“O Coração das Trevas”, obra de Joseph Conrad, é um livro poderosíssimo, mas isso não é novidade para ninguém. É portanto uma aposta ganha para quem dedicar o seu tempo a lê-lo, esquecendo portanto a grande torrente de novidades que quase diariamente “alagam” as prateleiras das nossas livrarias. E se era preciso um pretexto para recuperar esta obra originalmente lançada em 1902, aqui está ele: a Dom Quixote lançou “O Coração das Trevas” na nova colecção Biblioteca António Lobo Antunes.
O fascínio por um homem que está ausente ocupa a maior parte da história, que nos é relatada pela voz de Marlow, protagonista de um extenso monólogo aos seus companheiros enquanto a embarcação onde estão viaja pelo Tamisa. Relata uma viagem que fez em tempos ao serviço da Bélgica através de um rio que chega ao coração de África. Nunca é declarada a exacta região por onde viajava, mas tratar-se-á por certo do Congo.
A missão de Marlow era transportar marfim, mas na verdade o que pretendiam dele era que fosse buscar Kurtz, um misterioso homem que criou uma tal reputação no coração da selva que se tornou praticamente num mito, tanto entre os brancos que exploram a região, como entre os negros nativos.
Kurtz terá uma personalidade difícil de definir e pelo que Marlow vai ouvindo, é-lhe impossível catalogá-lo. A diferença entre o Bem e o Mal em territórios hostis e sombrios como aquele que atravessa para ir procurar o “homem” é muito difícil de estabelecer.
Joseph Conrad, através do seu romance analisa profundamente a mente humana e a influência que o meio ambiente tem nesta, assim como o contrário, que é o que acontece no caso de Kurtz, nitidamente um homem superior ao meio envolvente.
Assim, a viagem através do rio africano é também uma viagem ao que há de mais recôndito num ser humano; permite ver como se comportam as pessoas perante situações de extrema adversidade. “O Coração das Trevas” é, portanto, um mapa dos comportamentos humanos perante determinadas situações hostis, e é curioso verificar a multiplicidade de comportamentos encontrados no enredo de Conrad.
A escrita de Conrad, simples mas dura, proporciona grandes momentos de leitura, nomeadamente quanto à descrição da deslumbrante paisagem africana. O leitor é envolvido num ambiente sufocante, húmido, cheio de nevoeiro e mistério, assustador.
E depois é curioso verificar que há coisas que se mantêm ao longo dos anos. Os exploradores de marfim querem evitar conflitos com os nativos não por os respeitarem, mas por não quererem dar má imagem, o que os prejudicaria na hora de angaria trabalhadores a baixo custo.
“O Coração das Trevas” – Joseph Conrad
04/07/2009 · Deixe um comentário
Categorias: Crítica
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