Artur Portela – Entrevista a propósito de “A Guerra da Meseta”

dq-arturportelaArtur Portela lançou recentemente “A Guerra da Meseta” (Publicações Dom Quixote), um romance de uma imensa criatividade (no argumento e na escrita) e beleza onde se encontra um pouco de tudo: História (é a Republica da Istmânia, mas tem tanto do nosso Portugal do antes-25 de Abril), guerra, jornalismo, censura, a força das relações familiares, a doença, etc. etc, etc. Em entrevista ao Porta-Livros Artur Portela falou do seu romance, e anunciou que a seguir vem uma ficção sobre a República.

Sendo uma obra com muito de autobiográfico, sendo uma história muito sua e muito “nossa”, porque optou por criar um país imaginário, a Istmânia? Deu-lhe mais liberdade para criar cenários, em vez de se limitar a contar histórias vividas ou recontar histórias que lhe chegaram aos ouvidos?
Você sabe, o imaginário pode ser mais real do que o próprio real. Embora desconcertantemente real. Mais mobilizador da sensibilidade, mais desafiador do próprio imaginário do leitor. Aqui um mistério, ali uma revelação, ali um reconhecimento. Aventura, por vezes, em estado puro. O leitor não tem de ser uma cobaia. O prazer não tem de lhe estar proibido. Ler pode ser um jogo.

Há aqui personagens baseadas em personagens reais, tanto da sua vida pessoal como figuras públicas, assim como histórias verdadeiras? Estão retratadas fielmente ou funcionaram apenas como ponto de partida?
Sim, mas também personagens irreais em situações reais e personagens reais em situações irreais. Fieis o livro e o narrador mas ao afecto, à surpresa, ao espanto, à descoberta. À ideia da própria participação dos leitores. Personagens e histórias são assim simultaneamente pontos de partida e de chegada. Sendo também um livro sobre o olhar do jornalismo, sobre a própria imagem supostamente objectiva que é a reportagem fotográfica. Sendo até talvez mais do que isso. Um livro sobre o olhar ele-próprio. Neste tempo sem pálpebras. Repare que o protagonista, em criança, cega de um olho. Num duelo à espada de madeira com um irmão.

Esta relação pai-filho que surge no romance é muito intensa, com uma intensidade por vezes superior ao próprio fio da meada da história. Assim, como catalogaria o seu livro: um romance histórico (fantasioso) ou um romance sobre relações familiares?
Ainda a montante do livro! A relação pai-filho é uma relação fulcral e decisiva em todos nós. Pai é origem, autoridade, ordem, regra. Podendo ser abertura, investimento afectivo, libertação. Mas podendo ser também tirania, censura, repressão. Daí que este livro possa ser simultaneamente um romance histórico e um romance sobre relações. Também familiares mas não só familiares. Sobre as relações em geral: amor, solidariedade, trabalho, criatividade, competição, sobrevivência. Que é aquilo que nos move, nos justifica, nos dói e nos exalta.

DQ-A_Guerra_da_MesetaQual é a sensação de se criar/construir um país (com História e Geografia), uma família, uma vida (como a de Max, por exemplo), através da escrita?
É a convocação do maravilhoso, do parabólico, do cenográfico. Um filme, uma festa, um drama, uma resistência, uma vitória. E é a partilha de tudo isso com os leitores. Gratificante se torna quando um Jorge Silva Melo diz, como disse na apresentação do livro, que aquele país, aquela cidade, aquele passado, são também os nossos. Reconhecemo-nos pelo menos em parte neles.

Este país e os seus habitantes, naturalmente, fazem-me lembrar Portugal. Mas terá havido outras nações que o inspiraram na criação da Istmânia?
Pergunta-me você se, fazendo-lhe a Istmânia lembrar Portugal, a Meseta, a Meseta em guerra neste livro, será a Espanha, a Guerra Civil de Espanha? A resposta é de novo não e sim. Porque a Guerra Civil de Espanha foi a tragédia que se sabe. Desencadeadora das tragédias que sabemos. Nesse sentido, só poderá estar também neste livro, em dor, em trauma, em olhar. Mas é a Guerra, ela própria, que está no centro do livro. Ao longo do século e já neste nosso tempo. Aquela que vimos e vemos e aquela que fomos e somos. O último teatro de guerra deste livro é uma TAC. O penúltimo é uma guerra num deserto com comboios de camiões pilhando museus num talvez Médio Oriente.  

Foi uma coincidência esta sua obra ter sido lançada perto do 25 de Abril?
O ter o livro sido lançado perto do 25 de Abril de 2009 foi uma coincidência. Tem no entanto ele muito a ver com o 25 de Abril em geral. Na medida na medida em que narra uma guerra em várias frentes contra a opressão, contra a brutalidade e contra a morte. E o 25 de Abril é, dessa guerra, desse encadeado e sucessão de guerras, uma batalha ganha. O livro termina já no século XXI. Com outras guerras, outras tecnologias da destruição, outras censuras, outras autocensuras. Hoje, que nos vemos todos, permanentemente, uns aos outros, hoje que estamos todos sempre em directo, veremos mais? Veremos melhor? Seremos mais vistos? Seremos melhor vistos?

A censura na Comunicação Social ainda o preocupa hoje em dia? A autocensura estará em crescimento, potenciada pela crise económica e pelo temor de perder o emprego?
Decerto sim. Embora a censura e a autocensura não sejam naturalmente fenómenos exclusivamente jornalísticos. O jornalismo, como a Democracia para o Churchill, é a pior forma de relatar factos de interesse público com excepção de todas as outras formas.      

O que o levou a optar por este estilo, com frases e capítulos muito pequenos?
A narrativa contém um arco de três ou quatro gerações e, se quiser, tem algum pendor cinematográfico. Capítulos, alguns curtos, mas muitos deles desdobrando-se, desenvolvendo-se, e por vezes extensamente, nos seguintes. Frases, algumas curtas, mas muitas articulando-se em períodos longos. É uma questão de ritmo e de montagem. De tensão e de pulsão.  

É uma obra muito cinematográfica. Gostaria de a ver transposta para o cinema? E realizada por quem?
Porventura por quem soubesse encontrar o essencial neste aparente jogo de circunstâncias e de episódios. Nesta tão antiga actualidade. Tão trágica e tão divertida. Que, respeitosa mas festivamente, convoca Ulisses, Fernão Mendes Pinto e Jack London. 

Que projectos tem em mente para o futuro? Vai continuar a contar, no seu estilo muito próprio, a História de Portugal? Se sim, que período?
Estou a trabalhar numa ficção sobre a República. Uma República. Uma revolução republicana. Poética, ingénua, generosa, burguesa, urbana, cavalheiresca. Mais uma vez imaginária e real. Que não será uma coincidência com a comemoração do Centenário da nossa Primeira República!

Uma resposta a Artur Portela – Entrevista a propósito de “A Guerra da Meseta”

  1. Caro Rui, Caros Leitores do Porta-Livros:

    Releio a entrevista.
    E permito-me uma adenda.
    Para admitir, claro, que a República que estou ficcionando não era só poética, ingénua, generosa, burguesa, urbana e cavalheiresca. Nem poderia ser, só. Não estou, assim, descrevendo bilhetes postais coloridos à mão reproduzindo uma revolução mitificada e beatificada. Como se verá, espero, em 2010.

    Saudações
    Artur Portela

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