“O Planalto e a Estepe” – Pepetela

o_planalto_e_a_estepe“O Planalto e a Estepe”, do angolano Pepetela, lançado em Abril de 2009 pela Dom Quixote é, sem surpresa, um livro belíssimo, que se lê quase de um fôlego e que faz jus à capa, daquelas que dá logo vontade de pegar no objecto-livro e folheá-lo.
A verdade é que a capa merece o miolo e vice-versa. Quem se deixa deslumbrar pela capa não fica desiludido com o que encontra lá dentro, embrulhado em frases coloridas, vivas, quentes, saborosas, mesmo quando relatam situações de tristeza, de drama, de sofrimento. E isso não falta em “O Planalto e a Estepe”, uma história que começa em Huíla, nos Sul de Angola, nos anos 60, e atravessa os tempos até à actualidade, depois de passar pela União Soviética, Mongólia, Argélia e Cuba.
A descrição dos tempos de meninice de Júlio (o protagonista), logo no início do livro, é das partes mais belas do livro, quando ainda tudo era puro e só havia as brincadeiras, as descobertas, a harmonia, envolvidas naquele acolhedor ambiente africano/angolano, junto da Tundavala.
É uma história de amor, inevitavelmente, baseada em factos verídicos, entre um homem (Júlio) e uma mulher (Sarangerel), entre esse homem e uma filha que lhe é levada antes de nascer. É uma história de um amor impossível porque vivido numa época e num contexto em que as ideologias estavam acima dos indivíduos e das suas necessidades mais íntimas. É a história de um angolano, branco, filho de português, que se apaixona por uma rapariga mongol quando ambos estudam em Moscovo, na União Soviética. Era um amor proibido, nomeadamente porque ela era filha de um alto dirigente da Mongólia e tinha reservado (ou idealizado) um futuro com alguém importante do seu país. Mas o amor por Júlio, e uma gravidez inesperada, espoletam uma série de acontecimentos que levam ao afastamento de Sarangerel, resgatada de novo para o seu país. Na União Soviética, Júlio não encontra apoio para a sua causa, recuperar a mulher e a criança que com ela partiu para a Mongólia. Outros interesses se levantavam, nada poderia importunar as relações entre soviéticos e os seus parceiros mongóis. Pôde contar com a solidariedade dos seus colegas de estudo, mas ninguém teve força para derrubar os interesses e preconceitos dos soviéticos e dos seus aliados estratégicos. Tudo em nome do colectivo, que assim abafou as individualidades. Já antes disto, Júlio, em conversas com os seus amigos estudantes oriundos de outros países amigos do regime soviético, chegara à conclusão que o idealismo que surgia ligado ao comunismo não passava disso mesmo, de idealismo. Na prática, a tão desejada igualdade não passava de uma ficção, ensombrada, nomeadamente, pelos espiões internos que havia ente os próprios estudantes, sempre atentos a ver se os outros seguiam os preceitos desejados.
É portanto uma obra sobre a desilusão face a um regime que se autoproclamava quase de perfeito mas que final vivia submerso nos mesmos vícios dos que criticava. Os mesmos vícios, modos diferentes de os viver.
Esses podres tornaram-se mais evidentes com o desmoronar da União Soviética, mas aí era tarde para Júlio reencontrar o(s) seu(s) amor(es) perdido(s).
Seguimos então o percurso de Júlio até se tornar um militar de carreira do MPLA, o que nos serve para em paralelo seguir o percurso da própria Angola, um percurso muitas vezes questionado pelo protagonista.
A descrição dos tempos de meninice de Júlio, logo no início do livro, é das partes mais belas do livro, quando ainda tudo era puro e só havia as brincadeiras, as descobertas, a harmonia, envolvidas naquele acolhedor ambiente africano/angolano, junto da Tundavala.

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12 responses to ““O Planalto e a Estepe” – Pepetela

  1. Olá Rui,

    Comprei o livro para conhecer o escritor. E Que escritor!
    Acredito ter sido um bom começo. Mas foi só um começo.

    Acabei de viajar com o Julio e quero mais!

    Saudações do Brasil,

    Dea

    • Olá Dea. Também foi o primeiro livro que li do Pepetela e também fiquei deliciado. É bpm saber que o Porta-Livros é lido com interesse aí do outro lado do Atlântico. Obrigado. Saudações, Rui Azeredo

  2. Li a crítica e este livro é com certeza mais um dos livros de Pepetela que me encantam. Tive a oportunidade de fazer uma pós em Literaturas africanas e assim conheci o autor. É intenso e realista. Já li Mayombe e Geração da Utopia, considerados seus clássicos, mas sugiro: “A parábola do cágado velho”. É fascinante e inspirador…

  3. Foi um alguém muito especial que me falou deste livro…
    Amei a capa e acho que vou amar a história.
    Gostei muito do seu blog e a paixão e carinho com que fala de livros:)!
    Parabéns!!!
    Vou vir aqui muitas vezes.
    A.

  4. Sempre ouvi falar muito do Pepetela, pois sou fã da literatura africana, mas ainda não tinha lido nada dele, até que vi na livraria e me encantei com a capa e a sinopse da história.
    Já estou na metade e curtindo muito, sem dúvida é muito interessante e com certeza lerei outras obras dele.
    Sou uma leitora em descoberta, por isso é bom saber o que outras pessoas pensam sobre suas leituras…

    Parabéns pelo blog!!

    Um abraço,
    Paty

  5. Ah! Assim como alguns leitores de Pepetela, “O planalto e a Estepe” foi meu caminho de iniçiação. Também amei e li num só fôlego. É uma narrativa poética, encantadora e ao mesmo tempo realista. Simplesmente simples e sofisticado.
    Ana Ramos

  6. O livro é bom, ainda que deixe um “q” de Garcia Marques, traz à tona perspectivas velhas do Comunismo, referente a ideia do que não deu certo, como se o capitalismo tivesse dado, ou seja, as colocações políticas são precárias e o livro se salva pela histórinha de amor. Como já mencionei, se você já leu O Amor no tempo de Cólera não vai encontrar nenhuma novidade nesse livro, exceto que a paixão de Julio e Sarangerel é realmente verdadeira, o que não acontece no caso de Florentino e Firmina. Pepetela é um bom autor, mas esse livro não é tudo isso que estão falando. Aqueles que nunca o leram vão devagar, como em quase tudo o que se vende e está na moda ( e hoje África é Moda) , há muita fumaça pra pouco fogo.
    Ao dono do Blog, Parabéns pelo trabalho e obrigado pelo espaço.
    Abraços

    Ari Mascarenhas

  7. Só duas palavras ao Povo Angolana, o meu povo, a quem amo de coração e com tanta saudade de terra. A leitura de autores angolanos é feita com orgulho e satisfação. Obrigada Pepetela por este livro.
    néné

  8. Olá, Rui. O Blog está ótimo! Muito estimulador pra quem busca conhecer Pepetela e essa obra. Como crítico, apenas sugiro corrigir no texto uma pequena gafe: trocar (se for possível reeditá-lo) “João” por “Júlio”, que é o nome do protagonista, na linha 9 do 5º parágrafo, pra não confundir um leitor menos atento.

    Não consegui acesso ainda ao livro, visto os poucos estímulos que existem para esse tipo de literatura, tanto pelo eurocentrismo ainda majoritário hoje como pelas espúrias vontades do mercado, que nos dá fácil acesso a Stephanie Meyers da vida e nada de Pepetela.

    • Olá Marcos.
      Antes de mais muito obrigado pelo «correctivo» – já está emendado, ou seja, já mandei o «João» embora :)
      de resto, obrigado pelas suas palavras elogiosas e espero que entretanto consiga arranjar o livro.
      Já agora, só para me situar, qual é a sua localização?
      Abraço
      Rui Azeredo

  9. Quanto a mim, a história de amor entre as personagens é apenas um dos ingredientes deste livro. A reconstituição histórica é fantástica. Além de não a considerar uma obra-prima, recomendo a leitora deste livro, pois é um bom livro.

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