“Amores Feiticeiros”, do escritor marroquino radicado em França Tahar Ben Jelloun, é um livro de novelas, editado pela Cavalo de Ferro, onde o autor, através de histórias de amor (ou desamor), faz um retrato dos contrastes entre Ocidente e Oriente, mas também do quanto teria a ganhar a sociedade marroquina se mais se ocidentalizasse.
Estas histórias de amor que nos apresenta, invariavelmente com acção em Marrocos, representam, acima de tudo, o choque, por vezes impossível de aceitar, entre o pragmatismo das sociedades modernas e as “feitiçarias” de um mundo mais tradicional, ainda bastante enraizado em Marrocos. Mesmo as personagens mais cépticas quanto ao poder das feitiçarias, mezinhas, poções, etc. acabam por se tornar mais crentes face às vicissitudes da vida, que não conseguem “curar” com um pensamento racional próprio das sociedades modernas.
Invariavelmente são homens com cargos ditos mais iluminados, músicos, advogados, escritores, cientistas, que, apesar de nascidos em Marrocos, têm dificuldade em aceitar o mundo mágico da superstição.
Mas uma obra de Ben Jelloun não poderia “limitar-se” a abordar temas como o amor e a superstição e, sendo assim, não falta a crítica social e política neste livro, não poupando o obscurantismo que tantas vezes ensombra o país.
Há um conto que se destaca dos restantes, por abordar uma temática diferente da geral, mas não é por isso que chama mais a atenção. É realmente um conto belíssimo, apesar de trágico, onde o autor se põe na pele de um dos autores – um qualquer, não identificado – dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Revela-nos o dia dele antes do ataque terrorista, especialmente os seus pensamentos, muitas vezes contraditórios. Mostra-nos como para conseguir levar a cabo os seus intentos – participar no ataque terrorista – tem de se separar da criança que foi no passado, como se de uma resultassem afinal duas pessoas bem distintas. Uma situação de conflito interior, muito provavelmente comum a tantos que optam pelo fundamentalismo religioso. Atenção, portanto, a “A Criança Traída”.
“Amores Feiticeiros”, traduzido por Maria do Rosário Mendes, tem 272 páginas. A obra, um original de 2003, está dividida em quatro partes – Amores Feiticeiros, Amores Contrariados, Traição e Amizade – e consegue captar o leitor pela intensidade e genuinidade com que o autor “veste” as suas personagens, pessoas normais, com problemas graves e soluções, por vezes, inesperadas.
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