Monthly Archives: Fevereiro 2009

“Corpo de Mentiras” – David Ignatius

corpo-da-mentiraMuitos são os jornalistas que tentam a sua sorte no mundo da ficção. Talvez fartos de ter conhecimento de dados e informações que, por um motivo ou por outro, não podem divulgar nos seus jornais, rádios os canais de televisão, resolvem escrever um romance relacionado com as matérias que manuseiam no desempenho da sua actividade profissional.

David Ignatius é um deles. Mas não é apenas mais um. Este autor norte-americano, colunista do “Washington Post”, é o autor de um dos melhores thrillers de espionagem recentemente editados no nosso país, “Corpo de Mentiras”, uma edição Bertrand. Esta obra, que recentemente foi adaptada ao cinema por Ridley Scott com o título “Corpo da Mentira” e com interpretações de Leonardo DiCaprio e Russell Crowe, tem por protagonista um agente da CIA, Roger Ferris, que está colocado na Jordânia para tentar impedir ataques da Al-Qaeda.

Escrito com um estilo muito visual, o que neste caso não é uma apreciação depreciativa, o livro, que decorre sempre a um ritmo imparável, proporciona bons momentos de leitura, deixando muitos temas para reflexão quanto aos métodos utilizados pelos serviços secretos norte-americanos na busca de informação. E essas reflexões não surgem por certo de forma inocente, já que Ignatius aproveitou os seus conhecimentos adquiridos enquanto jornalista para estruturar um enredo complexo mas perfeitamente credível, onde as personagens encaixam na perfeição, mesmo pese a ambiguidade da personalidade de algumas delas. Ambiguidade que, refira-se, nasce muitas vezes do facto de estarem inseridas num meio onde entre a verdade e a mentira há uma separação muito ténue ou em que o valor da verdade e da mentira não pode ser aquilatado pelos usuais padrões morais.

E é aí que o protagonista, Ferris, se depara com as maiores dificuldades, pois sem pôr em causa a nobreza da sua missão (detectar elementos da Al-Qaeda) começa a questionar os meios utilizados para atingir determinados fins. E esses meios acabam por pôr em causa a sua situação de agente secreto na Jordânia, onde, sem o querer, quebra os laços de confiança que tinha estabelecido com o chefe da secreta jordana. Isto muito por causa das exageradas desconfianças face a tudo o que é árabe por parte dos superiores de Ferris, que assim o colocam numa situação delicada.

body-of-lies-1310Ferris quase se vê compelido a actuar por conta própria depois de o seu plano inicial de captura de um importante chefa da Al-Qaeda ter saído gorado. E um novo plano vai deixá-lo numa situação ainda mais delicada, onde é usado por todos e onde acaba por não saber em quem confiar. O plano, inspirado num outro utilizado pelos ingleses para baralhar os alemães na Segunda Guerra Mundial, pretende gerar discórdia e suspeição entre os elementos da Al-Qaeda através da criação de uma célula terrorista fictícia que vem ocupar um papel preponderante no seio da organização.

David Ignatius prova assim conhecer muito bem os meandros deste mundo, reforçando que o papel da informação e da contra-informação é preponderante, às vezes mais importante até que o papel das armas.

A acção na obra é uma constante, alicerçada em personagens bem construídas e convincentes, entre as quais não há super-heróis, mas apenas homens (e mulheres) mais ou menos crentes nas suas capacidades e naquilo que defendem como certo. Há mesmo espaço para os habituais problemas conjugais e novas relações, mas sempre bem enquadrados na história e nunca surgindo a despropósito, revelando-se até cruciais para o desenrolar do fio da meada.

“Sem Rasto” – Chris Mooney

semrasto2“Sem Rasto”, de Chris Mooney, é um interessante thriller que chegou ao mercado nacional por iniciativa da Mill-Books. O autor vive em Boston e é essa cidade/área norte-americana que serve precisamente de palco a esta história sobre raparigas/mulheres desaparecidas.

Uma agente CSI de Boston, Darby McCormick, tem no seu passado de adolescente o envolvimento, enquanto vítima, em um caso de desaparecimento. Uma amiga sua, com quem, por acaso, assistiu num bosque a uma violenta agressão de um desconhecido sobre uma mulher, acaba por desaparecer uns dias mais tarde. Uma outra amiga, também testemunha do mesmo crime, acaba por ser brutalmente assassinada. Só escapa a própria Darby, mas não escapa a transportar consigo ao longo da vida o peso da culpa de ser a sobrevivente desse caso ocorrido já na década de 80. O culpado, esse, nunca foi apanhado.

Filha de um polícia, entretanto falecido, Darby segue também carreira nas forças de segurança e torna-se investigadora criminal.

Sem vida pessoal que a satisfaça, Darby vive para a sua profissão e para a mãe, que sofre de uma doença incurável e necessita de constate apoio. Até que um dia, ao investigar o desaparecimento de um casal de namorados, encontra uma mulher bastante debilitada, física e psicologicamente, que, vem a saber-se, fora raptada cinco anos antes. De alguma forma, a desconhecida logrou escapar ao seu raptor, que a mantinha encerrada num calabouço.

Darby enceta uma desesperada caça ao raptor, de modo a evitar mais mortes, mas na verdade essa caçada vai levá-la a envolver-se em algo muito maior, vai levá-la a regressar ao seu passado.

Chris Mooney conseguiu, mesmo sendo homem, vestir bem a pele de uma protagonista feminina, deixando-nos enredados na mente de Darby e fazendo-nos viver intensamente os acontecimentos pelos quais ela vai passando.

Os ambientes cinzentos de Boston (a nível de paisagem, de clima e de mentalidade) são retratados de forma crua por Chris Mooney, de uma forma que só poderia ser feita por alguém que vive intensamente aquela região. Um pouco na senda do que vem fazendo Dennis Lehane, o autor, de “Mystic River”, “Shutter Island” ou “Gone, Baby, Gone”.

Como qualquer bom policial, não faltam em “Sem Rasto” elementos que surpreendam, que assustem, ou seja, que nos deixem completamente enredados numa teia que vem sendo construída há mais de vinte anos.

Por vezes brutal e impiedoso, tem tudo para agradar aos amantes do género. O ritmo é intenso, o autor não perde tempo com superficialidades, e não faltam surpresas, mesmo para o mais atento dos leitores de polícias, que está sempre atento à espera de por antecipação detectar reviravoltas no argumento.

Note-se ainda que a investigação forense está bem fundamentada e detalhada, o que poderá agradar a fãs de séries televisivas como “CSI”.

Carmo Miranda Machado apresenta “Eu Mulher de Mim” na Casa do Alentejo, em Lisboa

No dia 23 de Fevereiro (segunda-feira) será apresentada a obra “Eu Mulher de Mim – Em Lisboa, além Tejo e todo o Mundo”, da autoria de Carmo Miranda Machado.

Com a apresentação de Edite Esteves, a sessão, a ter lugar na Casa do Alentejo, às 19h00, vai contar também com a participação de Maria do Céu Guerra. Haverá ainda poesia pelo Grupo de Jograis U… Tópico.

 

“Tigre de Papel” – Olivier Rolin

tigre1Olivier Rolin resolveu passar à escrita aquilo que ele e os seus companheiros de luta e de causa viveram na “quente” época do Maio de 68. Daí surgiu “Tigre de Papel”, uma notável obra, de difícil leitura (é certo), mas cativante e envolvente, por nos levar a uma época (para muitos desconhecida por ser demasiado recente para entrar nos livros de História) que abalou a França e teve repercussões em todo o mundo, já de si muito agitado.
Rolin, romanceando factos ocorridos quando ele próprio, com o nome falso de “Antoine”, lutava contra o poder instalado, põe-se na pele de Martin. Este, um antigo combatente ao regime, já na actualidade, enquanto conduz um “boca-de-sapo” (símbolo da época), conta à filha do seu melhor amigo (Treize) como eram aqueles tempos. O carro vai circulando ininterruptamente pela periférica de Paris (uma espécie de VCI do Porto em grande escala) e Martin debita histórias, justificações, arrependimentos, falando tanto dos momentos gloriosos, como dos fracassos. Trata-se quase de um monólogo, já que a jovem pouco intervém – uma espécie de confissão. Martin (ou Rolin?) tenta deixar tudo explicado, bem claro, para talvez fechar assim um ciclo, ao mesmo tempo que alerta implicitamente para a apatia que se vive na sociedade de hoje em dia.
Quase sempre na primeira pessoa (excepto quando Martin fala para ele próprio) o romance decorre a um ritmo por vezes difícil de acompanhar, sentindo-se uma espécie de ansiedade do autor em contar/confessar tudo o que viveu e pensou.
Mas, fique claro, “Tigre de Papel” não busca o perdão.

Olivier Rolin – Entrevista a propósito de “Tigre de Papel”

rolinoO escritor e pensador francês Olivier Rolin em conversa sobre “Tigre de Papel” (Edições ASA), romance que funciona como testemunho de uma época que marcou França e o próprio autor: o Maio de 68. Visto por dentro, o Maio de 68 é contado pelo narrador à jovem filha de um amigo já morto. Uma lição de história em forma de romance.É por isso que não utilizou o seu próprio nome?
Sim, de qualquer forma é um romance, não havia nenhuma razão para não ser um romance. E na época eu tinha um nome falso, que era “Antoine”. Mas eu fiz como em geral se faz com um romance. O autor fala da sua vida, das pessoas que nela entraram, dos eventos por que passou e depois modifica-os.
Por vezes a personalidade do narrador parece dividir-se.
É sempre ele. Às vezes fala dele mesmo dizendo “tu”, outras dizendo “eu”. Às vezes é observador dele mesmo.
O livro é dedicado especialmente aos franceses? Para quem não viveu o Maio de 68 pode ser difícil de entender.
Não. Cada romance aborda um determinado período da História. Este fala do ano de 68 em França, mas espero que diga algo aos alemães, aos portugueses…
É uma espécie de lição de história?
Não é uma lição porque um romance nunca pode ser uma lição, mas é uma tentativa de fazer entender quais eram os ideais e os sonhos dos jovens da época.
Actualmente, em França, este período já aparece nos programas escolares?
Não. E este livro tem a pretensão de mostrar aos jovens o que aconteceu na altura. Mas objectivamente é muito difícil compreender o que aconteceu na época. Não foi uma revolução, mas as pessoas acreditavam que a faziam. É algo difícil de situar no tempo. A base é bastante difusa.
Nota-se nas personagens uma certa desilusão.
Há desilusão, mas eu prefiro a palavra ironia. Mas há também um sentimento de simpatia pelo passado.
No entanto, parece sentir-se que eles perderam algo da juventude?
Não acho. Não é um livro de arrependimento. Eles não pensam que perderam o seu tempo, foi um período de formação. Não sinto que tenha perdido a juventude.
Um momento marcante de “Tigre e Papel” é quando Treize vê o mar, onde parece perceber que há outras coisas na vida?
É verdade. Todo o que fosse relativo a divertimentos pessoais, ao amor, à poesia, à beleza, passava-nos ao lado.
O vosso tipo de luta era algo pacífico. Preferia que tivesse sido mais violento?
Eu pessoalmente teria gostado disso. Mas o que eu apreciava, mais do que a violência, era a ilegalidade. Em comparação com movimentos de outros países não éramos tão violentos, porque não matámos ninguém. Era muito importante o elemento Robin dos Bosques, os documentos falsos. Não era só a política, apreciávamos muito o elemento aventura.
Esta obra convida os leitores a discutir o assunto. Esse era o objectivo?
É um convite à discussão, à aprendizagem. No entanto, não quero ser tomado por alguém que tem lições políticas a dar. Escrevi um livro que aborda um período histórico, porque eu próprio tomei parte de forma intensa dessa época. Eu sou um escritor, um novelista, não um porta-voz de um antigo movimento político, de um antigo esquerdismo. Não quero ser o autor de um livro que faz um julgamento político. Cabe a cada um julgar por si. A minha intenção foi apenas mostrar o que aconteceu. A literatura permite-nos conhecer coisas que não fazem parte de nós.
Às vezes um romance ensina mais do que os próprios livros de História. Concorda?
Mais do que a História, um romance permite dar conhecer a verdade de uma época.
Acha que a juventude da actualidade não tem causas pelas quais lutar?
Cheguei a pensar assim. Mas, actualmente, com a globalização, há cada vez mais o renascimento de movimentos que se assemelham aos dos anos 60. Começa de novo a haver causas. Há dez anos a juventude estava muito despolitizada, mas agora nem tanto.
Este livro representa o fim de um ciclo na sua carreira?
Não penso regressar a este tema. Posso fazer alusões à época, mas sem ser o tema principal.

Esta obra é autobiográfica?
Bastante, mas de qualquer forma as histórias são inventadas. Nenhuma ocorreu exactamente como está descrita. Quase nenhuma personagem corresponde a uma personagem real. Parti de coisas que vivi e, como num romance, transformei, deformei.

 

(Entrevista realizada em 2003)

Saída de Emergência edita “Sangue Fresco”

sangue11A Saída de Emergência anunciou a compra dos direitos para a publicação da série “Sangue Fresco” em Portugal. O primeiro romance, “Morte ao Anoitecer”, chega às livrarias a 9 de Abril.

A série, no original intitulada “The Southern Vampire Mysteries”, é escrita por Charlaine Harris, que com os seus sete livros tem dominado o top do “New York Times”.

O sucesso desta série de livros levou Alan Ball (produtor de “Sete Palmos de Terra” e argumentista de “Beleza Americana”) a convertê-la em série televisiva com o nome “True Blood”, a passar actualmente em Portugal no canal Mov. Anna Paquin, que interpreta a protagonista, ganhou por este seu papel o Globo de Ouro para Melhor Actriz de televisão.

Booktailors lança “A Edição de Livros e a Gestão Estratégica”

edicao1A Booktailors lança em finais de Fevereiro “A Edição de Livros e a Gestão Estratégica”, de José Afonso Furtado. Este lançamento corresponde ao início de uma “biblioteca” que a Booktailors pretende construir alicerçada em obras destinadas a profissionais, investigadores e interessados no sector da edição e do livro.

Vem referido na sinopse do livro que “os conceitos de ‘edição de livros’ e de ‘gestão estratégica’ eram, até há não muitos anos, senão incompatíveis, pelo menos, dificilmente relacionáveis. (…) Com o advento de novos formatos, e face a uma redefinição total do sector livreiro e do mercado em que este se insere, os editores vêem-se confrontados com a imperiosa necessidade de repensar estratégias. Profusamente ilustrado com gráficos e diagramas, esta obra de José Afonso Furtado aprofunda as grandes transformações que a cadeia de valor do livro tem vindo a sofrer e contribui para repensar a forma como se tem vindo a produzir e a comercializar livros nestes primeiros anos do século XXI.”
O autor, José Afonso Furtado, é licenciado em Filosofia, trabalhou em diversos organismos governamentais na área da cultura. Entre 1987 e 1991 foi presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura. Entre 1998 e 2007 integrou o Conselho Superior de Bibliotecas. Actualmente pertence à Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura, é director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (desde 1992) e docente do curso de Pós-Graduação em Edição – Livros e Novos Suportes Digitais, da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.
Já publicou obras como “O Que é o Livro”, “Os Livros e as Leituras: Novas Ecologias da Informação” e “O Papel e o Pixel: Do Impresso ao Digital – Continuidades e Transformações”.