Pedro Sena-Lino, autor de “333”, um imaginativo e brilhante romance de estreia lançado pela Porto Editora, deu uma entrevista ao Porta-Livros após uma animada e concorrida sessão de apresentação que teve lugar no Clube Literário do Porto em meados de Junho. A grande ideia de “333”, conforme explicou, era fazer de um livro a grande personagem. Veja, pelas palavras do próprio poeta convertido em romancista, como isso foi conseguido. Para saber mais sobre o romance histórico “333” vá a http://portalivros.wordpress.com/2009/06/02/333-pedro-sena-lino/
Para começar, a pergunta mais óbvia: porquê esta obsessão com o “3”?
Naturalmente tem a ver com a representação que nós fazemos da completude da ideia da trindade. Mas aqui de facto tem a ver com obsessão de uma das personagens com o número de exemplares que tinha de imprimir. É uma personagem que descobre que está fascinado com três triângulos que viu na infância e percebeu que tinha de fazer três vezes o triângulo. A ideia é sugerir o infinito, mas também a infinitude de relações que se estabelecem entre os leitores e os livros.
Esta obsessão da personagem pelo “3” nasceu primeiro em si?
Sim, mas de facto a primeira coisa que aconteceu no livro foi pensar que tinha de ser 333. Depois, praticamente esta imagem apareceu sozinha, ou seja, de uma criança que vai ser o impressor e que vê uns triângulos a multiplicarem-se no tecto. E também não é por nada que nós estamos numa sala (Clube Literário do Porto) que tem dois triângulos enormes aqui em cima.
Apesar do livros ter bastantes personagens, o protagonista pode dizer-se que é o um livro. Como é que se faz um livro sobre um objecto?
Uma das brincadeiras era quase deixar o narrador em aberto, não dizer de facto quem era o narrador, e esperar que o leitor tivesse a dúvida. Porque a ideia era isso que você dizia, era tentar que a grande personagem seja o livro, e que todas as outras figuras que vão estando no livro vão desaparecendo sucessivamente, em que o mais essencial é que apareça a relação com o livro. Ou seja, pôr um livro a falar e a gerar relações entre si.
Tem a ambição que o seu livro consiga “perturbar” as pessoas como perturbou o livro de Soror Flâmula?
Eu existo porque houve livros que me perturbaram. Mas isso é uma coisa que eu acho que está na história de cada um e daquilo que o livro pede, da energia com que o livro foi criado. Sinto que não posso dizer isso, depende daquilo que o livro fizer dos seus leitores. O livro escolhe os seus leitores e tem coisas para lhes dizer. Agora gostava que, por exemplo, algumas pessoas que podem ler este livro pela primeira vez se sentissem marcadas por o ler. Isso era uma grande alegria, mas gostava que perturbasse e fizesse pensar. Quais é que são aquelas coisas que não são acontecimentos e que eu não vejo que são capazes de mudar completamente a minha vida? Não olhamos para isso muitas vezes. O Joseph Beuys dizia, e cito de memória, “o segredo da vidas está nas estações de comboio”, e a ideia é um bocadinho essa, o segredo da vida está em coisas que nós não consideramos grandes acontecimentos das nossas vidas mas que nos transformam.
Como é que se controla e gere tantas personagens como as que estão presentes em “333”?
Achei que era um teste à sanidade. Cada um tinha uma coisa para dizer, e procurava reproduzir. Pensei muitas vezes também: será que aquela pessoa que estou a escrever, que é uma personagem, não pode ser um leitor? Um antepassado de um leitor que está a ler o livro agora? Portanto, acabava sempre por imaginar quem estava no futuro e quem é que reencaminhava para o passado. Não foi difícil perder o pé. O mais difícil foi de facto estabelecer as relações propriamente romanescas entre as histórias grandes e as histórias pequenas, esses sim, esses fios foram mais complicados. Mesmo assim pareceu-me que havia linhas, rios tão claros que saíam de cada personagem que acabavam por se ligar entre si.
Acha que há a possibilidade de o próprio leitor se perder com tantas personagens?
Isso era um dos problemas que havia sempre no livro. É o leitor poder sentir que as perde. Entre os primeiros leitores alguns disseram isso. Mas se há essa distracção, ela reencaminha para o essencial, que é o que interessa, é a história do livro com a personagem, do que o livro é capaz de fazer a alguém. Isso parece-me mais interessante do que seguirmos o que cada personagem está a fazer.
Tratou-se da sua primeira experiência em romance. Já é capaz de estabelecer uma comparação entre a poesia e o romance?
Não foi a primeira experiência, eu escrevi outro romance que decidi não publicar. A história formou-se por si, eu não decidi: vou escrever um romance. Este segundo nasceu porque houve um tema que eu gostava de trabalhar no tal livro e achei que não cabia, portanto apareceu um livro seguinte para trabalhar essa história. A poesia não sou eu que a escolho, estou convencidíssimo que a poesia escolhe aqueles que quer que escrevam. Os romances são as histórias que nos aparecem para serem contadas. Eu acredito que são dois pontos completamente diferentes.
Optou neste romance por um registo diferente do habitual. Quando partiu para a escrita do romance já achava que ia ser diferente ou foi uma surpresa o caminho que seguiu?
O livro nasceu com a ideia das micro-histórias. Eu pensei sempre que ia dar um livro pequeno, um livro com microficções à volta daquilo. Depois percebi que as personagens tinham muito mais força. Não procurei ser original, a única originalidade foi colocar o livro como narrador, como centro acima de qualquer coisa.
O facto de dar aulas de escrita criativa serve para lhe colocar mais pressão em cima? Acha que as pessoas vão exigir mais de si?
Os meus alunos já me diziam: usaste aqui a técnica tal, puseste esta coisa… É lógico pensar isso: até que ponto prega bem frei Tomás? Claro que tentei que algumas coisas que fazem parte dos meus cursos, exercícios e técnicas que nasceram da minha experiência de escrita estivessem aqui. Não procurei isso por uma questão de coerência artificial, mas por uma coerência de facto. Há uma ligação entre essas duas coisas, mas naturalmente espero que aqueles alunos com quem tive o prazer de trabalhar sejam os críticos mais severos, e que possam ajudar-me a fazer a outra parte do processo.
Falou há pouco (na sessão de apresentação) de poesia que escreveu quando era mais novos e que agora lhe dão vontade de rir. Acha possível que daqui a uns anos, com outra maturidade, pode olhar para este romance e pensar: como é que eu fiz isto?
Gostava de poder saber isso. Admito que possa acontecer, mas também sei que o processo de trabalho e de depuração deste livro (claro que há sempre pequenas frases que refazíamos e mudávamos), a estrutura do livro, a ideia do livro, eu não a quereria mudar. Há sempre alguma coisa aqui que aguenta o resto. É uma das coisas que eu acho que caracterizam a minha geração. Nós, os poetas da minha geração, escrevemos um livro que têm já um tema. É uma coisa que não acontecia há vinte, trinta anos. Escolhem um título e trabalham uma questão só, são unitemáticos. Aqui acontece um pouco a mesa coisa, ou seja, poderá haver partes que queira rever, mas penso que a temática se aguenta com força.
Quando terminou este livro (ou outros anteriores) sentiu saudades das personagens ou, por outro lado, um certo alívio por se livrar delas?
A questão maior foi procurar preocupar-me o mais possível por tentar reflectir aquilo que esta história e este livro desta mulher queriam que eu fizesse. Há aqui uma ligação com a minha parte de investigação e com aquilo que eu tenho descoberto, que são textos excelentes de autoras perdidas e postas de parte, que não tiveram vida. A ideia é também tentar puxar o leitor para aí, alertá-lo para que isto aconteceu e é um atentado cultural gravíssimo que pode continuar a acontecer. Durante séculos destruímos mulheres escritoras e pusemo-las de parte. É tão grave como os talibãs terem destruído os budas.
Que parte lhe dá mais prazer; investigar ou escrever?
Aqui as duas questões estiveram muito ligadas. Como escrevi um livro em processo de investigação, a maior parte das questões ligavam-se entre si. Depois foi preciso estudar algumas relações laterais, mas que também tinham relevância para a minha investigação. Posso falar dessa experiência em relação ao romance novo, em que há períodos e áreas em que as personagens aparecem e tinham de viver em certos lugares, em certa circunstâncias, e isso implicou uma investigação sobre algumas coisas.
Como se gera a relação ente o que é realidade e a ficção. Há personagens reais em “333”, não receia alterar coisas que fizeram parte da vida dessas pessoas, ou por ser um romance há liberdade para fazer isso?
Os romances que trabalham personagens que eu penso que são dramáticos ou graves ou que não funcionam são aqueles que procuram distorcer ou destruir a energia de vida daquela pessoa e, portanto, do seu lugar. Se o tentam fazer a outra luz, são interessantes, são úteis, mas se tentam apequená-los, ou diminui-los, ou estragá-los…
Falou que já está a trabalhar num novo romance, o que se pode saber já sobre esse trabalho?
A ideia está definida e bastante escrita, já tenho mais de cem páginas. Não queria ainda muito falar sobre ele. Posso só dizer que trabalha uma questão que não trabalhei neste livro e que há ligações entre os dois livros. Mantém uma certa coisa que este livro tem: as relações entre as coisas que não são vivas e os seres vivos são às vezes muito mais fortes do que as relações ente dois seres vivos. Ou seja, uma relação entre um livro ou a vida que alguém teve anteriormente e que ficou plasmada num livro pode marcar mais que a relação entre os seres humanos.
1 response até agora ↓
Sandro Batista de Oliveira // 20/07/2009 às 4:16 PM |
Pode ser mera coincidência, mas as linhas dos destinos sempre se cruzam incidentes no intercurso entre o espaço e o tempo…