Deus me tivesse dado mais cinco anos de vida eu tinha-me tornado um pintor”. Julgo que é a única resposta possível. Uma coisa é ser escritor, outra coisa é escrever livros. São duas coisas distintas.

Está satisfeito com a sua carreira até agora?
Não, se estivesse satisfeito já tinha parado. Sabe, a cada livro uma pessoa tenta ir mais longe naquilo que penso que deve ser um romance. De qualquer forma por muito bem aceite que o nosso trabalho seja nunca atingimos aquilo que queremos.

O que sente quando acaba de escrever um livro? Sente que perde um amigo?
Não, porque nessa altura já não somos amigos. Normalmente aquilo que penso é: Será que terá sido este o último ou serei ainda capaz de escrever outro? Porque nunca sei se sou vou ser capaz de voltar a escrever outro.

Mas já está a escrever um novo?
Estou, mas preciso ainda de muito trabalho ainda, mais dois anos de trabalho.

 (Artigo e entrevista realizados em 2004)

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